Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.128 materiais32.747 seguidores
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fundamentais para
a formação de uma cultura em Southall".5 Todavia, até mesmo
os nacionalistas antiocidente podem simplesmente se apro-
priar da retórica internacional dominante de cultura para afir-
mar á identidade singular do seu próprio povo, sem medo de
se contradizerem. "Achamos que a maior ameaça à nossa so-
3. MARSHALL, Jessica. .Shelf Life. Franca, p. 27, mar./abr. 1995.
4. SAHLINS, Marshall. Goodby to Tristes Tropes: Ethnography in the
Context of Moclern World Histoiy. Journal of Modem Histoiy, v. 65,
p. 3-4, 1993.
5. BAUMANN, Gerd, Contesting Culture: Discourses of Identity in
Multi-Ethnic London. Cambridge: Cambridge University Press,
1996T p. 145.
122
Introdução
ciedade atualmente", cliz um político iraniano fundamentalista,
"é cultural".".(Mas certamente falar sobre identidade cultural é
muito... americano?) Akio Morita, um cios fundadores da Sony,
rebate as alegações cie que o Japão deveria, liberalizar seus
acordos de,comércio para permitir uma maior competição cie
empresas estrangeiras. "Reciprocidade", explica ele, "significa-
ria alterar as leis para aceitar sistemas estrangeiros que podem
não ser adequados à nossa cultura".7 (Felizmente, vender tele-
visores Sony para os-américanos e fazer filmes hollywoodiafios
está perfeitamente de acordo com a cultura japonesa,) _
Talvez o futuro cie todo o mundo dependa cia cultura.
Em 1993, Samuel Huntington anunciou num artigo apocalíp-
tico para a revista norte-americana Foreign Affairs que a his-
tória global iniciou uma nova fase, em que "as principais fon-
tes cie conflito" não serão fundamentalmente econômicas ou
ideológicas. "As grandes divisões entre a humanidade e as
principais fontes de conflito serão culturais."8 Ao discorrer so-
bre essa tese recentemente num livro, ele afirmou que pode-
mos esperar um gigantesco choque cíe civilizações, cada qual
representando uma identidade cultural primordial. As "princi-
pais diferenças no desenvolvimento político e econômico en-
tre as civilizações estão claramente enraizadas em suas cultu-
ras distintas", e "a cultura e as identidades culturais... estão
moldando os padrões de coesão, desintegração:e conflito no
mundo pós-Guerra Fria,.. Nesse novo mundo, a política, lo
\u2022 cal é a política da etnicidade; a política global é a política de
civilizações, A rivalidade cias superpotências é substituída
pelo choque de civilizações".9 , .
6. International H, p. 5, 1996. __
7. Apud BURÚMA, lan, The Mtssionary and the Libertina Lovè and
War in East anel West. Londres: Faber, 1996. p, 235.
8. HUNTINGTON, Samuel P. Foreign Affairs, p. 22, verão 1993-
9. Id. The Clash of Ciinlization and the Remaking of World Or-
der. Nova York: Simon and Schuster, 1996. p, 29- As observações
seguintes são das páginas 20 e 28. Observe-que o ensaio original
fazia a pergunta ("as principais fontes de conflito"). Agora, apa-
rentemente, a pergunta foi respondida, de forma afirmativa.
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Introdução Introdução
Não é preciso dizer que cultura tem um significado bas-
tante diferente para os pesquisadores de mercado em Lon-
'dres, para um magnata japonês, para os habitantes da Nova
Guiné e para um religioso radical de Teerã, sem falar em Sa-
muel Huntington. Há, entretanto, .uma semelhança familiar
'. entre os conceitos que eles têm em mente" Em seu sentido
mais amplo, cultura-é simplesmente uma forma de falar so-
bre identidades coletivas. Porém, o status também está em
jogo. Muitas pessoas, acreditam que, as culturas podem ser
comparadas, e tendem a prezar mais a sua própria cultura.
Elas-podem, até mesmo, acreditar que exista apenas uma ci-
vilização verdadeira, e que o futuro não. apenas cia nação,
mas do mundo, depende da sobrevivência da sua.cultura. "A
despeito dos multiculturalistas", insiste Roger Kimball, "a op-
ção atualmente não é-entre uma cultura ocidentar'repressiva'
e um paraíso multicultural, mas sim entre cultura e barbaris-
mo. Civilização não é uma dádiva, mas sim uma conquista -
uma conquista frágil que precisa ser constantemente reafir-
mada e defendida interna e externamente contra sitiadores".10
Huntington diz-que o conflito de civilizações pós-Guerra Fria .
não passa de um estágio no caminho da luta maior que está
por vir, "o conflito maior, o 'verdadeiro conflito' global, entre
Civilização e barbarismo".11
Enquanto os patriotas da Civilização ocidental reivindi-
cam a superioridade da grande tradição, os multiculturalistas
comemoram a diversidade cia América e defendem a cultura-
cios marginalizados, das minorias, cios dissidentes e cios colo-
nizados. A cultura do establishment é denunciada como
opressiva. A&_culturas das minorias fortalecem os fracos: elas
são autênticas; elas falam para pessoas cie verdade; elas man-
têm variedade e escolha; elas alimentam a dissensão. Todas as
culturas são iguais, ou deveriam ser tratadas como "tal. "Por-.-
tanto, a cultura como tema ou tópico cie estudo substituiu a
sociedade como objeto geral de indagação entre os progres-
W. KIMBALL, Roger. Tenured Radicais, New Criterío.n, p.. 13, jan.
1991. '\u2022'(-\u2022'\u2022
11. HUNTINGTON, Samuel P. op. cit. p. 321.
sistas", escreve Erecl Inglis, com um leve toque de ironia.12 Mas
embora os conservadores rejeitem esses argumentos, eles con-
cordam que a cultura estabelece padrões públicos e determi-
na o destino cia nação. E quando pessoas de nações e grupos
étnicos distintos entram em contato, há um confronto total cie
culturas. Alguém deve-ceder nesse conflito.
A cultura também é usada freqüentemente com outro
sentido, para se referir à grande arte que é apreciada por pou-
cos afortunados. Mas não se trata simplesmente cie uma reali-
zação pessoal. Se a arte e a erudição forem ameaçadas, o bem-
estar cie toda a nação estará em jogo. Para Matthew Arnold, a
verdadeira luta cie classes não era travada .entre ricos e pobres,
mas sim entre os guardiões da cultura e as pessoas,a quem ele
chamava de filisteus, que serviam a Mamon. Escritores radicais,
contudo, negam que a cultura da elite dissemina doçura ejuz.
A alta cultura pode representar um instrurnento de dominação,
um ardil cias castas. Em meio à elite, argumentou Pierre Bõur-
dieu, o valor das altas culturas reside precisamente no fato cie'
que a capacidade de avaliar obras de arte e fazer distinções
por si só confere "distinção".13 A cultura é õ dom do gosto re-
finado que diferencia unia clama ou um cavalheiro do'novo-
rico. Para os adeptos da tradição marxista., a cultura tem seu
lugar numa luta de classes mais ampla. A alta cultura disfarça
as extorsões dos ricos. A cultura de massa de Ersatz confunde
os'pobres. Apenas as tradições culturais populares podem'con-
trapor-se à corrupção cia mídia de massa.,
Embora haja muita conversa em torno de cultura, discus-
sões desse tipo obviamente não são novas. Todas elas aflora-
ram durante uma explosão semelhante cie teorização cultural
.que ocorreu entre as.décadas cie 1920 e de 1950, como mostra
o próximo capítulo. (Talvez essa longa discussão apenas tenha
sido interrompida.durante uma geração em virtude cljjs preocu-
pações ideológicas cia Guerra Fria). Naquela época, assim como
agora, os autores mais reflexivos citavam seus precursores cios
séculos 18 e 19, reconhecendo que os discursos sobre cultura
tendem a se encaixar em categorias bem definidas.-
12. INGLIS, Frecl. Cultural'Studies. Oxford: Blackwell, 1993. p. 109.
13. BOURDIEU, Pierre. Distinction: A Social Critique of the Judge-
ment of Taste. Londres: Routledge, 1984.
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Introdução Introdução
Uma teoria francesa de cultura, uma alemã e uma Ingle-
sa muitas vezes são identificadas cie forma vaga.- Da mesma
forma, e igualmente vaga, podem-se distinguir discursos ro-
mânticos, clássicos e ilúministas. Tratam-se de rótulos toscos
para constructos complexos que são regularmente separados
e reagrupados em novos padrões, ^ adaptados, declarados
mortos, revividos, renomeados, remodelados e, em geral,