Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
36 pág.

Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.128 materiais32.742 seguidores
Pré-visualização17 páginas
su-
jeitos a uma variedade de transformações estruturais. No en-
tanto, apesar de grosseira, essa. classificação fornece uma
orientação inicial. Até mesmo os pensadores mais imaginati- ,
vos e originais podem encaixar-se em uma ou outra dessas
tradições centrais, cada uma delas especificando uma con-
; cepção de cultura e colocando-a em .ação dentro cie uma de-
terminada teoria da história.
Na: tradição francesa, a civilização ê representada como
« uma conquista progressiva, cumulativa e. distintamente, huma-
na. Os seres humanos são semelhantes, pelo menos em po-
tencial. Todos-são capazes de criar uma civilização, o que de-
pende do dom exclusivamente humano da razão. Não resta
dúvida, de que a civilização se desenvolveu mais na França,
-mas .em princípio ela pode ser usufruída, embora talvez não
com a mesma intensidade, por selvagens, bárbaros e outros
povos europeus. Segundo Louis Dürripnt, um francês, portan- :
íõ, vai "identificar inocentemente sua própria cultura com 'ci-
vilisation' ou cultura universal"." Para ser exato, um francês
"reflexivo admitiria prontamente que a razão nem sempre pre-
valece,' ela precisa lutar contra a tradição, a superstição e o
instinto irracional. Mas ele poderia ficar confiante na vitória
;suprema dá civilização, pois ela pode convocar a ciência para
vir-em seu auxílio: a. mais alta expressão da razão e, certamen-
te, da cultura ou civilização, o conhecimento verdadeiro e efi-
caz das leis que informam a natureza e a sociedade.
Esse credo secular foi formulado na França na segunda
metade do século 18, em, oposição ao que os phtiosophes con-
sideravam como forças cie reação e irracionalidade, represen-
tadas, acima cie tudo, pela igreja católica e pelo ancien regime. '
A medida que esse creçlo se espalhou pelo resto da Europa,
sua maior oposição ideológica veio cios intelectuais alemães,
amiúde ministros protestantes incitados a defender a tradição
nacional contra a civilização cosmopolita; os valores espirituais
contra o materialismo; as artes e os trabalhos manuais contra a
. "i
ciência e a tecnologia; a genialidade .individual .e a expressão
das próprias idéias contra a burocracia asfixiante; as emoções,
até mesmo as forças mais obscuras.do nosso íntimo contra a
razão árida: em suma, Kultur contra Civilização:
Ao contrário cio conhecimento científico, a sabedoria
da cultura é subjetiva. Suas reflexões mais profundas são re-
lativas, e não leis universais. O que é válido em vim lado dos
Pireneus põcle representar um erro do outro lado. Mas quan-
do a fé cultural é corroída, a vida perde todo o seu signifi-
cado. Enquanto a civilização material está ganhando terreno
em toda a sociedade européia, as nações lutam para manter
uma cultura espiritual, expressada acima cie tudo por inter-
médio cia linguagem e das artes. A autêntica Kultur dos ale-
mães certamente seria preferível à Civilização artificial de
uma elite francófona cosmopolita e materialista. De qualquer
,forma, diferença cultural era normal. Não existe uma nature-
za humana comum. "Tenho visto franceses, italianos, rus-
sos", escreveu o contra-reyolucionário, francês de Maistre.
"Mas quanto ao homem', declaro que jamais o conheci; se ele
existe, desconheço."15 (Pode ser que Henry James tivesse
esse aforismo em mente quando escreveu: "O homem não é
um só - afinal, o americano tem características muito dife-
rentes do francês, e assim por diante."16)
Essas duas correntes de pensamento sobre cultura se de-
senvolveram em oposição dialética uma ã outra. Um tema im-
portante dos pensadores iíuministas era o progresso cio ser
humano,.ao passo que seus oponentes estavam interessados
no destino específico de uma nação. Na visão do Iluminismo,
a civilização travava uma grande luta para vencer a resistên-
cia cias culturas tradicionais,.com suas superstições", seus pre-
14. DUMONT, Louis. German Ideoldgy: From France to Germany
and Back. Chicago: University ôf Chicago Press, 1994. p. 3"'
15. MAISTREj Joseph de. Considerations on France. Cambrictge:
Cambridge University Press, 1994 (publicação francesa, 1797). p. 53.
16. Heniy James, carta a William Dean Howells, i de maio de 1890.
126
27
Introdução
conceitos irracionais e suas lealclades temerosas a governan-
tes sarcásticos. (Diderot disse que só descansaria em paz
quando o último rei fosse estrangulado com as entranhas cio
último sacerdote.) Da parte cio contra-Iluminismo, a definição
cie inimigo era civilização, racional, científica e uniyersal: o
próprio Iluminismo. Associada a valores qiateriais, ao capita-
lismo e muitas vezes à política externa e à influência econô-
mica, essa civilização ameaçava a cultura autêntica e conde-
nava artes seculares à obsolescência. O cosmopoli.tanismo
corrompia a linguagem. O racionalismo perturbava a fé reli-
giosa. Juntos, eles corroíam os valores espirituais dos quais
dependia a comunidade orgânica.
Essas ideologias contrastantes poderiam alimentar a retó-
rica nacionalista e suscitar emoções populares em épocas, de
guerra, mas até mesmo em sua faceta mais virulenta, elas nun-
ca foram meramente discursos nacionais. Alguns intelectuais
franceses simpatizavam com o contra-Iluminismo apenas por-
que ele saía em defesa da religião contra a insicliosa subver-
são cia razão. Depois da batalha de Seclan, em 1870 (vencida,
assim disseram, pelos professores da Prússia), a idéia de uma
cultura naciqnah penetrou numa França humilhada, e "Ia cul-
ture Française" foi cada"vez mais contrastada com "Ia culture
allemancle", embora sem necessariamente comprometer as
reivindicações francesas de superioridade. (Ainda em 1938, o
Dicionário Quillet observou que o termo cultura podia ser
usado cie forma irônica, como na frase "Ia culture allemancle".)_.
Na Alemanha, havia uma antiga tradição do pensamento ilu-
minista que jamais submergiu completamente, embora algu-
mas vezes assumisse formas estranhas, quase irreconhecíveis.
Nietzche condenava seus compatriotas por sua caótica Bil-
dung, ou formação cultural, corrompida por -empréstimos e
moda, que ele contrastava com a Kultur orgânica da França,
que, por sua vez, equiparava com a própria Civilização. Ele
optava' pela civilização \u2014 em outras palavras, pela França:,
"berço da mais refinada e espiritual cultura européia".17 Um
dissidente francês como Baudelaire, por outro lado, podia
17. NIETZSCHE, F. Jensetis von GutunâBôse. Munique: Golclmann,
.1980. 254. p. 145.
i 28
Introdução
chamar a França de "um país verdadeiramente bárbaro" e es-
pecular que talvez a civilização "tenha se refugiado em algu-
'*ma tribo minúscula, porém ainda não descoberta".18 A Primei-
ra Guerra Mundial foi travada por trás das bandeiras rivais cia
Civilização ocidental e da Kultur alemã, mas bem na sombra
da guerra, os irmãos Thomas e Heinrich Mann se colocaram
em lados opostos - o alemão e o francês - 'num famoso de-
bate sobre cultura e civilização'.
Nessas duas tradições, cultura ou civilização representa-
va os valores supremos. Aventou-se a hipótese de que. esses \u2022-
conceitos tenham sido propagados no século 18 porque a re-
ligião estava perdendo seu domínio sobre muitos intelectuais.
Essas tradições constituíam uma alternativa, fonte secular cie
valor e significado. Cada uma delas, todavia, tinha afinidades'
com uma determinada perspectiva cristã. A idéia de Civiliza-
ção lembra as reivindicações universalistas da igreja católica.
Comte e Saint-Simon criaram a religião do positivismo, para
a qual tomaram emprestados rituais católicos. Seu dogma
central era o progresso, que representava a salvação neste
mundo. As noções alemãs cie Bildung e Kultur, expressadas ,
de forma característica numa linguagem espiritual, compro-
metidas com as necessidades cia alma do indivíduo, que va-
lorizam mais a \u2022 virtude interior do que a aparência exterior e
encaram com pessimismo o progresso secular, por sua vez,
: estão impregnadas,dos