Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


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valores da Reforma, e Thomas. Mann
afirmou que a Reforma imunizara os alemães contra as idéias
da Revolução Francesa.
Qs ingleses, como sempre, mantiveram-se um tanto
afastados desses argumentos continentais. John Stuart Mill
tentou reunir as tradições francesas, e inglesas em seus famo-
sos ensaios sobre Bentham e Coleridge, mas os ingleses ti-
, nham suas próprias preocupações. À medida que a industria-
lização'transformava a Inglaterra, os intelectuais identifica-
vam uma crise espiritual, uma luta de vicia ou de morte entre
o que Shelley chamou cie Poesia e Mamon. A" tecnologia e o
18. BAUDELAIRE. Apud STAROBINSKI, Jean. Blessings in Disguise:
Or, The Morality of Evil. Cambridge, Mass.: Harvard University
Press, 1993. p. 54.
Introdução
matérialismo da civilização moderna incorporavam o inimigo,
contra o qual os intelectuais liberais lançavam valores cultu-'
Tais eternos extraídos cia grande tradição da a'rte e da filoso-
fia européias. Matthew Arnold definiu cultura como "o me-
lhor de tuclo o que se teve conhecimento e foi dito",1' um câ-
non cosmopolita duradouro. Adquirindo cultura, ficamos co-
nhecendo "a história do espírito humano". Era ela que dístin-
guia os eleitos dos bárbaros incultos.. Mas esse legado huma-
nista estava sob o cerco dos.exércitos cia civilização indus-
trial. A grande interrogação era se a cultura intelectual cia eli-
te instruída poderia, cie alguma forma, sustentar os valores
espirituais cia sociedade. Talvez a cultura cedesse, esmagada
pelo materialismo exacerbado cie homens compenetrados .
que sabiam o preço cie tuclo, mas não sabiam o valor de
nacla. "À medida que as civilizações avançam", concluiu Ma-
caulay, "há uni declínio quase inexorável da poesia".-9
No çntanto, de nada adianta exagerar o caráter distinto
da tradição inglesa. Arnold recorreu a Coleridge, e este, aos
românticos alemães. As preocupações e os valores se sobre-.
punham. Em todos os lugares, cultura representava a esfera .
dos valores supremos, sobre os quais acreditava-se que se
apoiava a ordem social. Como a cultura era transmitida atra-
vés cio Cisterna educacional e exprimida de forma mais inten-
~ sã por intermédio cias artes, essas eram áreas essenciais que
um intelectual deveria estudar para aprimorar-se. E como o
destino de uma nação dependia da condição de sua cultura,
essa era uma arena importantíssima para a ação política.
Os argumentos modernos não recapitulam cie forma pré- \u2014
cisa as controvérsias anteriores. Os contextos cia época dei-
xam a sua marca. Cada ,geração moderniza o idioma do deba-
te, via de regra adaptando-o à terminologia científica do mo-
mento: evolucionismo no final do século 19, organicismo no
;início do século 20, relatividade na década de 1920. Metáforas
19. ARNOLD, Matthew, Ltíerature and Dogma. Londres: McMillan,
1873.
20. Thomas Babington Macaulay, "Milton". Publicado pela primei-
ra vez em 1825; retirado de Criticai and Historical Essays, 1843;
reimpressò por Everyman's Libraiy. Londres: Dent, 1907. p. 153.
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Introdução
emprestadas cia genética competem, hoje em clia, com o jar-
gão cia teoria literária contemporânea. Entretanto, mesmo que
fossem expressados em termos modernos, os discursos sobre
cultura não são inventados livremente; :eles remontam a cleter-
rninadas tradições intelectuais que persistiram por gerações,
disseminando-se da Europa para todo o mundo, impondo
concepções da natureza humana é da história, provocando
uma série cie debates recorrentes. Vozes ancestrais perseguem
os escritores contemporâneos. Novas formulações podem ser
estabelecidas numa longa genealogia, mesmo que estejam re-
lacionadas com as necessidades cio momento.
À medida que as ciências humanas se consolidavam, es-
colas de pensamento rivais recorriam a essas perspectivas
clássicas. Temas centrais da visão iluminista do mundo ou da
ideologia francesa ressurgiram no positivismo, no socialismo
e no utilitarismo cio século 19. No século 20, a idéia cie uma
civilização mundial científica progressiva foi traduzida parada
.teoria cia globalização. A curto prazo,-a cultura representou
uma barreira à modernização (ou industrialização, ou globali-
zação), mas no final a civilização moderna passaria por cima
das tradições locais menos eficazes. A cultura foi invocada '
quando tornou-se necessário explicar por que as ..pessoas es-
tavam adotando metas irracionais e estratégias auto-clestruti-
vas. Projetos cie desenvolvimento-eram derrotados pela resis-
tência cultural. A democracia desmoronava porque estava
alheia às tradições da.'..nação. Teorias de opções racionais não
podiam explicar o que os economistas -desesperaclamente
chamam cie. "apego", formas cie pensar e agir tão arraigadas
que resistem aos argumentos mais convincentes. A cultura re-
presentava o retrocesso, para explicar o"comportamento apa-
rentemente irracional. Ela também foi responsável pelo resul-
tado, desapontadqr de muitas reformas políticas. A tradição era
o refúgio dos ignorantes e receosos, ou o recurso cios ricos, e
poderosos, que temiam perder .seus privilégios.
Vista sob outro prisma, -a resistência cias culturas locais
a globalização provavelmente é respeitada e até mesmo co-
memorada. Essa era a perspectiva cios herdeiros cio contra-
Huminismo. A tradição romântica, ou alemã, também não fi-
cou estática. \u2022 Ela passou por suas próprias transformações,
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Introdução
..embora exibisse sempre uma afinidade eletiva com idealis-
mo, relativismo, historicismo,_.um estilo hermenêutico de aná-
lise e o que chamamos atualmente cie identidade política. Ri-
charcl A. Shweder tentou, até mesmo, fazer uma genealogia
ligando p movimento romântico cio século 19-ao que ele cha-
ma cie "rebelião romântica contra o íluminismo"21 dos antro-
pólogos contemporâneos.
Mesmo crue vestissem novas roupagens, as idéias clássi-
cas sobre cultura não eram soberanas, Elas enfrentavam novas
rivais, e a maior delas surgiu com a -publicação de A origem
das Espécies de Darwin, em 1859. Até mesmo o pensador me-
.nos científico não podia ignorar o desafio depois que Darwin
estendeu seu argumento aos seres humanos em-^4 Descendên-
cia do Homem, em 1871. Era preciso encarar a possibilidade
cie que os padrões cie comportamento humano e as diferen-
ças humanas podiam ser explicadas em termos biológicos. A
cultura segue leis naturais. Não obstante, a teoria darwiniana
íião tornava necessariamente obsoletas as idéias clássicas. A
teoria cie que todos os seres humanos tinham uma origem em
comum reafirmava a crença do íluminismo ha unidade cia hu-
manidade, A civilização ainda pode ser considerada o traço,
que define a característica humana. A evolução cia. vida tam-
bém pode fornecer um modelo para a evolução da civilização.
Os seres humanos representavam uma evolução dos macacos,
e'raças superiores - ou civilizações superiores - representa-
vam, da mesma forma, uma evolução cie raças inferiores e dê
suas civilizações. O próprio Darwin compartilhava dessa opi-
nião, mas alguns dos seus seguidores foram recrutados para a
causa do cõntra-Iluminismo. Disparidade cultural pode ser
uma expressão de diferenças raciais mais-fundamentais. A pu-
reza racial podia ser um imperativo político, ligada inextrica-
vélmente à defesa de uma identidade cultural. A história pode-
ser escrita com sangue, tendo como tema a luta pela sobrevi-
vência entre as raça-s.
21. SHWEDER, Richard A. Anthropòlogy's Romantic Rebellion
Against the Enlightenment. In: SHWEDER, Richard-A. ; LEVINE, Ro-
bert A. (Ed.X Culture Theory: Essays bn Mind, Self, and Emotion.
Cambriclge: Cambridge University Press, 1984.
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Introdução
O desafio cie uma teoria biológica cie progresso huma-
no e diferenças humanas levou ao desenvolvimento daquilo
que, sob alguns aspectos, representava uma nova concepção
de cultura, que passou a ser considerada o oposto da biolo-
aia. Era a cultura que diferenciava