Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.806 seguidores
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os seres humanos cios ou-
tros animais e clistinguia as nações umas cias outras. E ela não
era herdada biologicamente, mas sim assimilada, adquirida e.
até mesmo emprestada. Christopher Herbert afirmou que
essa noção cie cultura também nasceu de uma controvérsia
religiosa. Ele a associarão movimento cie revivificação evan-
gélica do início do século 19 na Inglaterra, que propagou
uma noção do pecado original que ele chama cie "o mito de
.um estado de desejo humano inçontrolado". A idéia de cul-
tura oferecia a esperança redentora de salvação secular: a
cultura era a nossa defesa contra a natureza humana. Os se-
res humanos deixavam sua condição de pecadores pelas gra-
ças dos tabus e das, leis. Herbert argumenta que "pode-se
considerar as idéias de cultura e desejo livre como dois ele-
mentos recíprocos complementares de um único padrão cie
discurso, embora um padrão repleto cie conflitos e necessa-
riamente instável".22 Talvez Herbert esteja certo e essa con-
cepção cie cultura tenha nascido em resposta a preocupações
religiosas, mas ela amadureceu em reação à revolução darwi-
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 niana, que ameaçava conferir autoridade científica a algo
como a doutrina do desejo humano inçontrolado.
Em nenhum outro lugar, o argumento contra o darwinis-
mo foi formulado com maior premência e intensidade do que
nos idos de 1880, em Berlim. O mais proeminente darwinista
cia Alemanha, Ernst Haeckel, aduziu conclusões políticas da
teoria darwinista que cleixou o próprio Darwin bastante
apreensivo. Segundo Haeckel, Darwin apresentara arguijten-
tos científicos irrefutáveis para o livre comércio e contra aris-
tocracias hereditárias. Sua teoria também podia ser usada para
demonstrar a superioridade da raça prussiana e para subscre-
ver as políticas cie Bismarck, que demonstravam os efeitos
maravilhosos da luta e da seleção.
22. HERBERT, Christopher. Culture and Anomie: Ethnographic
Imagination in the Nineteenth Centuiy. Chicago: University of Chi-
cago Press, Í991. p. 29.
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Introdução
O dogma de Haeckel espantou seu ex-professor, Rudolf
- Virchow, maior patologista alemão, político proeminente cie
visões liberais e mentor cia Sociedade cie Antropologia cie Ber-
lim. Do ponto de vista metodológico, sua objeção era quanto
a uma conclusão teórica prematura. O grande número de aca-
sos da mudança eyolucipnaria ainda não podia ser reduzido á
leis. Rudolf mostrava-se especialmente hostil em relação ao
determinismo racial -de Haeckel e ao nacionalismo cultural
com o qual este estava associado. Raças eram categorias ins-
táveis com fronteiras móveis, e a mistura racial era amplamen-
te disseminada, senão universal. Traços biológicos passavam
por cima das classificações raciais convencionais, que em to-
ei os os casos eram influenciadas por fatores ambientais locais.
Diferença cultural nào representava indício de diferença ra-
cial. Raça, cultura, língua e nacionalidade não coincidiam ne-
cessariamente. Os refugiados huguenotes, insistia Virchow,
"estão germanizados, assim como os numerosos judeus que
acolhemos da Polônia e da Rússia, e [que]... contribuíram so-
bremaneira para o nosso progresso cultural".23
O colega de Virchow, Adolf Bastian (que em 1886 se
tornou o primeiro diretor cio grande museu cie etnologia de
Berlim), tentou demonstrar que, assim como as raças, as cul-
turas são híbridas. Nào existem culturas puras, distintas e
permanentes': Toda cultura recorre a diversas "fontes, depen-
de de empréstimos e está em constante mudança. Os seres
humanos são bastante semelhantes, e toda cultura está enrai-
zada numa mentalidade humana universal. As diferenças cul-
turais eram causadas pelos desafios apresentados pelo am-
biente natural local é pelos contatos entre as populações. O
empréstimo era o mecanismo primário da mudança cultural.:
E como as mudanças culturais eram resultado de processos
locais imprevistos \u2014 pressões, ambientais, migrações, comér-
cio -\u2014 conseqüentemente, a história não tem um padrão fixo
de desenvolvimento.
25. Apuei ACKERKNEGHT, Erwin H. Rudolf Virchow: Doctor, Sta-
tesman, Anthropologist. Madison: .University of Wisconsin Press,
1953. p. 215-6.
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Introdução
Essa antropologia liberal berlinense foi caracterizada como
um misto de idéias iluministas e românticas, mas na realidade
baseava-se numa rejeição dupla. Se as culturas são abertas, sin-
créticas e instáveis, obviamente não podem expressar identida-
des essenciais imutáveis ou um caracter racial subjacente. E se
as mudanças culturais são resultado de fatores locais imprevis-
tos, por conseguinte não existem leis gerais cie história. Acima
de tudo, entretanto, a escola berlinense insistia em afirmar que
a cultura funciona de uma forma bastante distinta cias forças
biológicas - e pode até mesmo sobrepujá-las.
Franz Boas, aluno.de Virchow-e Bastian, introduziu essa
abordagem na antropologia americana. À medida que esta se
desenvolvia numa disciplina acadêmica organizada no início
do" século 20, ela era definida pela luta épica entre Boas e sua
escola e a tradição evolucionista, representada nos Estados
Unidos pelos discípulos de Lewis Hemy Morgan, cujas narra-
tivas 'triunfalistas de progresso utilizávamos metáforas da teo-
ria de Darwin. Os boasianos eram céticos em relação às leis
.universais da evolução. Além disso, eles repudiavam explica-
ções raciais de diferença, um assunto -de grande importância
política nos Estados Unidos. A tese fundamental boàsiana era
de que à cultura é que nos faz, e nào a biologia. Nós nos tor-
namos o que somos ao crescer num determinado ambiente
cultural; não nascemos assim. Raça, e também sexo e idade
são constructos culturais, e -não condições naturais imutáveis.
Isso quer dizer que podemos nos transformar em algo melhor,
talvez aprendendo com o pçvo tolerante cie Samoa, ou com
os balineses perfeitamente equilibrados.
Essa era uma idéia bastante atraente na América do sé-
culo 20, mas a compreensão racial alternativa de diferença
cultural continuava a ser um grande desafio. A idéia de cultu-
ra podia realmente reforçar uma teoria racial cie diferençar
Cultura podia ser um eufemismo para raça, estimulando um
discurso sobre, identidades raciais enquanto aparentemente
abjurava o racismo. Os antropólogos podiam distinguir siste-
maticamente raça e cultura, mas na .linguagem popular ''cultu-
ra" se referia a uma qualidade inata. Á natureza cie um grupo
era evidente. a olho nu, expressada igualmente pela cor da
pele, pelas características faciais, pela religião, pelos princí-
pios morais, pelas aptídqes, pelo sotaque, pelos gestos.e pe-
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Introdução
Ias preferências de alimentação. Essa confusão obstinada per-
. siste, Na clécacía de 1980, Michael Moffatt, etnógrafo que esta-
va realizando um estudo'sobre os alunos brancos e negros
que "dividiam um -dormitório na Rutgers University, relatou
que os alunos literalmente se recusavam a falar sobre raça,
mas acreditavam que falar sobre diferenças culturais era mo-
-derno e politicamente correto.21 Na prática, todavia, eles fa-
. ziam uma distinção entre brancos e negros, embora a diferen-
ça entre esses alunos parecia ser essencialmente no que tan-
ge ao gosto por grupos .pop e fast fpod.
''Cultura sempre é definida em oposição a algo mais.
Trata-se da forma local autêntica cie ser diferente que resiste
à sua inimiga implacável, uma civilização material globali-
zante. Ou o domínio cio espírito armado contra o materialis-
mo. Ou a capacidade que o ser humano tem cie crescer es-
piritualmente e que sobrepuja ~sua. natureza animal. Dentro
das .ciências sociais, a cultura aparecia em outro conjunto cie
contrastes: ela era a consciência coletiva, em oposição à psi-
que individual. Ao mesmo tempo, representava a dimensão
ideológica cie vicia social que se contrapunha à organização
comum de governo, fábrica ou família. Essas idéias foram
desenvolvidas pelos fundadores da sociologia européia