Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.134 materiais32.781 seguidores
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ligeiramente a tradução da se-,
guncla 'citação.
39 i
Introdução
conduzia à fonte original .cia linguagem e clã cultura. Havia
"uma .intrusa sentada ao hòsso lado "durante toda. a eonferên-
^ cia, a mente humana", disse ele aos participantes-. Se uma
nova ciência de cultura fosse conduzida pela lingüística, en-
'tão, juntas, no final essas ciências estabeleceriam a estrutura,
\u2022profunda que todas as línguas e culturas partilhavam e que
(certamente) era esboçada no próprio cérebro. Uma antropo-
logia científica.cartesiana estava esperando para nascer.
Isso tudo era bastante empolgante, mas era preciso ad-
mitir que os próprios lingüistas não tinham chegado a consen-
so sobre a niélhor rota para atingir a. sua grande meta. Lévi-
Strauss fora apresentado à lingüística por um companheiro de
exílio nos Estados Unidos durante a guerra, Roman Jakobson.
Seu modelo estava em conformidade com a fonologia estru-
tural ista desenvolvida pela Escola cie Praga. Ele aplicou- es.se
modelo primeiramente ao sistema do casamento, depois a
-métodos cie classificação e, por fim, a mitos. Os estruturalistas
americanos preferiram se deixar conduzir pela. gramática de
.transformação cie
 v Chpmsky. A faculdade cie Yale de Louns-
buiy e Goodenough (que recrutou vários doutores do Depar-
tamento de Relações Sociais de Harvarcl) iniciou uma investi-
gação científica formal cias estruturas subjacentes que gera-
1 vam- terminologias de parentesco, classificações botânicas,-
sintomas de doenças e .outras taxonomias. folclóricas que
constituíam domínios semióticos especializados.
Esses programas estruturalistas floresceram durante um
certo tempo, produzindo relatos notáveis de corpos específi- -
. cos de pensamento nativo, mas no final da década de 196(3
(precisamente em maio cie 1968, afirmou Lévi-Strauss), o estru-
turalismo francês perdeu seu encanto, dando'lugar a uma va-
riedade de "pós-estnituralismos" cie uma casta decididamente
rel.atívista. Seus adeptos abandonaram as ambições científicas
cio estruturalismo clássico, insistindo na qualidade indetermi-
nada das palavras e dos símbolos. A etnociência americana fi-
cou fora cie moda na mesma época, mas alguns antigos entu-
siastas descobriram uma promessa científica alternativa na
ciência cognitiva. Reprodução dos processos cio cérebro por
computador, esquemas cie conhecimento e. redes de conexão
passaram a ser procurados, em vez das regras gramaticais nas
140
Introdução
quais os praticantes da nova etnografia tinham depositado a
sua fé anteriormente. Outra facção se apoderou dos novos de-
senvolvimentos da lingüística e se determinou a adaptar a
pragmática, ou a teoria do discurso, ao-estudo cia cultura. .
Os geertzianos rejeitavam sistematicamente qualquer
afirmação de que podia haver uma ciência da cultura. A cul-
tura, na verdade, era bastante semelhante à linguagem, !mas;--
o modelo cie cultura cjue eles preferiam era o de texto. Con-
seqüentemente, eles recorriam à. teoria literária, é não à lin-
güística.. Foi essa abordagem que, se desenvolveu, e o iníer-
pretativismo se transformou na ortodoxia cia principal corren-
te cia antropologia ^ cultural americana. Embora os geertzianos
mais- novos se rebelassem contra o pai, em vez de optarem
por um projeto mais científico, eles tomaram a mesma dire-
ção dos pós-estruturalistas franceses. Uma cultura não podia :
ser tão prontamente compreendida por um, estranho solidá-
rio como Geertz sugerira. Cultura pode ser um texto, mas é
um texto fabricado, uma ficção escrita pelo etnógrãfo. Além
disso, a mensagem clara de desconstrução é" que os textos
não produzem mensagens inequívocas. Vozes discordantes
disputam a linha oficial. A cultura é contestada, como diz o
novo slogan. .Assim como não há um texto canônico, não há
leitores privilegiados. Os antropólogos pós-modernistas pre-
ferem imaginar o domínio da cultura como algo mais seme-
lhante a lima democracia ingovernável cio que a um estado
teocrático ou a uma monarquia absolutista. Apreensivos acer-
ca das insinuações totalitaristas cio termo cultura, alguns pre-
- ferem escrever sobre hábito, ideologia ou discurso, embora,
como salienta Robert Brightmãn, o efeito final dessas estraté-
gias cie retórica seja "(re)construir um conceito cie cultura es-
sencializacla nos antípodas das orientações teóricas contem-
porâneas".29 Ainda há a pressuposição de quê as pessoas vi-
vem num_ mundo cie símbolos. Os atores são dirigidos e a his-
tória é moldada (talvez inconscientemente) pelas idéias. A
corrente predominante cia antropologia cultural americana,
em suma, ainda está nas garras cie .um idealismo difuso.
29. BRIGHTMAN, Robert. Forget Culture: Replacement, Tfanscen-
dence, Relexification. Cultural Antbropology, v. 10, ri. 4,"p. 510,
199*-
41
Introdução
O idealismo teve maior ascensão nas últimas décadas,1
juntamente com seu servo, o rèlativismó. Toda cultura era fun-
damentada em premissas singulares. A generalização era im-
possível e a comparação, extremamente probJemática/H(ouve
uma tendência semelhante na filosofia, que encorajou sobre-
modo os antropólogos. Até mesmo o marxismo ficou obceca-
do pela ideologia. ("La fantaisie au pouvoir", cantavam os es-
tudantes parisienses de 68, enquanto atiravam pedras nos po-
liciais.) Mas nem sempre as coisas eram fácejs para idealistas e
culturalistas. Pelo contrário, eles achavam que estavam senclo
sitiados por grandes batalhões de rivais que marchavam por
trás de bandeiras familiares: O Mercado Decide, A Classe Do-
minante Governa, Somos Nossos Genes. Os argumentos dos
culturalistas tinham de ser lançados contra os modelos estabe-
lecidos de racionalidade econômica e determinismo biológico,
mas^ um número crescente embora heterogêneo de -;estetas,
idealistas e românticos concordava que a Cultura Nos Faz.
partel
genealogias
142
capítulo l
cultura e civilização:
intelectuais
franceses, alemães
e ingleses^
1930-1958
Civilisation naít à son heure.1
([Ar"palavra] "civilização" nasceu na hora certa.)
Lucien Fébvre
«O
J. ara reconstruir a história da palavra francesa ' Civi-
lisation'",2 observou o historiador Lucien Fébvre, "seria" neces-
sário reconstituir os estágios tia mais profunda de todas as re-
voluções pela qualpassou o espírito francês-da segunda me-
tade cio século 18.até os dias cie hoje". Este foi o tópico que
ele decidiu abordar num seminário cie fim de semana; organi-
1. FÉBVRE, Lucien. Ciyilization. In: ". et ai. Civilisation: Lê mot
e l'idée. Paris: Centre International cie Synthèse, La Renaissance clu
Livre, 1930. p. ló. Tradução publicada em BURKE, P.eter (Ecl:>. A
New Kind of History: From the Writings ofFebvre. Londres: Rou-
tledge e Kegan Paul, 1973. Burke também faz um breve relato da
carreira de Fébvre na introdução do livro.
2. Ibicl. (tradução cie Burke, ligeiramente modificada), p. 219. \u2022
45!
capítulo l
zado em 1929 sobre o tema "Civilisátion: Lê mot et Piclée" (a
palavra e a idéia, deve-se ressaltar, e não a coisa em si). Esse
era o assunto do momento. À medida que nuvens de tempes-
tade se formavam sobre a Europa pela segunda vez no espa-
ço cie uma geração, os intelectuais foram levados a repensar
o significado cie cultura e, civilização, e a relação deles com o
.destino de suas nações. O sociólogo alemão Norbert Elias,
atraído para essas questões na .mesma época, observou que
embora as teorias de cultura e civilização estivessem sendo
discutidas (com as palavras em si) desde- a segunda metade
cio século 18, elas só passaram a despeitar o interesse geral
em determinados momentos históricos quando "alguma coisa
no presente estado da sociedade encontra expressão na cris-
talização do passado incorporado nas palavras"., r
Febvre (1878-1956) estudou na École Normale Supé-
rietire, onde se formou em história e geografia. Durante a
Primeira Guerra Mundial ele serviu ativamente de metralha-