WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.784 seguidores
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o significado 
dos quadros de Bruegel foi transmitido, além de concebido. Assim como 
se dá com o antropólogo, sua invenção de ideias e temas familiares num 
meio exótico produziu uma automática extensão analógica de seu uni-
verso. E uma vez que essas ideias e temas permaneceram 
a transformação delas no processo corporificou o tipo de ressimboliza-
ção que chamamos de alegoria - analogia com uma significação incisiva. 
O "gume" do tipo particular de antropologia de Bruegel é mais 
visível em algumas de suas cenas de rua que retratam temas religiosos. 
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Rafael Devos
Rafael Devos
Esses quadros evocam dramas quase contemporâneos de Shakespeare 
na universalidade de sua visão e em seu intento de generalizar a vida 
humana por meio da caracterização de sua imensa variedade. A seme-
lhança é realçada pelo fato de que o humanismo de ambos os artistas fre-
quentemente serve como meio para compreender e interpretar o exótico, 
e até mesmo para aprender com ele. Shakespeare usou a variedade, o 
esplendor e a espirituosidade da vida elizabetana como um sementeiro 
para analogias em suas incursões na Roma antiga, na Veneza contempo-
rânea ou na Dinamarca medieval, e o retrato que fez de seus habitantes 
como ingleses metafóricos certamente rendeu caricaturas que deliciaram 
seus conterrâneos. 
Da mesma forma, os povoados bíblicos retratados em O recensea-
mento em Belém e O massacre dos inocentes, pinturas de Bruegel, são comu-
nidades flamengas da época em todos os aspectos. Os eventos em si, a 
chegada de Maria e José a Belém para o censo e o intento dos soldados 
de Herodes de assassinar o menino Jesus, podem ser reconhecidos nos 
quadros: Maria veste um manto azul e está montada num burrico; José 
carrega uma serra de carpinteiro; um censo está sendo realizado; os solda-
dos estão assediando o populacho e assim por diante. N o entanto, a aldeia 
está coberta de neve em ambas as cenas, as pessoas se vestem como cam-
poneses setentrionais, e os telhados altos e íngremes, as árvores podadas 
e a própria paisagem são típicas dos Países Baixos. Todos esses detalhes 
serviram para tornar familiares os eventos da Bíblia, torná-los críveis e 
reconhecíveis à sua audiência - e Bruegel, se pressionado, poderia ter 
"explicado" seus esforços nessas bases. 
Mas o ímpeto interpretativo vai bem mais fundo do que a mera 
"tradução", pois a analogia sempre retém o potencial da alegoria. Ao 
exibir figuras e cenas bíblicas num ambiente contemporâneo, Bruegel 
também sugeria o julgamento de sua própria sociedade flamenga em 
termos bíblicos. Assim, o significado de O recenseamento em Belém não 
é apenas que &quot;Jesus nasceu do homem, em um ambiente humild<:.&quot;I,1l 
como as pessoas vivem hoje&quot;, mas também que, &quot;se Maria e José che-
gassem a uma cidade flamenga, ainda teriam de se alojar num estábulo&quot;. 
O massacre dos inocentes é ainda mais incisivo, pois retrata os soldados de 
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Herodes, determinados a assassinar o Cristo menino, como tropas espa-
nholas dos Habsburgos, devastando os Países Baixos com finalidades 
igualmente nefastas. Seja na arte ou na antropologia, os elementos que 
somos obrigados a usar como &quot;modelos&quot; analógicos para a interpretação 
ou explicação de nossos temas são eles mesmos interpretados no processo. 
Poderíamos prosseguir considerando o desenvolvimento da pintura 
flamenga a partir desse ponto: O uso da pincelada por Rubens para criar 
uma arte impressionística que jogasse com as expectativas do observador, 
ou as obras soberbamente abrangentes de mestres como Rembrandt ou 
Vermeer. À medida que a tradição se desenvolveu, seu centro de gravi-
dade alegórico mudou, movendo-se da delineação na própria tela para 
a relação entre artista (ou observador) e quadro, e desse modo para um 
meio de comunicação altamente sofisticado. À medida que o conteúdo 
expressivo da pintura foi sendo cada vez mais claramente focalizado no 
ato de pintar, simbolizado na ênfase na pincelada, na escolha do tema e 
assim por diante, os artistas passaram a se dar conta de uma certa auto-
percepção. Rembrandt foi colecionador de arte e Vermeer negociante de 
quadros, atividades que em ambos os casos se tornavam apropriadas em 
razão do intenso envolvimento pessoal (quase confessional) que ligava 
esses homens a todos os aspectos de seu trabalho. Tanto de si mesmos 
era criado por meio da realização da pintura. 
Mas neste ponto devemos recuar e nos perguntar se esse alto grau 
de autoconhecimento é alcançável em nossa disciplina, se é possível uma 
antropologia autoperceptiva (mais do que autoconsciente). Assim como 
a arte de Rubens ou de Vermeer, uma ciência desse tipo se basearia num 
entendimento introspectivo de suas próprias operações e capacidades; ela 
desdobraria a relação entre técnica e temática como um meio de extrair 
autoconhecimento do entendimento de outros e vice-versa. Finalmente, 
ela tornaria a seleção e o uso de analogias e &quot;modelos&quot; explicativos pro-
venientes de nossa própria culnua óbvios e compreensíveis como parte 
da extensão simultânea de nosso próprio entendimento e da apreensão 
de outros entendimentos. Aprenderíamos a externalizar noções como 
&quot;I . I&quot; &quot;I' . &quot; &quot;I&quot; ( R b d r el natura , ogIca ou mesmo cu tura como em ran t Iez com 
seu próprio comportamento e caráter em seus autorretratos) e, vendo-as 
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Rafael Devos
Rafael Devos
Rafael Devos
como vemos os conceitos de outros povos, viríamos a apreender nossos 
próprios significados de um ponto de vista genuinamente relativo. 
O estudo da cultura é cultura, e uma antropologia que almeje ser 
consciente e desenvolver seu senso de objetividade relativa precisa se avir 
com esse fato. O estudo da cultura é na verdade nossa cultura: opera por 
meio das nossas formas, cria em nossos termos, toma emprestados nos-
sas palavras e conceitos para elaborar significados e nos recria mediante 
nossos esforços. Todo empreendimento antropológico situa-se portanto 
numa encruzilhada: pode escolher entre uma experiência aberta e de 
criatividade mútua, na qual a &quot;cultura&quot; em geral é criada por meio das 
&quot;culturas&quot; que criamos com o uso desse conceito, e uma imposição de 
nossas próprias preconcepções a outros povos. O passo crucial- que é 
simultaneamente ético e teórico - consiste em permanecer fiel às impli-
cações de nossa presunção da cultura. Se nossa cultura é criativa, então 
as &quot;culturas&quot; que estudamos, assim como outros casos desse fenômeno, 
também têm de sê-lo. Pois toda vez que fazemos com que outros se tor-
nem parte de uma &quot;realidade&quot; que inventamos sozinhos, negando-lhes 
sua criatividade ao usurpar seu direito de criar, usamos essas pessoas e 
seu modo de vida e as tornamos subservientes a nós. E se criatividade 
e invenção emergem como as qualidades salientes da cultura, então é para 
elas que nosso foco deve voltar-se agora. 
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CAPÍTULO 2 
Rafael Devos
Rafael Devos
Rafael Devos
A cultura como criatividade 
TRABALHO DE CAMPO É TRABALHO NO CAMPO 
Quando fui fazer trabalho de campo entre os Daribi da Nova Guiné pela 
primeira vez, eu tinha certas expectativas quanto àquilo que esperava rea-
lizar, ainda que, naturalmente, tivesse poucas noções preconcebidas sobre 
&quot;como seriam&quot; aquelas pessoas. Afinal de contas, o trabalho de campo é um 
tipo de &quot;trabalho&quot;: é uma experiência criativa, produtiva, muito embora 
suas &quot;recompensas&quot; não necessariamente se materializem da mesma 
maneira que aquelas obtidas em outras formas de trabalho. O pesquisa-
dor de campo produz uma espécie de conhecimento como resultado de 
suas experiências, um produto que pode ser mascateado no mercado aca-
dêmico COmo &quot;qualificação&quot; ou inscrito em livros. A mercadoria resultante 
se insere numa classe que abrange outras experiências singulares: memó-
rias de estadistas ou artistas famosos, diários de alpinistas, exploradores