WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.791 seguidores
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do Ártico e aventureiros, bem como relatos de empolgantes realizações 
artísticas ou científicas. Embora possam atrair atenção especial, esses pro-
dutos são não obstante produtos, e sua criação continua sendo "trabalho". 
O antropólogo em campo de fato trabalha: suas "horas de trabalho" 
são dedicadas a entrevistar pessoas, observar e tomar notas, participar de 
atividades locais. Eu procurava estruturar meu dia de trabalho segundo 
um padrão fixo: café da manhã seguido de entrevistas com informantes; 
almoço, incluindo talvez algum trabalho de observação ou participação ou 
ainda mais entrevistas na sequência; e então uma refeição noturna. Todo 
tipo de circunstância - visitas, cerimônias, brigas ou excursões - inter-
rompia essa rotina. Mesmo assim, eu me aferrava a ela, especialmente nos 
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primeiros meses, pois a ideia de uma atividade regular, constante, ajudava 
a sustentar minha sensação de utilidade em face do choque cultural, das 
preocupações de "não estar chegando a lugar nenhum" e das frustrações 
em geral. Mesmo após vários meses, quando já compreendia a situação 
muito melhor e me sentia mais à vontade com meus amigos daribi, ainda 
me apegava aos rudimentos daquela agenda como um programa desig-
nado para aprimorar meu conhecimento da cultura. 
Suspeito que minha tenacidade em meio inclusive à perplexidade de 
meus amigos locais (muitos dos quais "trabalhavam" dia sim, dia não, e 
somente pela manhã) tenha resultado simplesmente de "querer fazer um 
bom trabalho", de uma ideia deveras ocidental de trabalho e compro-
misso com a própria vocação. Rotinas desse tipo não são incomuns entre 
antropólogos em campo - elas fazem parte da definição geral do traba-
lho do antropólogo (por mais ilusória que possa ser): a de que atuamos 
sobre os nativos de maneira a produzir etnografias. (Independentemente 
das sutilezas do envolvimento do pesquisador com a cultura nativa, é ele 
que dá início a esse envolvimento e os resultados são vistos como sua 
"produção"). Assim, a totalidade do interesse do etnógrafo na "cultura" 
e o modo como ele implementa esse interesse em campo é que definem 
seu trabalho como pesquisador de campo. 
De início, não era fácil para meus amigos daribi compreender em 
que consistia esse trabalho - esse interesse por eles e suas maneiras -, 
e muito menos levá-lo a sério. Perguntavam-me se eu era "governo", 
"missão", ou " doutor" (eles recebiam visitas regulares dos membros de 
um programa de controle da lepra), e informados de que eu não era 
nada disso estarreciam-se: "Não é governo, não é missão, não é doutor!". 
Quando descobri o termo em pidgin para antropólogo, storimasta, I ado-
tei-o como rótulo para o meu trabalho, e os nativos puderam me colocar 
no mesmo "bolo" dos linguistas missionários que lhes eram familiares. 
Mas, embora o termo tenha resolvido o problema da classificação, pouco 
contribuiu para tornar meu trabalho plausível para eles. Por que 
saber sobre as "histórias" de outros povos, suas ideias e modos de vida? 
I. Derivação da expressão inglesa story master ("mestre de histórias"). [N.T.] 
50 A cultura como cnatiyidade 
Quem paga por esse tipo de trabalho, e por quê? Isso é serviço para um 
homem adulto? (Dúvida: será esse nosso ston'masta um homem adulto?) 
Se o trabalho que eu fazia entre os Daribi era para eles problemá-
tico e desconcertante, talvez a maneira como eu vivia pudesse oferecer 
uma pista para compreendê-lo. Como eu não era casado, minha casa foi 
construída ao lado da residência dos homens solteiros, e uma vez que os 
Daribi veem o celibato como um estado nada invejável acabei recebendo 
comiseração e solidariedade consideráveis. Suscitou especial interesse o 
fato de que tive de contratar um cozinheiro para preparar minhas refei-
ções.2 Seu relacionamento comigo tornou-se objeto de curiosidade, e 
muitos vinham investigar suas tarefas e minha casa em geral. Todas as 
noites uma pequena multidão de homens e meninos se reunia para me ver 
comer minha refeição noturna. O clima prevalecente era de curiosidade 
e cordialidade. Embora eu procurasse partilhar minha comida, o que 
havia era pouco mesmo para mim, e normalmente apenas três ou quatro 
espectadores conseguiam dar uma "provada". A mistura de assombro e 
companheirismo durou toda a minha estada, e foi apenas gradualmente 
que pude entrever seu fundamento: a ideia de que meu estranho "tra-
balho" estava de alguma maneira relacionado ao meu estado celibatário. 
Sem dúvida, o fato de eu ter de pagar alguém que cozinhasse para 
mim era estranho e talvez comovente. Os Daribi comentavam com fre-
quência que "nossas esposas são nossas cozinheiras"; os daribi solteiros 
têm de encontrar comida por si mesmos ou consegui-la com suas mães 
ou com as esposas de seus irmãos. Possivelmente eu confirmava muitas 
suspeitas quando, ao me perguntarem sobre por que eu não era casado, eu 
respondia que preferia primeiro terminar meus estudos e meu trabalho de 
campo. Minha condição continuou a suscitar a compaixão de meus vizi-
nhos, e quando eu persistia em importuná-los para que me fornecessem 
relatos de como as coisas vieram a ser como são, esse era um fator crucial 
na obtenção de respostas. Um informante de meia-idade, que passava 
várias de suas horas ociosas lamuriando seu estado celibatário (ele de 
2. Suas tarefas mais árduas consistiam em buscar água, lavar pratos e remover as pequenas 
larvas que sempre conseguiam infestar meu suprimento de arroz integral. 
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fato fora responsável pela mOrte de uma de suas esposas),' apiedou-se 
de mim e revelou-me o mito de origem local "porque você também não 
tem uma esposa, e tenho pena de você". 
Meu status como representante do homem branco tornava minha 
situação ainda mais intrigante para meus amigos daribi. De que modo 
meus interesses peculiares se associavam às especialidades dos outros 
europeus que eles conheciam, tais como os agentes do governo, os mis-
sionários, os médicos? Seriam estes tão somente nomes? Eles apenas se 
referiam a tipos de trabalho diferentes ou de fato constituíam famílias 
separadas e distintas, ou mesmo tipos diferentes de gente? Esse era o 
sentido da pergunta que alguns de meus amigos me fizeram certa tarde: 
"Vocês, antropólogos, podem se casar com gente do governo e com mis-
sionários?". Expliquei que poderíamos se quiséssemos, mas que eu não 
tinha nenhuma aspiração particular nesse sentido. Mas eu não havia res-
pondido à verdadeira questão, de modo que posteriormente ela foi refor-
mulada de uma maneira diferente: "Existem kanakas (isto é, "nativos, 
gente como nós") nos Estados Unidos?". Eu disse que sim, pensando 
nos agricultores de subsistência em algumas partes do país, mas receio ter 
evocado a imagem de uma população subordinada, vivendo sob a tutela 
de oficiais de patrulhas governamentais, missionários e outros. 
Não era uma questão que se pudesse colocar facilmente em poucas 
palavras, de modo que minhas respostas, por mais "corretas" que fossem, 
estavam fadadas a induzir a erros. E contudo, o problema era fundamental, 
pois girava em torno das razões de minha presença na aldeia e da natureza 
do trabalho que eu estava fazendo - e das motivações por trás dele. Eu me 
via continuamente desconcertado, e às vezes incomodado, pela preocu-
pação de meus amigos com aquilo que eu tomava como assuntos secundá-
rios - meus arranjos domésticos e meu estado conjugal-, já que eu definia 
a mim mesmo e justificava minha presença em termos dos meus interesses 
antropológicos e do meu trabalho de campo. Os Daribi, de sua parte, pro-
vavelmente ficavam igualmente pasmos com minha estudada 
quanto aos problemas da vida e da subsistência e com minha inexplicável 
3. Ele entoava o canto runebre daribi, um lamento prolongado. 
)2 A cultura como criatividade 
paixão por entrevistas. (E, afinal de contas, se eu podia lhes perguntar 
com que tipo de