WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.078 materiais32.315 seguidores
Pré-visualização50 páginas
gente eles podiam se casar, era justo que eles pudessem 
me perguntar com que tipo de gente eu podia me casar.) 
O trabalho que eu tinha ido fazer entre os Daribi incorporava uma 
noção de criatividade e daquilo que é importante na vida totalmente dife-
rente daquela que suas próprias vidas e seu trabalho representavam. Meu 
trabalho pretendia-se criatividade pela criatividade, ou produção pela 
produção, empreendido para acrescentar algo ao corpo de conhecimentos 
cumulativos que chamamos de "literatura antropológica". Seus interesses 
e motivações seriam necessariamente obscuros e mesmo enganosos para 
alguém que não partilhasse nosso entusiasmo por esse tipo de produção. 
Por meio desse trabalho eu esperava inventar o povo daribi para meus 
colegas e conterrâneos, um pouco como inventamos nossa própria cul-
tura exatamente por meio do mesmo tipo de criatividade. Em face das 
circunstâncias, porém, eu dificilmente poderia esperar retratar a criativi-
dade daribi como uma imagem espelhada da nossa própria criatividade. 
Para começar, suas tentativas de me "inventar", de tornar minha 
pessoa e meu trabalho plausíveis, inevitavelmente levaram a uma espé-
cie de piedade e comiseração que é o inverso da compaixão piegas que 
os filisteus de nossa cultura frequentemente professam pelo "primitivo" 
inculto e atrasado. O equívoco deles a meu respeito não era o mesmo 
que meu equívoco acerca deles, de modo que a diferença entre as nossas 
respectivas interpretações não poderia ser descartada com base na dissi-
milaridade linguística ou nas dificuldades de comunicação. Uma vez que 
meu problema particular começou com a antropologia e com minhas pró-
prias expectativas Ce de nossa cultura) quanto à "cultura" e à criatividade, 
retomemos esse tema como uma chave para o problema. 
A AMBIGUIDADE DA '"CULTURA" 
N assa palavra" cultura" [culture] deriva de uma maneira muito tOrtuosa 
do particípio passado do verbo latino cafere, "cultivar", e extrai alguns 
de seus significados dessa associação com o cultivo do solo. Esta também 
íJ 
parece ter sido a principal acepção das formas do francês e do inglês 
medievais das quais deriva nosso uso presente (por exemplo, em inglês 
médio [séculos XII-XV] cultura significava "um campo arado"). Em tem-
pos posteriores" cultura" adquiriu um sentido mais específico, indicando 
um processo de procriação e refinamento progressivo na domesticação 
de um determinado cultivo, ou mesmo o resultado ou incremento de tal 
processo. Assim é que falamos de agricultura, apicultura, da "cultura da 
vinha" ou de uma cultura bacteriana. 
O sentido contemporâneo do termo - um sentido "sala de ópera" -
emerge de uma metáfora elaborada, que se alimenta da terminologia da 
procriação e aperfeiçoamento agrícola para criar uma imagem de con-
trole, refinamento e "domesticação" do homem por ele mesmo. Desse 
modo, nas salas de estar dos séculos XVIII e XIX falava-se de uma pessoa 
"cultivada" como alguém que "tinha cultura", que desenvolvera seus 
interesses e feitos conforme padrões sancionados, treinando e "criando" 
sua personalidade da mesma maneira que uma estirpe natural pode ser 
"cultivada" [culturedJ. 
O uso antropológico de "cultura" constitui uma metaforização ulte-
rior, se não uma democratização, dessa acepção essencialmente elitista e 
aristocrática. Ele equivale a uma extensão abstrata da noção de domes-
ticação e refinamento humanos do indivíduo para o coletivo, de modo 
que podemos falar de cultura como controle, refinamento e aperfeiçoa-
mento gerais do homem por ele mesmo, em lugar da conspicuidade de 
um só homem nesse aspecto. Empregada nesse sentido, a palavra tam-
bém carrega fortes conotações da concepção de Locke e Rousseau do 
"contrato social", da moderação dos instintos e desejos "naturais" do 
homem por uma imposição arbitrária da vontade. O conceito oitocen-
tista de "evolução" adicionou uma dimensão histórica a essa noção de 
criação e moderação do homem por ele mesmo, resultando no conceito 
otimista de "progresso". 
Independentemente de suas associações mais específicas, cont.Y.9o, 
nosso termo moderno "cultura" conserva as diversas associações - e 
portanto a ambiguidade criativa - introduzidas por essas metaforizações. 
Com efeito, a confusão de "cultura" no sentido "sala de ópera" com a 
54 A cultura como criatividade 
acepção antropológica mais geral deve-se a uma contínua derivação de 
um significado a partir do outro.4 É nessa zona de ambiguidade, COm 
suas implicações contrastantes, que podemos esperar encontrar uma pista 
daquilo que no mais das vezes pretendemos ao usar a palavra. 
Quando falamos dos "centros culturais", ou mesmo da "cultura" da 
cidade de Chicago, temos em mente um certo tipo de instituição. Não 
estamos falando em siderúrgicas, aeroportos, mercearias ou postos de 
gasolina, ainda que estes estejam incluídos nas definições antropológi-
cas de cultura mais católicas. As "instituições culturais" de uma cidade 
são seus museus, bibliotecas, orquestras sinfônicas, universidades e talvez 
seus parques e zoológicos. É nesses santuários especializados, mantidos à 
parte da vida cotidiana por regulamentos especiais, subsidiados por fun-
dos especiais e cuidados por pessoal altamente qualificado, que os docu-
mentos, registros, relíquias e corporificações das mais altas realizações 
humanas são preservados e a "arte" ou "cultura" é mantida viva. A ideia 
de um "conservatório" musical é um bom exemplo, pois ele provê uma 
atmosfera reverente para a prática de estudos, ensaios, recitais e concer-
tos, essenciais à "vida" da música. As instituições culturais não apenas 
preservam e protegem os resultados do refinamento do homem: também 
o sustentam e propiciam sua continuidade. 
A ligação entre essa Cultura "institucional" e o conceito mais uni-
versal do antropólogo não é imediatamente evidente, ainda que na rea-
lidade seja apenas superficialmente disfarçada pelas fachadas das biblio-
tecas, museus e salas de ópera. Pois o verdadeiro cerne de nossa cultura, 
em sua imagem convencional, é sua ciência, arte e tecnologia, a soma 
total das conquistas, invenções e descobertas que definem nossa ideia de 
"civilização". Essas conquistas são preservadas (em instituições), ensi-
nadas (em outras instituições) e ampliadas (em instituições de pesquisa) 
mediante um processo cumulativo de refinamento. Preservamos uma 
vasta panóplia de ideias, fatos, relíquias, segredos, técnicas, aplicações, 
fórmulas e documentos como "nossa cultura", a soma de nossas maneiras 
4· A anterior "derivação" do sentido "sala de ópera" da palavra a partir do sentido agrícola 
provavelmente coincidia com uma confusão e uma ambiguidade criativa similares. 
jj 
de fazer as coisas, a soma do "conhecimento" tal como o conhecemos. 
Essa "cultura" existe em um sentido amplo e um sentido restrito, em um 
sentido "não marcado" e um sentido "marcado". 
A produtividade ou criatividade de nossa cultura é definida pela apli-
cação, manipulação, reatualização ou extensão dessas técnicas e descober-
tas. Qualquer tipo de trabalho, seja ele inovador ou simplesmente "produ-
tivo" , como se diz, adquire sentido em relação a essa soma cultural, que 
constitui seu contexto de significação. Quando um encanador troca um 
cano, faz uso de um complexo de descobertas tecnológicas e esforços pro-
dutivos interligados. Seu ato adquire sentido como "trabalho" mediante 
sua integração nesse complexo; aplica e leva adiante certas invenções 
tecnológicas (como faria uma "instituição Cultural") e tanto define o 
encanador como um trabalhador, quanto estabelece uma relação de com-
plementaridade entre seus esforços e os esforços de outros trabalhado-
res. O trabalho do antropólogo também faz isso: utiliza-se de um fundo 
comum de habilidades e ideias que podem ser adquiridas por "educação" 
e contribui para uma totalidade chamada "a literatura