WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
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antropológica". 
O trabalho [work] dotado de significado, produtivo, que também 
é chamado de "labor" [labor],' é a base do nosso sistema de crédito, de 
forma que podemos computá-lo em termos monetários. Isso possibilita 
avaliar outras quantidades, tais como tempo, recursos e trabalho [labor] 
acumulado, ou mesmo "direitos" e "obrigações" abstratos. Essa produ-
tividade, a aplicação e implementação do refinamento do homem por ele 
próprio, consiste no foco central de nossa civilização. Isso explica o alto 
valor atribuído à "Cultura" no sentido restrito, marcado, "sala de ópera", 
pois ela representa o incremento criativo, a produtividade que cria tra-
balho e conhecimento ao fornecer-lhes ideias, técnicas e descobertas, e 
que em última instância molda o próprio valor cultural. Experimentamos 
a relação entre os dois sentidos de "cultura" nos significados de nossa 
,'" 5. Tanto lahor quanto work foram traduzidos como "trabalho". Entretanto, há uma dife-
rença entre os termos na medida em que work se refere ao trabalho em geral, num sentido 
mais abstrato, e lahor indica mais especificamente mão de obra ou trabalho enquanto esforço 
fisico ou mental. [N. T.] 
56 A cultura como criatividade 
vida e trabalho cotidianos: a "cultura" no sentido mais restrito consiste 
em um precedente histórico e normativo para a cultura como um todo: 
ela encarna um ideal de refinamento humano. 
É porque trabalho e produtividade são centrais em nosso sistema de 
valores que neles baseamos nosso sistema de crédito. O "dinheiro", ou a 
"riqueza", é portanto o símbolo do trabalho, da produção de coisas e servi-
ços segundo técnicas que constituem a herança preservada de nossO desen-
volvimento histórico. Embora algumas dessas técnicas sejam patenteadas, 
algumas fórmulas sejam secretas e algumas habilidades sejam proprie-
dade de pessoas particulares, a maior parte de nossa tecnologia e de nossa 
herança cultural é de conhecimento público, sendo posta à disposição pela 
educação pública. Assim como o dinheiro representa o padrão público de 
troca, a educação define um certo pré-requisito para a participação. 
E, todavia, ao passo que a produtividade é pública, pode-se dizer que 
a família é periférica e privada. Dinheiro e, por conseguinte, trabalho são 
necessários para "sustentar" uma família, mas nem dinheiro nem trabalho 
[labor] devem ser a principal preocupação no interior da família. A des-
peito de como o dinheiro é ganho ou gasto, a renda familiar é em alguma 
medida compartilhada entre seus membros, mas não distribuída em troca 
de serviços familiares. Como mostrou David Schneider em American 
Kinship,6 as relações no interior da família são simbolizadas em termos de 
amor, de amor sexual ou de uma relação de "solidariedade difusa, dura-
doura". A oposição entre dinheiro e amor dramatiza a separação nítida 
traçada em nossa cultura entre "negócios" e "vida doméstica". 
O amor é tradicionalmente aquilo que "o dinheiro não pode com-
prar", e o dever, algo que se supõe estar acima de considerações pessoais. 
Por isso, as histórias de casos amorosos entre homens de negócios e suas 
secretárias, médicos e enfermeiras ou pilotos e aeromoças tornam-se escân-
dalos célebres, assim como relatos sobre estrelas do cinema ou da televisão 
que se casam entre si em proveito de suas imagens. E, é claro, o papel da 
prostituta, que faz "por dinheiro" aquilo que outras mulheres fazem "por 
amor" e que vive em uma "casa que não é um lar", simboliza para muitos 
6. David M. Schneider, American Kinsh'.f: A CulturalAccount. New jersey: Prentice-Hall, '968. 
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americanos um antimundo de vício e corrupção. Relações interpessoais, e 
em especial as familiares, devem ser privadas e estar" acima" de interesses 
monetários: não se deve "usá-las" para fins de ganhos financeiros. 
Com exceção das especulações de alguns antropólogos, a vida fami-
liar e as relações interpessoais desempenham um papel quase insigni-
ficante nos relatos históricos geralmente utilizados para validar nossa 
autoimagem cultural. Esses mitos costumam ser obcecados com o desen-
volvimento do homem como uma história da evolução das técnicas pro-
dutivas, uma gradual acumulação de "instrumentos" e "adaptações" que 
indica uma sofisticação tecnológica cada vez maior. Não é difícil relem-
brar as listas dos grandes avanços ensinadas na escola: o fogo, atribuído 
ao homem "pré-histórico", o alfabeto, a roda, o arco romano, a estufa 
de Franklin' e assim por diante. A despeito das datas, dos nomes ou das 
invenções específicas, a "Cultura" emerge como uma acumulação, uma 
soma de invenções grandiosas e conquistas notáveis. Equivale, de fato, a 
uma conexão rigidamente controlada da noção ampla e abstrata de "cul-
tura" com o sentido mais estrito da palavra, minimizando a ambiguidade. 
A ideia de que há lugares no mundo onde as esposas podem ser com-
pradas frequentemente sugere uma espécie de tolo paraíso quimérico para 
aqueles que querem acreditar que um dia o controle sobre as mulheres 
poderia ser tão simples assim. Mas à luz da nossa discussão sobre o amor 
e o dinheiro em nossa própria cultura esses anseios devem ser descarta-
dos como uma forma de fantasia em torno da prostituição. Ademais, a 
suposição de que esposas sejam "compradas" e "vendidas" em socieda-
des tribais envolve a mais profunda incompreensão desses povos. Nas 
palavras de Francis Bugotu, um nativo das Ilhas Salomão: "A compra de 
esposas em sociedades primitivas não tem nenhuma equivalência com as 
trocas pecuniárias do Ocidente. O dinheiro não é importante e com cer-
teza não é o atrativo. É a mulher que é valiosa". 8 
7. "Franklin stove": aquecedor de ferro com formato de lareira inventado por B'ênj!Ínin 
Frank1in em meados do século XVII. [N.T.] 
8. Francis Bugotu, "The Culture Clash". New Guinea and Australia, Tke Pacific and Souch-
east Asia, vaI. 3, n. 2, 1968, p. 67· 
58 A cultura como criatividade 
o que chamaríamos de "produção" nessas sociedades corres-
ponde à simbolização mesmo das mais íntimas relações pessoais. Para os 
melanésios, "trabalho" pode ser qualquer coisa, desde capinar uma roça 
até participar de uma festa ou gerar uma criança; sua validação deriva 
do papel que desempenha na interação humana. O trabalho de "ganhar 
a vida" tem lugar no interior da família, cujos membros assumem papéis 
complementares, correspondentes à imagem cultural do sexo e da faixa 
etária de cada um. Assim, "produção" é aquilo que homens e mulheres ou 
homens, mulheres e crianças fazem juntos; é o que os define socialmente 
em seus diversos papéis e também simboliza o significado da família. Um 
homem se limita a certas atribuições - talvez, como entre os Daribi, der-
rubar árvores, cercar roças ou cuidar de certas plantações. Outras tare-
fas cabem às mulheres, e um homem não as realizaria sem vergonha ou, 
pior ainda, sem prejuízo da sua autoimagem. Uma espécie de integração 
intersexual, que por analogia chamamos" casamento", é tão necessária à 
subsistência quanto à criação dos filhos, de modo que relações sexuais e 
produtividade fazem parte de uma mesma totalidade, a qual poderíamos 
denominar como "a produção de pessoas". 
Uma vez que nesse tipo de sociedade a família é "produção", ela é 
autossustentável, e não há necessidade alguma de "sustentá-la". Mas um 
sistema desse tipo torna o "casamento" e a família uma questão de vida 
ou morte: uma pessoa que não se casa não pode produzir, e está conde-
nada a uma dependência servil dos outros. Assim, o problema central 
para os homens jovens, celebrado em mitos e provérbios, torna-se encon-
trar uma esposa. A demanda não é pelos produtos em si mesmos, ou pelo 
dinheiro para comprar produtos, mas por produtores; uma vez que todos 
os aspectos importantes da subsistência cabem à família, a preocupação 
principal passa a ser constituir e manter uma família. É assim que os sis-
temas de troca