WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
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das sociedades tribais e camponesas se ajustam ao ciclo 
de vida humano e à substituição de pessoas por "riquezas". As pessoas 
são indispensáveis, de modo que as coisas mais valiosas que se conhe-
cem são postas a serviço do controle da distribuição das pessoas. São os 
detalhes dessa substituição, o controle, a troca e a distribuição de pessoas, 
que os antropólogos entendem como "estrutura social". 
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A produtividade das sociedades tribais não é obcecada por instru-
mentos ou técnicas na medida em que constitui uma parte das relações 
interpessoais e encarna valores humanos, e não valores abstratos. As téc-
nicas de produção básicas - abertura de roças, construção de casas, tece-
lagem, processamento de comida - são incorporadas aos papéis sexuais 
e dizem respeito ao que se entende por ser homem ou mulher. Técnicas 
mais especializadas, ou preocupações com habilidades e técnicas em si 
mesmas, são periféricas e individuais. Os antropólogos conhecem esses 
empreendimentos como "magia", "feitiçaria" e "xamanismo": o desen-
volvimento e entesouramento de técnicas muitas vezes secretas a fim de 
garantir o sucesso pessoal. 
Assim, as culturas tribais encarnam uma inversão de nossa tendên-
cia a fazer das técnicas produtivas o foco das atenções e a relegar a vida 
familiar a um papel subsidiário (e subsidiado). E essa inversão não é 
trivial: ela permeia ambos os estilos de criatividade em todos os seus 
aspectos. Na medida em que produzimos "coisas", nossa preocupação é 
com a preservação de coisas, produtos, e com as técnicas de sua produ-
ção. Nossa Cultura é uma soma dessas coisas: conservamos as ideias, as 
citações, as memórias, as criações, e deixamos passar as pessoas. Nossos 
sótãos, porões, baús, álbuns e museus estão repletos desse tipo de Cultura. 
Por outro lado, a sugestão de que povos tribais são "materialistas" -
com frequência levantada no caso dos habitantes das terras altas da Nova 
Guiné - faz tão pouco sentido quanto a acusação de que eles "compram" 
esposas. Aqui, como diz Bugotu, as pessoas é que são importantes; os 
objetos de valor consistem em "fichas" para" contar" pessoas, e, longe de 
serem entesourados, são frequentemente dispersos por ocasião da morte 
mediante pagamentos mortuários. São as pessoas, e as experiências e sig-
nificados a elas associados, que não se quer perder, mais do que as ideias 
e coisas. Meus amigos da Nova Guiné transferem os nomes dos mortos 
recentes para os recém-nascidos e também consideram imprescindível 
inventar os mortos sob a forma de fantasmas, de modo a não 
por completo. Fazemos algo muito semelhante com os livros, que são 
nossos "fantasmas", nosso passado, onde vive boa parte daquilo que 
chamamos nossa "Cultura". 
60 A cultura como criatividade 
Tratando-se de estilos de criatividade, e não meramente de "tipos de 
sociedade", essas orientações que vimos discutindo caracterizam a inven-
ção humana de uma maneira total e abrangente. E porque a percepção e a 
compreensão dos outros só podem proceder mediante uma espécie de ana-
logia, conhecendo-os por meio de uma extensão do familiar, cada estilo de 
criatividade é também um estilo de entendimento. Para os povos da Nova 
Guiné, a criatividade do antropólogo é a sua interação com eles, em vez de 
resultar dela. Eles percebem o pesquisador em campo como alguém que está 
"fazendo" vida, um pouco como Zorba o Grego poderia percebê-lo, uma 
forma de "vida" ousada e inclusiva. E, como em todos os casos dessa natu-
reza, deseja-se ajudar o incauto forasteiro. Ou pelo menos tem-se pena dele. 
De sua parte, o antropólogo supõe que o nativo está fazendo o que 
ele está fazendo - a saber, "cultura". E assim, como um modo de entender 
os sujeitos que estuda, o pesquisador é obrigado a inventar uma cultura 
para eles, como uma coisa plausível de ser feita. Mas, como a plausibi-
lidade é uma função do ponto de vista do pesquisador, a "cultura" que 
ele imagina para o nativo está fadada a manter uma distinta relação com 
aquela que ele reivindica para si mesmo. 
Quando um antropólogo estuda outra cultura, ele a "inventa" gene-
ralizando suas impressões, experiências e outras evidências como se estas 
fossem produzidas por alguma" coisa" externa. Desse modo, sua invenção 
é uma objetificação, ou reificação, daquela "coisa". Mas para que a cultura 
que ele inventa faça sentido para seus colegas antropólogos, bem como 
para outros compatriotas, é necessário que haja um controle adicional 
sobre sua invenção. Ela precisa ser plausível e plena de sentido nos termos 
de sua própria imagem de "cultura". Vimos que o termo "cultura" não 
tem para nós um referente único: seus vários e sucessivos significados são 
criados mediante uma série de metaforizações ou, se se preferir, "ambigui-
dades". Quando identificamos um conjunto de observações ou experiên-
cias como uma" cultura", estendemos nossa ideia de cultura para englobar 
novos detalhes e ampliar suas possibilidades tanto quanto sua ambiguidade. 
Em um sentido importante, a "invenção" hipotética de uma cultura por 
um antropólogo constitui um ato de extensão: é uma "derivação" nova e 
singular do sentido abstrato de cultura a partir do seu sentido mais restrito. 
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Mas, se o significado da noção abstrata e antropológica de "cultura" 
depende da noção "sala de ópera", o inverso também é verdadeiro. E a 
questão tampouco se restringe a essas duas variantes; constructos mais 
recentes, como "subcultura" ou "contracultura", metaforizam o termo 
antropológico para gerar uma riqueza ainda maior - e também uma 
mudança - de significados. As possibilidades semânticas do conceito de 
"cultura" permanecem uma função dessa riqueza e dessa interação entre 
alusão e insinuação. A escrita antropológica tendeu a conservar a ambi-
guidade da cultura, pois essa ambiguidade é continuamente acentuada 
pela identificação de "culturas" provocativamente novas e diferentes e 
continuamente controlada mediante a formação de analogias explicativas. 
Não é de surpreender portanto que os antropólogos sejam tão fas-
cinados por povos tribais, por modos de pensamento cuja ausência de 
qualquer coisa similar à nossa noção de "cultura" provoca nossas gene-
ralizações a tomar formas fantásticas e alcançar extremos. Esses objetos 
de estudo são provocativos e interessantes justamente por essa razão, 
porque introduzem no conceito de cultura o "jogo" de possibilidades 
mais amplas e de generalizações mais extensivas. Tampouco deveríamos 
nos surpreender se as analogias e os "modelos" resultantes parecerem 
desajeitados ou mal ajustados, pois eles se originam do paradoxo gerado 
pelo ato de imaginar uma cultura para pessoas que não a concebem para 
si mesmas. Esses constructos são pontes aproximativas para significados, 
são parte de nosso entendimento, não seus objetos, e nós os tratamos 
como "reais" sob o risco de transformar a antropologia em um museu 
de cera de curiosidades, de fósseis reconstruídos, de grandes momen-
tos de histórias imaginárias. 
o MUSEU DE CERA 
Talvez não seja acidental o fato de que boa parte da antropologia, 
primórdios, tenha se desenvolvido em museus, e que museus sejam insti-
tuições Culturais no sentido "marcado" da palavra. Pois os museus cons-
tituem o ponto de transição ou articulação lógico entre os dois principais 
62 A cultura como criatividade 
sentidos de "cultura": eles metaforizam espécimes e dados etnográficos, 
analisando-os e preservando-os, e os tornam necessários ao nosso refi-
namento, ainda que pertençam a uma outra cultura. Os postes totêmicos, 
as múmias egípcias, as pontas de flechas e outras relíquias em nossos 
museus são "cultura" em dois sentidos: são simultaneamente produtos de 
seus criadores e produtos da antropologia, que é "cultural" no sentido 
restrito. Na medida em que pacotes mágicos, cerâmicas, mantos e Outros 
itens foram fundamentais para a definição e a reconstrução