WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.078 materiais32.333 seguidores
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Devos
no sentido de favorecer e mesmo encorajar os costumes e o cerimonial 
nativos; a segunda foi sua descoberta de que nem todos os europeus 
aceitavam as religiões missionárias e a história de Adão e Eva. 12 Ele ficou 
intrigado com os diagramas que ilustravam o curso da evolução, em espe-
cial com o monki,13 e de maneira perspicaz associou essa teoria à prática 
ocidental de manter animais em zoológicos. Lawrence argumenta con-
vincentemente que Vali viu essa ênfase na história natural como uma 
espécie de totemismo,14 um santuário, por assim dizer, para a preserva-
ção de relações sociais. 
O ponto é retomado de modo mais conciso na interpretação pos-
terior por Vali de certos artefatos da Nova Guiné que ele vira no museu 
de Queensland durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Lawrence, 
"o próprio Vali descrevera esses artefatos nesses termos: 'Nossos mitos 
também estão lá' [ ... l. N esse contexto, a palavra 'mito' (perambik, siton") 15 
conotava de forma ampla 'a cultura da Nova Guiné'''.16 As experiências 
de Vali com a maneira como os ocidentais pensam sobre seu passado e 
o preservam, e com a maneira como toleram e preservam o passado dos 
outros, proporcionaram-lhe uma percepção da "cultura" mais abran-
gente do que aquela que a maioria dos melanésios consegue obter. No 
entanto, essa noção de cultura era invariavelmente assimilada a (e con-
fundida com) suas próprias expectativas de "carga". "Road belong cargo" 
converteu-se em "road belong culture", como fica evidente no desfecho 
do episódio de Yali em Port Moresby, pois ele retoma à sua área natal 
em Madang para dar início a um amplo revivescimento de cerimônias 
tradicionais a fim de fazer vir a carga. 
O revival de Yali não era de modo algum uma tentativa de replicar 
a vida pré-colonial; caracterizava-se por uma frenética hiperatividade 
cerimonial, bem como pela incorporação de práticas de cultos anteriores. 
12. Peter Lawrence, Road Belong Cargo: A Study oi lhe Cargo Movement in the Southern 
Madang District, New Guinea. Manchester: Manchester University Press, '964, pp. IW8. 
13' Derivação em pidgin do inglês monlcey, "macaco". [N.T.] 
14· Id., ibid., pp. 
Derivação em pidgin do inglês sto/)', "história". [N.T.] 
16. Id., ibid., p. 19I. 
70 A cultura como criatividade 
À maneira de revivalismos similares em outras partes do mundo, esse não 
dizia respeito à "cultura" em si mesma, mas à cultura como um símbolo 
de outra coisa. Embora a identidade estivesse envolvida, como sempre 
está quando a "cultura" é assumida de modo autoconsciente, de modo 
algum explica ou esgota esses usos, pois nesses revivalismos a cultura 
sempre aparece como um acesso a coisas muito mais importantes do que 
ela própria jamais poderia ser. 
Pessoas como Vali, diz-se, são levadas a tais extremos interpre-
tativos pela injustiça social, pela exploração e pelas tensões de algo 
chamado "contato cultural". Certamente, os povos da costa Madang 
tiveram seu quinhão de exploração e humilhação pelas sucessivas ondas 
de colonialistas alemães, australianos e japoneses; bizarros sectários 
religiosos que esperavam conquistar entre silvícolas supostamente 
"simples" uma audiência para ideias que seus conterrâneos tinham pas-
sado a considerar demasiado simples. Mas não proponho dar conta da 
motivação e da criatividade de Vali dessa maneira, no mínimo porque 
explicações em termos de perturbações e injustiças rebaixam as reali-
zações humanas ao nível de corretivos e reduzem a vida a um modelo 
de equilíbrio. Seria dizer muito pouco sobre aquele líder do primeiro 
movimento cristão, Joshua de Nazaré, remeter a fonte de suas ideias e 
propósitos à injustiça romana ou à diferença de padrão de vida entre 
romanos e palestinos. 
De resto, nossa discussão mostrou que não há razão para tratar o 
culto da carga como qualquer coisa além de uma contrapartida inter-
pretativa da própria antropologia, e que sua criatividade não precisa ser 
em nada mais problemática do que aquela dos antropólogos que o estu-
dam. O culto da carga pode ser pensado como um gênero pragmático de 
antropologia, que inventa em antecipação ao futuro - de uma maneira 
que faz lembrar a magia melanésia - em lugar de reconstruir o passado 
ou o presente a partir de cacos de evidências. Fica claro do que se expôs 
que os devotos de ambos os conceitos, carga ou cultura, não conseguem 
apreender facilmente o outro conceito sem transformá-lo no seu pró-
prio, mas também fica claro que essa característica não é exclusiva dos 
seguidores do culto ou dos antropólogos, que todos os homens projetam, 
7' 
Rafael Devos
provocam e estendem suas ideias e analogias sobre um mundo de fenô-
menos intransigentes. 
É fundamental para uma definição do homem que ele continua-
mente invista suas ideias, buscando equivalentes externos que não ape-
nas as articulem, mas também as transformem sutilmente no processo, 
até que esses significados adquiram vida própria e possuam seus autores. 
O homem é o xamã de seus significados. A ambiguidade da cultura, e 
também da carga, coincide com O poder que tal conceito tem nas mãos de 
seus intérpretes, os quais empregam os pontos de analogia para manejar 
e controlar os aspectos paradoxais. E, todavia, esses mesmíssimos intér-
pretes, como todos os xamãs, também estão sujeitos aos caprichos de 
seus espíritos familiares, o que nos põe na pista de uma explicação para 
as incongruências de Yali e suas contrapartidas antropológicas. 
72 A cultura como criatividade 
CAPÍTULO 3 
o poder da invenção 
INVENÇÃO É CULTURA 
N os capítulos precedentes, vimos que a antropologia é o estudo do 
homem mediante a presunção da cultura, uma noção que abarca os pen-
samentos e ações do antropólogo e dos seus objetos de estudo como 
variedades do mesmo fenômeno. Em sua conotação mais simples e mais 
ampla, a "cultura" provê uma base relativística para a compreensão de 
outros povos. Estudamos a cultura por meio da cultura, de modo que 
quaisquer operações que caracterizem nossa investigação também devem 
ser propriedades gerais da cultura. Se a invenção é mesmo o aspecto 
mais crucial de nosso entendimento de outras culturas, isso deve ter uma 
importância central no modo como todas as culturas operam. Em outras 
palavras, se reconhecemos a criatividade do antropólogo na construção 
de sua compreensão de uma cultura, certameflte não podemos negar a 
essa cultura e a seus membros o mesmo tipo de criatividade. 
Invenção, portanto, é cultura, e pode ser útil conceber todos os seres 
humanos, onde quer que estejam, como "pesquisadores de campo" que 
controlam o choque cultural da experiência cotidiana mediante todo tipo 
de "regras", tradições e fatos imaginados e construídos. O antropólogo 
torna suas experiências compreensíveis (para si mesmo e para outros 
em sua sociedade) ao percebê-las e entendê-las em termos de seu pró-
prio modo de vida, de sua Cultura. Ele as inventa como" cultura". E na 
medida em que durante toda a sua vida ele aprendeu a se comunicar com 
outros - com seus amigos e sua família tanto quanto com seus colegas -
por meio das convenções compartilhadas dessa Cultura, ele agora é capaz 
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de se comunicar com membros de uma sociedade diferente por meio 
da "cultura" que inventou para eles. Uma vez que a cultura estudada 
ganhou significado para ele - da mesma maneira que sua própria vida 
é dotada de significado -, ele é capaz de comunicar suas experiências 
dessa cultura àqueles que compartilham os significados e convenções do 
seu próprio modo de vida. 
Se assumimos que todo ser humano é um "antropólogo", um inven-
tor de cultura, segue-se que todas as pessoas necessitam de um conjunto 
de convenções compartilhadas de certa forma similar à nossa "Cultura" 
coletiva para comunicar e compreender suas experiências. E se a invenção 
é realmente tão básica para a existência humana quanto sugeri,