WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.070 materiais32.248 seguidores
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então a 
comunicação e o conjunto de associações e convenções compartilhadas 
que permite que a comunicação ocorra são igualmente básicos. Toda 
expressão dotada de significado, e portanto toda experiência e todo enten-
dimento, é uma espécie de invenção, e a invenção requer uma base de 
comunicação em convenções compartilhadas para que faça sentido - isto 
é, para que possamos referir a outros, e ao mundo de significados que 
compartilhamos com eles, o que fazemos, dizemos e sentimos. Expressão 
e comunicação são interdependentes: nenhuma é possível sem a outra. 
Nossa discussão sobre o culto da carga e a produção em sociedades 
tribais mostrou o quão inadequada é a Cultura ocidental do empreendi-
mento coletivo como modelo para a autoinvenção dos povos tribais. Se 
a base comunicativa da invenção de Vali é assim tão diferente da nossa, 
um entendimento da cultura como invenção exige que consideremos 
em certo nível de detalhe toda a questão da comunicação e da expres-
são inventiva. O que queremos dizer com "associações convencionais" 
de uma palavra ou de qualquer outro elemento simbólico? Como essas 
associações objetificam a "realidade"? E qual é a relação de sua "con-
vencionalidade" com aquele tipo de extensão que assimilei à invenção? 
Em outras palavras, como a invenção se relaciona com a concepção mais 
ampla que o homem tem de si mesmo e do mundo? Tentarei 
a essa questão primeiramente de modo geral, e em seguida com exem-
plos específicos, extraídos da cultura norte-americana moderna. Mas suas 
implicações são ao mesmo tempo tão cruciais e tão gerais que englobam 
76 O poder da myenção 
nossas concepções de "eu" e motivação assim como da sociedade e do 
mundo circundante. Assim, se desejamos levar a invenção a sério, deve-
mos estar preparados para abandonar muitas de nossas suposições sobre 
o que é real e sobre por que as pessoas agem como agem. 
Palavras como "invenção" e "inovação" são frequentemente uti-
lizadas para distinguir atos ou ideias originais, ou coisas criadas pela 
primeira vez, de ações, pensamentos e arranjos que se tornaram esta-
belecidos ou habituais. Tal distinção oculta uma pressuposição quanto à 
natureza "automática" ou "determinada" da ação ordinária, quase como 
ocorre com noções deterministas. Ao estender o uso de "invenção" e 
"inovação" a toda a gama de pensamento e ações, pretendo contrapor-
me a essa pressuposição e afirmar a realização espontânea e criativa da 
cultura humana. 
A comunicação e a expressão significativa são mantidas por meio do 
uso de elementos simbólicos - palavras, imagens, gestos - ou de sequên-
cias destes. Quando isolados e vistos como "coisas" em si mesmos, esses 
elementos aparentam ser meros ruídos, padrões de luz ou movimentos 
arbitrários (como ilustração, tente repetir uma palavra como "zepelim" 
ou "papoula" várias vezes, concentrando-se exclusivamente no som, e 
veja como ela soará peculiar depois de certo tempo). Esses elementos só 
têm significado para nóS mediante suas associações, que eles adquirem 
ao ser associados ou opostos uns aos outros em toda sorte de contextos. 
O significado, portanto, é uma função das maneiras pelas quais criamos 
e experienciamos contextos. 
A palavra" contexto" tem sido usada extensivamente pelos linguistas 
modernos na busca de uma base ou matriz relacional para o uso dotado de 
sentido das palavras. Ela geralmente conota o "ambiente" de significado 
no qual um símbolo é utilizado. Mas elude fronteiras e definições precisas 
num grau que exaspera os linguistas - meu colega Oswald Werner bati-
zou-a de a "panaceia" da explicação linguística. Emprego o termo no sen-
tido mais amplo possível, aplicando-o a qualquer punhado de elementos 
simbólicos que ocorram juntos de alguma maneira, seja formando uma 
sequência ou entidade reconhecível (a "cadeia sintagmática" de alguns 
autores), seja entrando em oposição como aspectos contrastantes de uma 
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distinção (a base de uma relação "paradigmática"). Optei por generalizar 
"contexto" com a expectativa de que um conceito que desafia o estreita-
mento construtivo possa nos ser mais útil sendo ampliado - à maneira do 
conceito matemático de "conjunto" na "teoria dos conjuntos". 
Um contexto é uma parte da experiência - e também algo que nossa 
experiência constrói; é um ambiente no interior do qual elementos sim-
bólicos se relacionam entre si, e é formado pelo ato de Os 
elementos de um contexto convencionalmente reconhecido parecem se 
pertencer mutuamente assim como elefantes, lonas, palhaços e acrobatas 
"pertencem" a um circo. Alguns elementos são partes menos convencio-
nais de um contexto que outros, embora isso varie no tempo e no espaço. 
Por exemplo, um urso bailarino é uma parte menos convencional de um 
circo para os norte-americanos do que para os europeus. Alguns contex-
tos são menos convencionais que outros, embora isso também varie com 
o tempo, o lugar e as pessoas. Os contextos mais convencionais parecem 
tão familiares que os percebemos como todos, coisas ou experiências 
em si mesmos, como o "outono", a "escola" ou a Declaração da Inde-
pendência. Outros são mais obviamente "montados" , como o punhado 
de palavras que compõe um poema não familiar ou uma rotina que ainda 
não aprendemos a viver. 
Não há limites perceptíveis para a quantidade e a extensão dos con-
textos que podem existir em uma dada cultura. Alguns contextos incluem 
outros, e fazem deles uma parte de sua articulação; outros podem se 
inter-relacionar de um modo que não envolve total exclusão ou inclu-
são. Alguns, de tão tradicionais, parecem quase permanentes e imutáveis, 
ao passo que novos contextos são criados o tempo todo na produção de 
afirmações e situações em que consiste a vida cotidiana. 
Qualquer elemento simbólico dado pode ser envolvido em vários 
contextos culturais, e a articulação desses contextos pode variar de 
um momento para outro, de uma pessoa para outra ou de um grupo 
de pessoas para outro. No entanto, a comunicação e a expressão só 
são possíveis na medida em que as partes envolvidas compartilham 
e compreendem esses contextos e suas articulações. Se as associa-
ções contextuais de um elemento simbólico são compartilhadas, a 
78 O poder da invenção 
significância de sua extensão ou "empréstimo" para uso em outros 
contextos também será compartilhada. 
Uma palavra ou qualquer outro elemento simbólico adquire suas 
associações convencionais do papel que desempenha na articulação dos 
contextos em que ocorre e da importância e significância relativa des-
ses contextos. Quando um elemento é invocado fora de um tal contexto, 
lançamos mão e fazemos uso do caráter, da realidade e da importância 
desse contexto como "associações" do elemento. Sob esse aspecto, pode-
se dizer que uma palavra ou outro elemento relaciona todos os contextos 
em que aparece, e que ela os relaciona, direta ou indiretamente, mediante 
qualquer novo uso ou "extensão". 
Nossa palavra "pai" [falher] carrega as associações de parentesco 
biológico (como em uma ação judicial de atribuição de paternidade), de 
relações de parentesco (agir como pai), de cosmologia religiosa ("Pai 
nosso, que estás no céu ... ") e de oficio religioso ("padres jesuítas" Uesuit 
Fathers)), entre muitas Outras. Ela relaciona essas associações, direta e indi-
retamente, de diversas maneiras específicas, algumas das quais impõem 
significados em si mesmos tão importantes quanto a transformação da 
Cultura no sentido "sala de ópera" em cultura no sentido antropoló-
gico, que exploramos no capítulo anterior. "Pai" tem um amplo leque 
de significados e associações" convencionais", uma associação específica 
("estreita") com cada um de seus contextos convencionais, uma incalcu-
lável disseminação de associações "pessoais" ou idiossincráticas para dife-
rentes indivíduos, grupos e períodos e um potencial virtualmente infinito 
para a criação