WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
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de novos significados por meio de todos esses. 
Toda vez que usamos uma palavra desse tipo num contexto espe-
cífico, "estendemos" suas outras associações contextuais. Só podemos 
definir um elemento simbólico, ou atribuir prioridades às suas várias 
associações 'convencionais, com base na (suposta) significância relativa 
dos contextos do qual ele participa. Assim, a definição acaba sendo um 
exercício de afirmação ou ajuste do ponto de vista cultural do definidor, 
de suas prioridades e convenções de comunicação. Se julgamos o paren-
tesco biológico mais "básico" que a cosmologia religiosa, as associações 
primárias de "pai" serão naturais e biológicas, e o uso dessa palavra em 
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referência ao Ser Superior será uma" extensão". À parte esse tipo de com-
promisso ideológico, não existem significados "primários", e a definição 
e a extensão de uma palavra ou outro elemento simhólico constituem funda-
mentalmente uma mesma operação. Todo uso de um elemento simbólico 
é uma extensão inovadora das associações que ele adquire por meio de 
sua integração convencional em outros contextos. 
O significado é pois produto das relações, e as propriedades signifi-
cativas de uma definição são resultados do ato de relacionar tanto quanto 
as de qualquer outro constructo expressivo. Mas o significado seria sempre 
completamente relativo não fosse a mediação da convenção - a ilusão de que 
algumas associações de um elemento simhólico são ''primárias'' e autoeviden-
teso Se o significado é baseado na relação, então o bom e sólido sentimento 
de denotação "absoluta" (sobre o qual tantas epistemologias linguísticas 
são fundadas) é uma ilusão fundada na não relação, ou tautologia. Cor-
responde ao efeito de um contexto que" confere associações a si mesmo" 
por meio de seus elementos articuladores. Quando usamos "pai" em um 
contexto familial, a palavra carrega associações de paternidade biológica 
e talvez de divindade, mas também leva adiante as próprias associações 
"familiais" que ligam essa aplicação particular a outros casos do mesmo 
tipo. Chamar um pai de "pai" restitui ao contexto familial suas próprias 
associações. Proporciona o bom e confortável (e um tanto surrado) sen-
timento de estar usando uma palavra tal como ela foi feita para ser usada, 
e esse uso aparece como autoevidente. Quanto mais completamente esse 
efeito de "conferir características a si mesmo" se realiza, mais se pode 
dizer que o uso é convencionali'{ado, amplamente compartilhado, comu-
nicável, facilmente definido (e desprovido de sentido). Ou, para dizê-lo 
de outro modo, as coisas que melhor podemos definir são as que menos 
vale a pena definir. Mesmo Jeová (em sua feição popular, versão rei 
Jaime), quando pressionado a definir a si próprio, recorreu a uma tauto-
logia: "Eu Sou o que Sou". 
Vimos que a comunicação é tão importante para a expressão dO!!2a 
de significado quanto a "extensão". E a comunicação só é possível 
mediante o compartilhamento de associações derivadas de certos con-
textos convencionais por aqueles que desejam se comunicar. Segue-se que 
80 O poder da myenção 
algumas associações convencionais, e, por implicação, os contextos que as 
proporcionam, devem estar envolvidas em toda expressão significativa. As 
associações compartilhadas servem para relacionar as qualidades significa-
tivas da expressão às vidas e às orientações daqueles que se comunicam; 
sem esse caráter relacional, essas qualidades significativas, não importa o 
quão provocativas, não seriam compreendidas ou apreciadas. Desse modo, 
todo empreendimento humano de comunicação, toda comunidade, toda 
"cultura" encontra-se atada a um arcabouço relacional de contextos con-
vencionais. Esses contextos nunca são ahsolutamente convencionalizados, 
no sentido de serem idênticos para todos aqueles que os compartilham; 
sempre têm pontas soltas, são incompletamente compartilhados, estão em 
processo de mudança, e podem ou não ser aprendidos conscientemente, 
no sentido de "regras". Mas essa coisa um tanto tênue e mal compreendida 
à qual nos referimos, com otimismo, como "comunicação" só é possível 
na medida em que associações são compartilhadas. 
Em toda" cultura", em toda comunidade ou todo empreendimento 
humano de comunicação, o leque de contextos convencionais gira em 
torno de uma imagem generalizada do homem e das relações interpes-
soais humanas e articula essa imagem. Esses contextos definem e criam 
um significado para a existência e a socialidade humanas ao fornecer uma 
base relacional coletiva, uma base que pode ser atualizada explícita ou 
implicitamente por meio de uma infinita variedade de expressões possí-
veis. Eles incluem coisas como linguagem, "ideologia" social, aquilo que 
é chamado de "cosmologia" e todos os demais conjuntos relacionais que 
os antropólogos se deliciam em chamar de "sistemas" (embora, é claro, 
seu aspecto "sistemático" possa ganhar tanta importância ou desimpor-
tância quanto se deseje). Isso não significa, evidentemente, que o ideal e 
sua imagem do homem sejam os mesmos para todas as culturas humanas, 
ou que desempenhem em todas elas o mesmo papel na visão ou esquema 
da pessoa e de sua ação no mundo - ainda que os modos como diferem 
a esse respeito sejam cruciais para a nossa compreensão dessas culturas. 
Os significados convencionais, coletivos, do homem e de sua socialidade 
podem ser aspectos implícitos ou explícitos da ação humana, e portanto 
da própria invenção, mas estão sempre presentes. Uma ideia central na 
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obra de Émile Durkheim era a de que em toda culrura essa imagem cole-
tiva do homem e da socialidade humana compreende o que poderíamos 
chamar de um campo de moralidade. 
É moral, pode-se dizer, tudo o que é fonte de solidariedade, tudo o que 
força o homem a contar com outro, a regular seus movimentos por outra 
coisa que não os impulsos de seu egoísmo, e a moralidade é tanto mais 
sólida quanto mais seus laços são numerosos e fortes. l 
A moralidade, nesse sentido, constirui a metade do mundo do significado. 
E a moralidade pode ajudar a clarificar a ilusão de meados do século xx 
de que é possível dar conta da vida humana falando em "sistemas", "codi-
ficação", "normas" ou "relações". A moralidade é uma espécie de sig-
nificado, um significado com direção, propósito e motivação, e não um 
substrato sistêmico. É um constructo cultural, um leque de contextos cons-
truído a partir das associações de outrOS contextos, assim como suas pró-
prias associações podem servir para a articulação de outras construções. 
Os contextos morais ou convencionais de uma cultura definem e 
orientam suas expressões significativas e aqueles que as constroem; eles 
"juntam os pedaços do mundo". Eles ao mesmo tempo relacionam cons-
truções expressivas e são eles prõpn·os construções expressivas, criando 
uma imagem e uma impressão de um absoluto em um mundo que não tem 
absolutos. N osso problema, nossa tarefa e nosSO interesse neste capítulo 
é entender como essa ilusão é criada, como ela funciona e se motiva a si 
mesma e como mantém sua preeminência no decorrer da ação. 
CONTROLE 
Está claro que, se palavras são apenas sons, e imagens visuais apenas 
Padrões de luz, nem umas nem outras têm associações inatas ou autoe-
videntes. Vimos que quaisquer associações que venham a adquirir são 
I. Émile Durk.heim, De la Diyision du trayail social. Paris: F. Alcan, 1893. 
82 O poder da invenção 
obtidas mediante participação em vários contextos. Conrudo, seria a mais 
pura tautologia dizer que um contexto particular recebe suas caracterís-
ticas de si mesmo ou das experiências que estrutura. Uma vez que seus 
elementos articuladores guiam e canalizam nossa experiência de sua rea-
lidade, os contextos não podem receber sua forma e seu caráter direta-
mente dessa experiência. Segue-se que essas características são dadas em 
grande medida pelas outras associações