WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.078 materiais32.333 seguidores
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dos elementos que articulam o 
contexto, aquelas que eles obtêm com a participação em contextos exter-
nos àquele em questão. Os vários contextos de uma cultura obtêm suas 
características significativas uns dos outros, por meio da participação de 
elementos simbólicos em mais de um contexto. Eles são inventados uns 
a partir dos outros, e a ideia de que alguns dos contextos reconhecidos 
em uma cultura são "básicos" ou "primários", ou representam o "inato", 
ou de que suas propriedades são de algum modo essencialmente objeti-
vas ou reais, é uma ilusão cultural. 
E, no entanto, trata-se de uma ilusão necessária, que faz parte do 
viver em uma cultura e do inventá-la" de dentro" , tanto quanto a pres-
suposição do antropólogo de regras firmes e rigorosas é uma muleta para 
a sua invenção da cultura a partir "de fora". A expressão significativa 
sempre envolve o uso de "muletas" desse tipo, e por isso sempre se move 
em um mundo de ilusão culrural - um mundo, ademais, que ela conti-
nuamente "traça" para si mesma, como um tanque de guerra deitando 
seu próprio rastro. Nossos símbolos não se relacionam com nenhuma 
"realidade" externa; nO máximo referem-se a outras simbolizações, que 
percebemos como realidade. 
Todo pensamento, ação, interação, percepção e motivação humana 
pode ser entendida como uma função da construção de contextos lan-
çando mão das associações contexruais de elementos simhólicos (semió-
ticos). Como toda ação desse tipo - eficaz ou ineficaz, boa ou má, "cor-
reta" ou "incorreta" - se desenvolve mediante construções sucessivas, sua 
geração pode ser descrita como "invenção" ou "inovação". A invenção 
mescla associações contexruais em um produto complexo de um modo que 
pode ser ilustrado pela noção de construção "metafórica" ou "pragmática" 
no sentido linguístico. Uma metáfora incorpora uma sequência nova ou 
8) 
\u2022 
inovadora, mas também muda as associações dos elementos que reúne 
ao integrá-los numa expressão distintiva e muitas vezes original. Em outro 
lugar empreguei o termo "metáfora" em referência à invenção cultural,z 
embora tal emprego exija que "metaforizemos" a noção de metáfora, esten-
dendo-a de modo a englobar formas não verbais e desenvolvendo assim 
uma teoria da simbolização por analogia com a linguagem. No entanto, 
interesso-me por fenômenos linguísticos em larga medida como exemplos 
de operações semi óticas mais gerais, mais do que o contrário, e por isso 
cito aqui o exemplo da metáfora apenas por seu valor ilustrativo. 
As simbolizações convencionais são aquelas que se relacionam entre 
si no interior de um campo de discurso (linguagem e matemática são 
os exemplos óbvios) e formam "conjuntos" culturais, como sentenças, 
equações, kits de ferramentas, trajes completos ou ruas de uma cidade. 
Elas generalizam ou coletivizam por meio de sua capacidade de conec-
tar signos de uso comum em um padrão único. Mas podem fazê-lo ape-
nas porque rotulam, ou codificam, os detalhes do mundo que ordenam. 
Todas as simbolizações convencionais, na medida em que são conven-
cionais, têm a propriedade de "representar" ou denotar algo diferente 
delas mesmas. Essa é a noção tradicional de "símbolo", empregada por 
Charles Sanders Peirce e outros. 
Assim, um contraste contextual- entre o contexto simbólico articu-
lado por signos e o contexto de fenômenos aos quais esses signos se refe-
rem - é uma característica da simbolização convencional toda vez que esta 
ocorre. Os símbolos se autoabstraem do simbolizado. Uma vez que somos 
obrigados a usar símbolos para nos comunicar, e já que eSses símbolos 
necessariamente têm de incluir associações mais ou menos convencio-
nais entre aquelas disponíveis, o efeito da autoabstração simbólica, com 
O contraste contextual resultante, é sempre um fator na simbolização. 
Além de dar ao mundo um centro, um padrão e uma organização, 
a convenção separa suas próprias capacidades de ordenação das coisas 
ordenadas ou designadas, e nesse processo cria e distingue 
2.. Roy Wagner, Habu: The lnnovation of Meaning in Dan'bi Religion. Chicago: The Univer-
sity of Chicago Press, 1972.· 
84 O poder da invenção 
A delineação desses contextos e a oposição entre modos de simbolização 
"coletivizante" e "diferenciante" que ela implica podem ser igualmente 
tratadas como ficções ou ilusões da convenção, mas são extremamente 
importantes. Elas decompõem o mundo do ator, e da tradição em geral, 
em suas categorizações mais significativas e efetivas. 
O elemento que contrasta com o convencional, aquele que é "repre-
sentado" ou "significado" pela simbolização convencional (e que por sua 
vez a simboliza, evidentemente), não deve ser simplesmente assimilado 
ao leque de coisas "autoevidentes" no mundo - pessoas, lugares, eventos 
etc. individuais -, embora certamente as inclua. Ele de fato constitui um 
outro modo de sirnbolização: o modo diferenciante, ou não convencio-
nal. Seus efeitos são opostos àqueles do modo convencional em quase 
todos os aspectos, ainda que também possam ser entendidos em termos 
de propriedades semióticas. 
Quando um símbolo é usado de modo não convencional, como na 
formação de uma metáfora ou um tropo de alguma outra ordem, um 
novo referente é introduzido simultaneamente com a nova simboliza-
ção. Uma vez que nem significante nem significado pertencem à ordem 
estabelecida das coisas, o ato de simbolização só pode ser referido a um 
evento: o ato de invenção no qual forma e inspiração passam a figurar 
uma à outra. O resultado não é diferente nas simbolizações que apre-
endemos ao descobrir um rosto novo ou uma nova situação: um evento 
manifesta símbolo e referente simultaneamente. Assim, a tensão e o con-
traste entre o símbolo e o simbolizado desmoronam, e podemos falar de 
tal construção como um "símbolo" que "representa a si mesmo". Todas 
as experiências, pessoas, objetos e lugares singulares da vida cotidiana 
correspondem, nos traços que as tornam distintas, a esse modo de sim-
bolização - como "símbolos", elas representam a si mesmas. 
Desse modo, a tendência do simbolismo diferenciante é impor dis-
tinções radicais e compulsórias ao fluxo da construção; é especificar, e 
assimilar uns aos outros os contextos contrastantes dispostos pela con-
venção. "Invenção", o "signo" da diferenciação, é o obviador [obviator] 
dos contextos e contrastes convencionais; de fato, seu efeito total de fun-
dir o "sujeito" e o "objeto" convencionais, transformando um com base 
8, 
..oi 
no outro, pode ser rotulado "obviação" [ohviation]. Conferir ou receber 
associações de um contexto para o outro é uma consequência desse efeito, 
a qual proponho chamar de objetificação. (Meu emprego do termo "obje-
tificar" [objectifYl aqui é um tanto fenomenológico e se assemelha ao uso 
do termo "objetivar" [objectivate 1 por N ancy Munn em sua discussão da 
iconografia walbiri, na qual ela demonstra como a imagística da represen-
tação walbiri fornece" correlatos objetivos" para as "formações sensuais 
da experiência subjetiva").' 
Uma simbolização convencional objetifica seu contexto díspar ao 
conferir-lhe ordem e integração racional; uma simbolização diferenciante 
especifica e concretiza o mundo convencional ao traçar distinções radi-
cais e delinear suas individualidades. Mas, como a objetificação é sim-
plesmente o efeito da fusão ou obviação dos contextos sobre cada um 
deles (assim como, de fato, os próprios contextos são meramente deli-
neações da autoabstração convencional), os dois "tipos" de objetificação 
são necessariamente simultâneos e recíprocos: o coletivo é diferenciado 
ao mesmo passo que o individual é coletivizado. 
U ma vez que, dada a natureza da simbolização convencional, o cole-
tivo sempre precisa "significar" o diferenciante e vice-versa, e uma vez 
que, dada a natureza da simbolização diferenciante, a ação de um modo 
simbólico sobre o outro é sempre