WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.132 materiais32.767 seguidores
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reflexiva, todos os efeitos simbólicos 
são mobilizados em qualquer simbolização dada. É impossível objetifi-
car, inventar algo sem "contrainventar" seu oposto. A percepção desse 
fato pelo simbolizado r seria, é claro, fatal para a sua intenção: enxergar 
o campo inteiro de uma só vez, em todas as suas implicações, é sofrer 
uma "relativização" da intenção, tornar-se consciente de como é gratuito 
o papel que ela desempenha na ativação dos símbolos. Assim, a mais 
imperiosa necessidade de ação sob essas circunstâncias é uma restrição 
da visão, concentrando a percepção consciente e a intenção do ator em 
um dos modos e em seu efeito. 
3. Nancy D. Munn, Walhin' Jconography: Graphic Representation and Cultural Symholirm in a 
Central Australian society. Ithaca/Londres: CorneU University Press, '973, p. 221. 
86 O poder da invenção 
Um controle desse tipo é fornecido pela discriminação ideológica 
nítida e compulsória entre os dois modos simbólicos feita em todas as 
tradições humanas. Ou o modo convencional se abstrai como o reino 
apropriado à ação humana, deixando o modo diferenciante como o 
reino do dado ou inato, ou então o convencional se abstrai como O inato, 
designando a diferenciação como o modo apropriado à ação humana. 
Em ambos os casos, o peso e a ênfase moral diferenciais atribuídos a 
cada um dos modos servirão para controlar a atenção do simbolizador, 
mascarando-lhes a natureza essencialmente simbólica e a reHexividade 
obviante. Como veremos, as consequências e motivações serão muito 
diferentes conforme o simbolizador se mova "junto com" ou "contra" as 
prescrições convencionais para a ação; do ponto de vista do controle e 
do mascaramento, porém, tudo o que importa é que os dois reinos sejam 
mantidos suficientemente distintos. 
Vou me referir ao contexto no qual se concentra a atenção de um sim-
bolizador, independentemente de seu status ideológico, como controle ou 
contexto de controle, pois é esse contexto, e esse modo simbólico, que con-
trola sua atenção ao restringir seu campo de percepção consciente. Vou 
me referir ao modo oposto, aquele que é "tomado" ou sobre o qual se age, 
como contexto implícito. O efeito de mascarar, de restringir a intenção e a 
percepção consciente do ator dessa maneira, é o de envolvê-las não apenas 
na ação em si, mas também nos juízos e prioridades do mundo convencional. 
Pois o mascaramento nada mais é que o condicionamento de nossa 
percepção consciente pela propriedade de autoabstração dos símbolos 
convencionais. Sejam estes empregados para construir um contexto con-
vencionalmente reconhecido ou utilizados em atos deliberados de obvia-
ção, os símbolos convencionais estão lá, e seu efeito de distinguir os 
contextos, o sujeito do objeto, será necessariamente parte da ação, per-
cebida ou pretendida, conforme o caso. Quando o controle é diferen-
ciante, porém, a separação mascaradora dos contextos se manifestará 
como uma intrusão sobre a intenção, como uma consciência culpada, 
pois a força dos atos diferenciantes está em produzir uma união entre 
sujeito e objeto, e a intenção do simbolizador busca uma espécie de 
desmascaramento, a obviação da dicotomia sujeito/ objeto. O aspecto 
87 
"psicológico" da simbolização resulta da separação, incorporada na per-
cepção consciente do simbolizadof, entre coletivizante e diferenciante, 
e entre mascaramento e obviação - uma separação necessária para que 
ele seja protegido do relativismo essencial de toda construção simbólica. 
Por envolver a combinação ou articulação mútua de dois contextos, todo 
ato de invenção cultural resulta em dois tipos de objetificação. Ambos são, 
por certo, consequências e aspectos de um ato único, complexo, e cada um 
representa a significância desse ato em termos de uma parte específica do 
mundo conceitual. O controle particular empregado pelo ator faz com 
que ele veja um tipo de transformação ou objetificação como resultado de 
suas próprias intenções, como aquilo que ele está "fazendo". Ele identi-
fica o outro tipo de objetificação, aquele que transforma o próprio contexto 
de controle e que poderíamos chamar de "contrainvenção", com a causa 
ou motivação de suas intenções. Essa observação pode parecer à primeira 
vista enigmática ou forçada, mas deveria estar claro que a transformação 
do controle é facilmente perceptível em relação à ação, e como ela não faz 
parte da intenção do ator é invariavelmente associada a alguma compul-
são motivacional ou externa inata, àquilo que está "causando" a intenção. 
Isso também é uma ilusão cultural, e uma consequência do fenô-
meno do mascaramento. Mas, se a fonte da motivação é uma ilusão, seu 
efeito motivante não é, pois ao comprometer-se com o controle como 
um curso de ação o ator se torna vulnerável às ilusões do mascaramento 
que essa ação produz sobre ele. É uma ilusão traiçoeira. Podemos com-
preender melhor como essa ilusão opera retornando ao fato de que toda 
invenção dotada de significado precisa envolver tanto um contexto con-
vencional quanto um contexto não convencionalizado, um dos quais 
"controla" o outro, e explorando as implicações desse fato. 
Quando o contexto convencional é aquele que serve de controle, 
o foco do ator se dirige a uma articulação de coisas que se conforma a 
algum tipo de convenção cultural (e moral). Ele age em confoqnjPade 
explícita com um ideal ou uma expectativa coletiva quanto ao modo como 
as coisas "devem ser feitas", construindo seu contexto segundo linhas 
que correspondem a uma imagem compartilhada do moral e do social. 
88 O poder da invenção 
Pode-se descrever sua ação dizendo que ele "segue as regras" ou tenta 
explicitamente ser moral, mas de todo modo ele coletiviza sua ação. Isto 
é, ele controla seu ato de acordo com um tipo de modelo que significa a 
"conjunção" de sociedade e moralidade, construindo consistência e coe-
são social. Mas é evidente que, na medida em que o Outro contexto, aquele 
no qual ele age dessa maneira coletivizante, não é um contexto convencio-
nal, a construção resultante incluirá características tanto convencionais 
(morais) como não convencionalizadas (particulares) - ela será "pare-
cida com" as intenções do ator em alguns aspectos e "diferente de" tais 
intenções em outros. O ator, seguindo suas intenções, terá conseguido em 
certa medida" coletivizar" o contexto de sua ação, transformando mato 
em uma roça ou um grupo de pessoas em uma família ou nação. Ele terá 
recriado e estendido algum contexto não convencionalizado (um certo 
mato, um certo punhado de indivíduos) sob uma forma convencional, 
transformando-o em "cultura" ou Mas ele também terá 
em alguma medida recriado e estendido um contexto convencional (as 
"regras" ou técnicas aceitas para fazer uma roça, ou uma família, ou uma 
nação) de forma particularista ou não convencional. O mascaramento 
que acompanha essa ação fará com que ele veja esses dois tipos de obje-
tificação resultantes de modos diferentes. 
Suponhamos que eu busque tratar minha esposa" como um marido 
deve tratar", seguindo um conjunto compartilhado de expectativas cul-
turais como controle, esperando transformar nossa associação em "um 
casamento" e em "uma família". O contexto não convencionalizado 
de minha ação será constituído pelas características pessoais, sociais 
e situacionais individuais minhas e de minha esposa e por aquelas de 
nossa associação prévia. Ao dirigir o foco de minha ação para "ser um 
bom marido", e por conseguinte dirigir o foco da atenção dela para "ser 
uma boa esposa", participo da atividade comum de "construir um casa-
mento" e "construir uma família". Na medida em que nossos esforços 
forem bem-sucedidos, transformaremos uma interação entre indivíduos 
em algo próximo das noções convencionais de "casamento" e "família". 
U ma vez que pertencemos a uma cultura que possui noções bastante pre-
cisas do que devem ser um "casamento"