WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.120 materiais32.703 seguidores
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e uma "família", e uma vez que 
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ao controlar nossas ações colocamos essas noções em foco, estaremos sob 
a ilusão de que o complexo produto de nossa invenção é uma coisa real. 
E, em razão de nosso compromisso com essa coisa, o outro tipo de obje-
tificação que está em curso aparecerá, enquanto uma consequência direta 
de nossa ação, como um processo natural, uma consequência "daquilo 
que somos", de "nosso próprio jeito (individual e coletivo) de fazê-lo". 
Dessa maneira, a objetificação do controle - nesse caso um contexto 
convencional- será mascarada pela identificação que fazemos de nossas 
intenções com aquele controle. Embora elas sejam tornadas aparentes, e 
nessa medida cn'adas como um contexto cultural, por nossas ações, não 
enxergamos essas características pessoais e situacionais como resultado 
dessas ações. Mais do que isso, como a tendência dessa objetificação - que 
é particularizar em lugar de coletivizar - vai diretamente contra aquela de 
nossas intenções, ela é percebida como uma espécie de resistência a estas. 
Enquanto nos esforçamos para transformar nossas idiossincrasias e nos-
sas situações diversas em algo próximo a um ideal social e moral, essas 
idiossincrasias e situações estão simultaneamente se impondo a esse ideal 
e alterando sua forma e aparência, criando uma resistência a nossas inten-
ções. Mas essa resistência também tem o efeito de "preparar" situações 
para coletivização posterior, ao sempre desfazer parcialmente o que quer 
que tenhamos nos proposto a fazer: ela tem o efeito de motivar nossa cole-
tivização. Como a reconhecemos como parte de nossos" eus naturais", 
ela aparece sob a forma de motivação natural, impulsos sexuais, fixações 
pessoais, talentos ou propensões inerentes - aquilo que "somos" e aquilo 
que "fazemos" uns aos outros. Por certo, quanto mais agimos de acordo 
com nossas intenções coletivizantes, mais solidamente construímos uma 
impressão dessa resistência impositiva como uma força contínua motivando 
nossa ação. Ao inventar coletividades culturalmente prescritas, contrain-
ventamos nossa noção de um mundo "dado" de fatos e motivações naturais. 
Quando é o contexto não convencionalizado que serve de controle, 
o ator enfoca uma articulação de coisas que difere em alguns aspecto:;jas 
convenções correspondentes às expectativas sociais (e morais), Quando 
um controle particular é selecionado dentre outros possíveis ou permis-
síveis, o constructo de significação que é produzido se torna distintivo 
90 O poder da inyenção 
e individual. Em vez de coletivizar o individual e o particular, o ator 
está particularizando e diferenciando o coletivo e o convencional. Ele está 
"fazendo as coisas do seu próprio jeito", seguindo um curso particular de 
ação em uma situação (isto é, as convenções compartilhadas da sociedade) 
que admite cursos alternativos, e assim tornando aquilo que faz distintivo 
e individual. Em vez de "seguir as regras" e dirigir seu foco para a consis-
tência e a coesão, ele está deliberadamente "testando" e "estendendo" as 
"regras" por meio da construção de um mundo de situações e particulari-
dades às quais elas se aplicam. Mas uma vez que o contexto de sua ação, a 
coisa (isto é, "regras", convenções) que ele está diferenciando, é coletivo 
e convencionalizado, a construção resultante irá incluir características 
tanto convencionais como não convencionalizadas (particulares). Ela será 
"parecida com" a sua intenção em certos aspectos e "diferente de" tal inten-
ção em outros. A seus olhos, o ator terá conseguido em alguma medida 
"diferenciar" o contexto de sua ação, transformando uma linguagem ou 
um código social comum em sua expressão, poema ou festa singular. Ele 
terá recriado e estendido um contexto convencionalizado de forma indi-
vidual, transformando-o em "sua" vida ou em "seu tipo" de vida. Mas 
também terá, em alguma medida, recriado e difundido um contexto não 
convencionalizado ("seu próprio jeito" de escrever um poema ou de dar 
uma festa) de forma coletiva ou convencional. E o mascaramento que 
acompanha sua ação terá como resultado o fato de que ele decerto verá 
de maneiras diferentes esses dois tipos resultantes de objetificação. 
Suponhamos que em vez de tratar minha esposa "como um marido 
deve tratar" eu decida agir "como um homem", diferenciar minhas 
ações das ações dela com base em um modelo qualquer de masculinidade. 
No contexto de nosso casamento, com todos os seus arranjos e expectati-
vas convencionais, tentarei conscientemente tornar aquilo que faço dife-
rente daquilo que ela faz, e com isso criar minha individualidade como 
pessoa e como homem. (Na vida da classe média norte-americana isso 
decerto seria visto como algo "forçado" e não natural, já que se supõe 
que impulsos sexuais e traços de personalidade sejam "dados" e natu-
rais). Ao dirigir minha atenção para "ser um homem" ou "ser um indi-
víduo" e separar os esforços dela dos meus ("Não me importune com 
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...... 
coisas de mulherl"), busco deliberadamente criar os fatores pessoais e 
situacionais que cercam nosso casamento. Minha esposa pode ou não 
assentir a esse programa, mas quer ela tente frustraclamente coletivizar, 
quer procure atuar como "mulher" diante do meu atuar como "homem", 
eu hei de conseguir diferenciar. N a medida em que eu for bem-sucedido, 
transformarei um casamento em uma interação entre indivíduos. Como 
estou controlando minha ação com um padrão contextual específico em 
mente, estarei sob a ilusão de que o complexo produto dessa invenção é 
uma transformação real. E, em virtude do meu compromisso com essa 
transformação, o outro tipo de objetificação que está em curso, a coleti-
vização de meu controle diferenciante, aparecerá para mim como algo 
imposto de fora, um "dado" que não faz parte de minha intenção. 
Sem dúvida, eu contrainventarei o contexto coletivo de nosso casa-
mento no próprio ato de me individualizar contra ele. E como estou 
tentando diferenciar, criar minha individualidade, essa contrainvenção 
coletivizante será percebida como uma espécie de resistência às minhas 
intenções, um fator motivador que continuamente "dispõe as coisas" para 
novos atos de diferenciação. Mas nesse caso não posso atribuir a força 
motivadora ao meu natural", pois as convenções de minha cultura me 
ensinam que os "dados" naturais são individuais e particularizantes, ao 
passo que essa motivação é social e coletivizante. Assim, embora a moti-
vação seja efetivamente criada e tornada visível no decorrer do controle, 
os tipos de objetificação a que ela leva não são considerados "normais" 
em minha cultura, mas patológicos. Eu os percebo como "compulsões" 
vagas, inexplicáveis, que incidem sobre a minha atividade e me forçam 
a diferenciar cada vez mais. Na medida em que dependo de controles 
não convencionalizados, irei perceber Ce contrainventar) minha cultura 
como uma compulsão nesse sentido. Se eu vivesse em uma cultura em 
que controles não convencionalizados fossem considerados normais, per-
ceberia essa compulsão coletiva como minha "alma". Se eu fosse um 
criminoso nessa sociedade, sua importunação patológica me a 
cometer crimes cada vez maiores. Mas sou apenas um acadêmico ino-
fensivo, com uma cultura obsessiva que deseja liberar-se ao ser escrita 
em mais e mais livros. 
92 O poder da invenção 
Entre os dois tipos de objetificação o mundo inteiro é inventado -
um de seus aspectos motivando o outro e vice-versa. Mas nisso cumpre um 
papel importante a questão de saber qual dos tipos de objetificação é con-
siderado o meio normal e apropriado para a ação humana (o reino do 
artifício humano) e qual é compreendido como funcionamento do inato 
e do "dado". Isso define a forma aceita e convencional da ação humana, 
o modo como o ator interpreta e experiencia o controle e suas ilusões, e 
assim também define que coisas e que experiências devem ser