WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.070 materiais32.248 seguidores
Pré-visualização50 páginas
vistas como 
anteriores às suas ações, e não como resultado delas. Podemos denominar 
essa orientação coletiva de "mascaramento convencional" de uma cultura 
particular. Na moderna Cultura da ciência e do empreendimento coletivo 
da classe média norte-americana, com sua ênfase no acúmulo progres-
sivo e artificial de formas coletivas, o mascaramento convencional equi-
vale ao entendimento de que o mundo do incidente natural (a soma de 
todos os contextos não convencionalizados) é dado e inato. Já no mundo 
dos Daribi e do povo de Yali, com sua ênfase na prioridade das relações 
humanas, é o mundo incidental dos controles não convencionalizados que 
envolve a ação humana, ao passo que a articulação do coletivo é o objeto 
da contrainvenção e do mascaramento convencional. 
A cultura de Yali e a cultura dos Daribi são inatas e motivadoras: 
elas "querem ser" estendidas e diferenciadas por oposição; faz parte de 
seu caráter convencional que elas devam ser normalmente contrainven-
tadas por meio de controles diferenciantes. Já a Cultura norte-ameri-
cana é artificial e imposta; é o legado de muitas gerações de progresso, 
de construtores e criadores que, motivados eles próprios pela "natu-
reza", desenvolveram nossas técnicas de domínio, aplicação e regulação 
da natureza. No primeiro caso, a convenção cultural mascara sua pró-
pria invenção como motivação; no segundo, sua articulação consciente 
mascara a invenção de uma natureza inata e motivadora. Assim, o mas-
caramento convencional é sempre estendido e recriado como parte da 
operação da própria invenção: está implícito nos próprios contextos con-
vencionais, na medida em que eles são inventados ou contrainventados. 
E sua contínua recriação motiva, ou é motivada, da mesma maneira que 
esses contextos o são. 
93 
Se isso é verdadeiro, como podemos dar conta de atos que invertem 
a ordem de controle culturalmente apropriada: a diferenciação delibe-
rada que ocorre na Cultura norte-americana e a coletivização que tem 
lugar na Nova Guiné? Uma vez que essas inversões contrariam a criação 
de motivações ordinária, não podemos atribuí-las às ilusões do masca-
ramento convencional. Elas são na verdade uma espécie de "desmas-
caramento", fazendo aquilo que ordinariamente não se pode fazer; e, 
conquanto criem sua própria motivação sob a forma de compulsão, o 
ímpeto para tal "reversão" da ação permanece por explicar. Se puder-
mos explicá-la, isso talvez nos ajude a entender por que os modos de ação 
convencionais e as ilusões que eles criam permanecem convencionais. 
Pois a afirmação de que as ações criam suas próprias motivações nos diz 
pouco, na verdade, sobre o modo como esse estado de coisas veio a se 
estabelecer ou sobre para onde ele está indo. A existência de um modo 
de ação convencional e de mascaramento põe um problema que não pode 
ser solucionado apenas pela noção de controle, e esse problema é o da 
necessidade da invenção. 
A NECESSIDADE DA INVENÇÃO 
Os contextos de cultura são perpetuados e estendidos por atos de objetifi-
cação, pela sua invenção uns a partir dos outros e uns por meio dos outros. Isso 
significa que não podemos apelar para a força de algo chamado "tradição", 
"educação" ou orientação espiritual para dar conta da continuidade cultu-
ral- ou, na verdade, da mudança cultural. As associações simbólicas que 
as pessoas compartilham, sua "moralidade", "cultura", "gramática" ou 
"costumes", suas "tradições", são tão dependentes de contínua reinven-
ção quanto as idiossincrasias, detalhes e cacoetes que elas percebem em 
si mesmas ou no mundo que as cerca. A invenção perpetua não apenas as 
coisas que "aprendemos", como a língua ou boas maneiras, mas 
as regularidades de nossa percepção, como cor e som, e mesmo o tempo e 
o espaço. Uma vez que o coletivo e convencional só faz sentido em relação 
ao individual e idiossincrático, e vice-versa, contextos coletivos só podem 
94 O poder da invenção 
ser retidos e reconhecidos como tais ao ser continuamente filtrados através 
das malhas do individual e do particular, e as características individuais 
e particulares do mundo só podem ser retidas e reconhecidas como tais 
ao ser filtradas através das malhas do convencional. Ordem e desordem, 
conhecido e desconhecido, a regularidade convencional e o incidente que 
desafia a regularidade estão atados entre si de maneira inata e estreita, são 
funções um do outro, necessariamente interdependentes. Não podemos 
agir sem inventar um por meio do outro. 
Se a invenção é assim de importância crucial para a nossa apreensão 
da ação e do mundo da ação, a convenção não o é menos, pois a convenção 
cultural define a perspectiva do ator. Sem invenção, o mundo da conven-
ção, com sua tão importante distinção interpretativa entre o "inato" e o 
"artificial", não poderia ser levado adiante. Mas sem as distinções conven-
"cionais, que orientam o ator em seu mundo, que lhe dizem quem ele é e 
o que pode fazer e desse modo conferem a seus atos um mascaramento 
convencional e uma motivação convencional, a invenção seria impossí-
vel. O cerne de todo e qualquer conjunto de convenções culturais é uma 
simples distinção quanto a que tipo de contextos - os não convenciona-
lizados ou os da própria convenção - serão deliberadamente articulados 
no curso da ação humana e que tipo de contextos serão contrainventados 
como "motivação" sob a máscara convencional do "dado" ou do "inato". 
É claro que, para qualquer conjunto de convenções dado, seja ele o de 
uma tribo, uma comunidade, uma" cultura" ou uma classe social, há ape-
nas duas possibilidades: um povo que diferencia deliberadamente, sendo 
essa a forma de sua ação, irá invariavelmente contrainventar uma cole-
tividade motivadora como "inata", e um povo que coletiviza delibera-
damente irá contrainventar uma diferenciação motivadora dessa mesma 
maneira. Como modos de pensamento, percepção e ação contrastantes, 
há toda a diferença do mundo entre essas duas alternativas. 
Assim, o ponto de vista ou a orientação coletiva de uma cultura, o 
modo como seus membros aprendem a experienciar a ação e o mundo 
da ação, é sempre uma questão de convenção. Ele persiste ao ser cons-
tantemente reinventado sob a forma de contextos convencionais. Mas o 
meio pelo qual esse ponto de vista é estendido e reinventado é aquele 
9, 
da diferenciação e particularização em termos de contextos não conven-
cionalizados. Os atos de expressão que necessariamente devem articular 
um tipo de contexto com o outro para que ambos sejam comunicáveis e 
significativos asseguram a contínua reinvenção de um a partir do outro. 
É uma invenção que constantemente recria sua orientação, e uma orien-
tação que continuamente propicia sua própria reinvenção. Identificando 
a orientação com a consistência compartilhada das associações conven-
cionais e a invenção com a contradição impositiva dos contrastes diferen-
dantes, podemos concluir que a necessária interação e interdependência 
entre elas é a necessidade mais urgente e poderosa na cultura humana. 
A necessidade da invenção é dada pela convenção cultural e a necessidade da 
convenção cultural é dada pela invenção. Inventamos para sustentar e res-
taurar nossa orientação convencional; aderimos a essa orientação para 
efetivar o poder e os ganhos que a invenção nos traz. 
Invenção e convenção mantêm entre si uma relação dialética, uma 
relação ao mesmo tempo de interdependência e contradição. Essa dialé-
tica é o cerne de todas as culturas humanas (e muito provavelmente as 
animais). Pode ser que o conceito de "dialética" seja familiar aos leitores 
em sua formulação hegeliana e marxista, como um processo ou desdo-
bramento histórico envolvendo uma sucessão de tese, antítese e síntese. 
Minha formulação, muito menos explicitamente tipológica, é mais simples 
e, creio eu, mais próxima à ideia grega original- a de uma tensão ou alter-
nância,