WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.134 materiais32.779 seguidores
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ao modo de um diálogo, entre duas concepções ou pontos de vista 
simultaneamente contraditórios e solidários entre si. Como um modo de 
pensar, uma dialética opera explorando contradições (ou, como Lévi-
Strauss as chamaria, "oposições") contra uma base comum de similari-
dade - em vez de recorrer à consistência contra uma base comum de dife-
renças, à maneira da lógica racionalista ou "linear". Segue-se que culturas 
que convencionalmente diferenciam abordam as coisas com uma "lógica" 
dialética, enquanto aquelas que convencionalmente coletivizam (como 
a nossa própria tradição racionalista) invocam uma causalidade 
Uma vez que quero enfatizar a presença e a interdependência necessárias 
de contextos tanto convencionais como não convencionalizados, trata-
rei de uma dialética significativa e coletivamente compulsória (convenção 
96 O poder da invenção 
mais invenção), para me referir ao que os antropólogos geralmente con-
sideravam convenção mais força natural ou convenção mais evolução. 
Embora seu conteúdo, e por vezes sua relação com o ator, possa 
mudar, essa dialética compulsória nunca será menos ou mais que uma dia-
lética. Ela contém em si sua própria continuidade: não importa o aspecto 
que o ator escolha como controle para suas ações, não importa se ele cole-
tiviza ou diferencia, ele irá contrainventar e "preparar" o outro aspecto. 
A convenção, que integra um ato na coletividade, serve ao propósito 
de traçar distinções coletivas entre o inato e o reino da ação humana. 
A invenção, que tem o efeito de continuamente diferenciar atos e eventos 
do convencional, continuamente associa ("metaforiza") e integra con-
textos díspares. E a dialética cultural, que necessariamente inclui ambas, 
torna-se um universo de distinções integrativas e de integrações distinti-
vas, reunindo pessoas ao decompor sua ação contínua em "o inato" e "o 
artificial" e distinguindo pessoas, atos e eventos individuais ao combinar 
contextos inatos e artificiais de maneiras originais e altamente específicas. 
Consideremos o que acontece quando falamos. Muitas vezes me 
parece que os membros de uma civilização altamente letrada como a 
nossa imaginam espaços entre as palavras que usam quando falam, quase 
como aqueles espaços que aparecem entre as palavras em uma página 
impressa (parecem mesmo imaginar as próprias palavras, bem como sua 
pontuação). Na verdade, o que produzimos ao falar é uma espécie de 
música indistinta e murmurada, e a pessoa tem de aprender como decom-
por essa orquestração em formas e unidades convencionais se quiser 
compreendê-la - mais ou menos como um músico treinado aprende a 
decompor um rumor de tonalidades sensoriais em notas, acordes, har-
monia, linha melódica e forma estrutural. Não importa realmente quais 
são as convenções em si, se a pessoa é ou não letrada ou que aspecto 
da produção total é convencionalmente visível (muitas vezes suspeito 
que meus amigos daribi decompõem a fala em coisas e intenções, mais 
do que em palavras e sentenças); no que se refere à comunicação, o que 
importa é se o falante (que evidentemente está escutando sua própria 
música) e o ouvinte fazem as mesmas decomposições. Se a convenção 
desempenha o papel do crítico nessa performance humana infinitamente 
97 
... ...1 
concertada, então a invenção é o compositor. Para nós, o compositor 
vem a ser "inato", como um Beethoven subterrâneo e incompreensível, 
enquanto para os Daribi e outros povos tribais é o crítico que é inato. 
A invenção muda as coisas, e a convenção decompõe essas mudan-
ças num mundo reconhecível. Mas nem as distinções da convenção nem 
as operações da invenção podem ser identificadas com algum "meca-
nismo" fixo no interior da mente humana ou com algum tipo de "estru-
tura" superorgânica imposta à situação humana. Tudo o que temos é 
um conjunto de ordenamentos e articulações - relativamente mais ou 
menos convencionalizados para cada ator - que a ação representa para 
nós em termos absolutos como inato e artificial, convencional e não con-
vencionalizado. Participamos desse mundo por meio de suas ilusões e 
como suas ilusões. As invenções nas quais ele se realiza só se tornam 
possíveis mediante o fenômeno do controle e o mascaramento que o 
acompanha, e as distinções convencionais nas quais o controle se baseia 
só podem ser estendidas ao ser recriadas no curso da invenção. 
U ma vez que a convenção só pode ser estendida por meio de um 
processo de mudança, é inevitável que suas distinções convencionais 
sofram mudanças no curso desse processo. Além disso, como a invenção 
é sempre uma questão de combinar contextos convencionais com o par-
ticular e não convencionalizado, coletivizando deliberadamente o parti-
cular e o individual ou diferenciando o coletivo, fica claro que qualquer 
dos tipos de ação irá resultar numa progressiva "relativização" de ambos, 
particularizando o coletivo e ao mesmo tempo ordenando e coletivizando 
o particular. Aplicamos as ordens convencionais e as regularidades da 
nossa ciência ao mundo dos fenômenos ("natureza") para poder racio-
nalizá-lo e compreendê-lo, e no processo a nossa ciência se torna mais 
especializada e irracional. Simplificando a natureza, nós assumimos sua 
complexidade, e essa complexidade aparece como uma resistência interna 
à nossa intenção. A invenção inevitavelmente confunde as distinções da 
convenção ao relativizá-Ias. ...« 
Este é, está claro, o fenômeno da motivação tal como encontrado 
em nossa discussão do controle. A motivação é o efeito sobre um ator da 
objetificação reflexiva (e da relativização) de seu controle, uma resistência 
98 O poder da invenção 
às suas intenções que não tem nenhuma origem óbvia em suas próprias 
intenções. Assim, a motivação sempre emerge da relativização das dis-
tinções convencionais, da diferença entre os contextos que um ator reco-
nhece e aqueles que ele produz, e a tendência da motivação é sempre se 
opor à relatiyz'{ação das distinções convencionais e contrariá-la. Em última 
instância, a motivação é simplesmente a inércia ou a necessidade que se 
sente de ter de resolver as coisas de um certo modo. 
É importante notar que a motivação, embora ligada à ação, não 
necessariamente se origina" dentro" do indivíduo. Ela é parte do mundo 
da convenção e da ilusão do qual participamos e no qual atuamos, mas 
não - à parte as ilusões necessárias do próprio ator - uma "coisa" ou 
força que emana do ator. Objetos, imagens, memórias e outras pes-
soas nos motivam tanto quanto nos motivamos a nós mesmos, e de fato 
nossas personalidades constantemente penetram o teatro de nossas ações 
e percepções. É somente a convenção cultural, se bem que nesse caso 
uma convenção motivada, que resolve as situações de nossa ação e nossa 
invenção nas fronteiras culturais dos indivíduos, "movimentos", espíri-
tos-guia, ou nas formas culturalmente apropriadas de "impulsos", "ins-
tintos", "a alma" e assim por diante. As motivações podem ser "dispostas" 
por aquilo que uma pessoa faz, por aquilo que outros fazem, por uma 
situação em que a pessoa se encontre, e a forma e a fonte da motivação 
são sempre uma função das distinções convencionais por meio das quais 
essas coisas são interpretadas. 
A motivação, portanto, é o modo como o ator percebe a relativi-
zação da convenção, e consequentemente dos contextos convencionais 
por meio dos quais as distinções convencionais são realizadas. Aprende-
mos uma língua, interação social, papéis, habilidades e criatividade COmo 
parte do relacionamento com outros, começando com a família e depois, 
fora dela, com coleguinhas, amigos, colegas, inimigos, parceiros e mesmo 
conhecidos casuais. Aprendemos a atuar, a nos orientar, e assim a apren-
der nossas motivações, em contextos múltiplos, que envolvem um des-
norteante rol de elementos gerais e particulares, pessoas, lugares, objetos, 
situações e instituições. Como esse aprendizado