WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
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sempre ocorre como um 
aspecto do relacionamento com outros, segue-se que o indivíduo nunca 
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aprende a atuar ou a se motivar simplesmente como uma resposta "neu-
tra" Ou descomprometida. Ele aprende a fazê-lo a partir de uma posição 
particular, a objetificar através de um foco particular, e assim aprende 
a identificar diferentes modos de sua ação com intenção consciente e 
motivação inconsciente. Ele aprende uma orientação convencional como 
resultado do inventar, mas também aprende a inventar usando controles 
em um relacionamento convencional, que o torna vulnerável às ilusões 
da motivação. A invenção é sempre uma espécie de "aprendizado", e 
o aprendizado é invariavelmente um ato de invenção, ou reinvenção -
tanto que é de pouca ajuda falar do aprendizado como um "processo", ou 
dividi-lo em "estágios". Uma criança participa da dialética da invenção 
e da convenção tanto quanto um adulto (no máximo, sua memória é um 
pouco mais curta), e afirmar que ela vive em "um mundo diferente" não 
diz muita coisa. Todos vivemos em mundos diferentes. 
O que acontece então quando a relativização, e portanto a resistên-
cia motivadora, do controle que um determinado ator está usando sobre-
puja a efetividade do controle em termos da intenção original desse ator? 
Ou, para colocá-lo de outra forma, como reagimos a controles altamente 
relativizados, quer usados por nós mesmos ou por outros? A resposta é 
que a ação (e a intenção) invalida a si própria; ela alinha o foco de con-
trole daquele que age ou reage mais com a "resistência" ao controle do 
que com o controle original, mais com a coisa que está sendo contrain-
ventada do que com sua pretendida transformação. Engendra-se com isso 
uma reação abrupta, motivada, contra a intenção original. Essa reação é 
parte da experiência, uma espécie de antipatia ou frustração com a qual 
o indivíduo precisa aprender a lidar, assim como aprende a lidar com 
os outros aspectos da motivação. Pois essa súbita torrente de motivação 
inversa, tanto quanto qualquer outra manifestação da motivação, faz parte 
da necessidade de resolver a ação de uma maneira convencional: ela nasce 
da percepção de que se está indo contra a natureza das coisas. 
O melhor exemplo que me vem à mente é a conhecida reaçíW de 
uma plateia a um trocadilho infeliz ou a uma atuação que parece "falsa" 
e que trai o jogo extremamente carregado de realidade e construção que 
os espectadores esperam. A reação muitas vezes é tão crua e perturbadora 
100 O poder da invenção 
quanto uma explosão de raiva, pois tem as mesmas raízes; sob todos 
os aspectos, trata-se de uma reação descontrolada. E ela atinge crianças 
tanto quanto adultos, pois o aprendizado dessa reação é concomitante ao 
aprendizado da convenção no curso da invenção, e vice-versa. No caso 
do trocadilho, a plateia reage à relativização da língua, à sua ambigui-
dade (pois a língua é tão motivada e motivadora quanto qualquer outra 
parte da cultura); no caso de uma atuação teatral ou cinematográfica, a 
audiência reage à relativização de uma situação de "representação" na 
qual investiu credulidade com a expectativa de certas recompensas em 
forma de "entretenimento". 
A reação, é claro, não se limita de modo algum a piadas e a situações 
de entretenimento: está na raiz de todos os atos que associamos com um 
comportamento "negativo" ou "destrutivo", incluindo boa parte da cri-
minalidade e do vandalismo que assaltam nossa altamente relativizada 
Cultura urbana, bem como das depredações que as pessoas tantas vezes 
infligem aos" estrangeiros" que aparentemente zombam do seu jeito de 
fazer as coisas. Como uma mera reação, é frequentemente incompre-
ensível para aqueles que a manifestam, embora seja passível de infinita 
interpretação e racionalização após o foto. Como forma extrema de res-
taurar a convenção, como ponto de virada crucial e recorrente da ação, 
requer atenção especial. 
Quaisquer que sejam as circunstâncias de sua ocorrência, a percep-
ção da relatividade de um contexto de controle corresponde a um "des-
mascaramento" da invenção iminente e a um sentimento de que "algo está 
sendo feito" àqueles que dela participam. É esse sentimento que dispara 
a reação negativa, especialmente nos espectadores ou naqueles que parti-
cipam da cena com o ator. Eles se sentem vulneráveis e se tornam defen-
sivos, desejam" combater" a influência ofensiva, e o que defendem é um 
Certo modo convencional de percepção e ação. Como aprendemos que 
esse modo convencional pode ser reduzido a uma distinção mais ampla, 
que identifica ou os contextos convencionais, ou uma soma dos contextos 
não convencionalizados, como "inatos", consignando o outro ao reino da 
manipulação humana, fica claro que dois tipos de "desmascaramento" são 
possíveis no interior do nosso próprio universo convencional. Quando os 
IOI 
.. 
controles sobre o modo ordinário da atividade séria, o que as pessoas ''forem'', 
são relativirados, a invenção resultante parece "falsa ", 'não sén"a ", "pura-
mente artificial"; quando os controles sobre o modo de ação inverso, "cria-
tividade ", "arte ", "pesquisa", "ritual ", "representação" ou "recreação" 
são relativirados, a invenção resultante parece "forçada", "comercialirada", 
"sén"a demais" ou 'sacrílega"" Em cada um dos casos a transformação fun-
ciona contra a que foi originalmente pretendida. 
Podemos entender isso melhor, e talvez obter alguma compreen-
são sobre a extrema relativização de nossa sociedade presente, extraindo 
alguns exemplos da vida norte-americana moderna. Os americanos par-
ticipam de uma orientação convencional que enfatiza a articulação de 
contextos convencionais comO o reino da ação humana e reconhece o 
"inato" (inclusive o temporal e situacional) como composto de contextos 
não convencionalizados. Mas os americanos reclamam cada vez mais da 
qualidade "forjada" e "artificial" das soluções administrativas e tecno-
lógicas, do caráter superficial e não recompensador de grande parte de 
seu trabalho, bem como da natureza manipuladora da propaganda, da 
comercialização dos esportes e do fato de que "as pessoas trabalham 
tão duro para se divertir que não mais se divertem"" Isso não significa 
que essas reclamações não sejam justificadas, embora a artificialidade, a 
manipulação e a comercialização fossem indubitavelmente tão difundidas 
nos anos 1870 quanto nos anoS 1970: o que mudou foi nossa percepção 
dessas coisas como abusos e nossa reação a elas como abusos. Quere-
mos que o governo intervenha e descomercialize o futebol americano 
ou regulamente a propaganda, ou queremos que fiscalizadores interve-
nham e façam com que o governo recobre a seriedade e a responsabili-
dade. Com toda a insistência da motivação inversa, queremos restaurar 
as coisas - nossas próprias utopias são paraísos naturais com ar fresco 
artificial, arranha-céus cobertos de floresta ou terrários socioculturais. 
E, naturalmente, há sempre aqueles que se contêm e apreciam a reação 
pela reação, estraçalhando coisas e atacando pessoas. 
Mas mesmo essa resposta serve a uma ilusão naturalista: a reação à 
relativização não é mais "primitiva" ou "básica" do que a ação concer-
tada para se contrapor a essa relatividade - ambas são consequências do 
102 O poder da inyenção 
aprendizado das convenções e da proteção das distinções convencionais. 
A reação em si mesma é uma espécie de deixa, que pode ser aproveitada 
e transformada em um ímpeto para um controle mais efetivo da situação. 
A personalidade humana é um arranjo para a preservação de distinções 
convencionais mediante esse tipo de controle, equilibrando a motivação 
contra a compulsão por meio da administração das transições entre elas, 
e a sociedade é um arranjo entre atores para esse mesmo propósito. Isso 
significa que aquilo que chamamos de "autocontrole" em uma persona-
lidade (o que Freud chamaria de "conflitos