WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
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de sublimação"), e de "fun-
cionamento fluido" ou algo assim, no caso da sociedade é a sacada de 
aprender a responder a controles altamente relativizados invertendo seu 
modo de ação. Se os controles convencionais de nossa Cultura e nossa 
tecnologia são relativizados, nós os "reconstruímos" ou "recarregamos" 
ao conscientemente enfocarmos o modo de objetificação diferenciante, 
aquele que "normalmente" contrainventamos, e em seu lugar contrain-
ventamos a Cultura. Quando descubro que "agir como um marido deve 
agir" leva a frustrações e conflitos, inverto meu modo de ação e conscien-
temente construo minha identidade como homem e indivíduo, diferen-
ciando minhas ações e assim contrainventando a "família" (minha inte-
ração com minha esposa) como uma motivação compulsiva. 
Marido e mulher, antropólogo e informante, artista ou profissional 
do entretenimento e plateia, "classe média" e classe alta ou baixa, médico 
e paciente, e muitas vezes os componentes conflitantes da personalidade 
de um indivíduo, participam constantemente desse jogo de reconstruir 
e restaurar a ambiência da ação um do outro. É uma batalha contra a 
relativização que tem de ser travada, pois o convencional e seu fundo 
não convencionalizado não persistem por si mesmos, mas devem ser 
continuamente inventados um a partir do outro, e essa invenção inevita-
velmente leva à relativização dos controles" Nisso consiste a necessidade 
da invenção, e não é senão isso que está em jogo na interação, quer ela 
ocorra entre indivíduos, entre outros constructos como classes e insti-
tuições ou no interior desses. 
Podemos descrever tudo isso simplesmente em termos de contex-
tos. Quando usamos contextos no ato da invenção, simultaneamente 
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os reinventamos e reinventamos as distinções que eles encarnam. Ao 
fazê-lo, reinventamos continuamente nossa interpretação deles e assim 
reinterpretamos nossa invenção. A interpretação é completamente depen-
dente da invenção e a invenção é completamente dependente da inter-
pretação. Mas invenção significa que o contexto controlador assume as 
características do contexto controlado, e vice-versa. O coletivo está sem-
pre sendo diferenciado e particularizado segundo o modelo das situações 
e idiossincrasias que ele reúne, e o individual e situacional está sempre 
sendo coletivizado e convencionalizado segundo o modelo das regulari-
dades que ele diferencia. Contextos que são continuamente articulados 
juntos tendem a se permear mutuamente, e assim a se relativizar mutua-
mente: no curso da objetificação, eles trocam características. 
A única maneira de contrariar essa tendência é inverter o nosso 
modo de ação e reinventar os controles ordinários, objetificando-os em 
termos de situações e circunstâncias novas ou inusitadas. Essa inversão é 
sempre uma questão de invenção suscitada pela convenção; ela restaura 
ou sustenta uma distinção ou interpretação convencional daquilo que 
é inato e daquilo que é artificial e manipulável ao mudar o "conteúdo" 
objetivo - as características e associações - dos contextos culturais. Em 
culturas como a nossa, que enfatizam a articulação deliberada de contex-
tos convencionais, esses controles coletivizantes são recriados por atos 
de diferenciação, por invenção deliberada. Em sociedades tribais e outras, 
que enfatizam a articulação deliberada de contextos não convencionali-
zados, os controles diferenciantes são recriados por atos de coletivitação, 
por convencionalização deliberada. Neste último caso, a necessidade de 
novidade é suprida de tempos em tempos pela reformulação dos contextos 
convencionais por parte de profetas, líderes de cultos ou "fazedores de 
leis", ou pela importação de cultos exóticos, que desempenha um papel 
tão evidente na vida dos povos tribais. Vivemos nossas vidas ordenando 
e racionalizando, e recriamos nOssos controles convencionais em inves-
tidas criativas de invenção compulsiva; povos tribais e religiosos 
da invenção nesse sentido (o que os torna tão provocativos e interessantes 
para nós), e de tempos em tempos revitalizam seus controles diferencian-
tes em surtos de convencionalização histérica. 
1°4 O poder da invenção 
Para os americanos, isso significa que os elementos que figuram tão 
proeminentemente em sua Cultura coletiva - as relações de parentesco, a lei, 
o Estado, a tecnologia e assim por diante - devem ser continuamente carre-
gados de associações extraídas de áreas exteriores ao nosso controle ordiná-
rio da natureza. A dialética entre Cultura e natureza precisa ser "ampliada" 
para incluir outros domínios de experiência de modo que possa manter 
sua objetividade significativa e evitar tornar-se tautológica e moribunda. 
Geralmente experimentamos isso como uma necessidade de recreação, jogo, 
arte ou pesquisa - de "acumular mais fatos", "ver as coisas de modo dife-
rente", "deixar-nos levar" ou "entrar em comunhão com a natureza". Nos-
sos romances, peças de teatro e filmes colocam os relacionamentos que nos 
são familiares (como "amor", "maternidade/paternidade", "tolerância", 
"democracia") em situações exóticas, históricas, perigosas ou futurísticas, 
tanto para controlar essas situações e dotá-las de significado como para 
recarregar os próprios relacionamentos. A pesquisa e a busca do conhe-
cimento também têm esse duplo efeito, conferindo associações objetivas 
aos nossos símbolos no processo de "ordenar" novas fronteiras do conhe-
cimento, e quem viaja nas férias "recria" sua vida cotidiana buscando con-
textos exóticos. Em todos os casos a Culrura é inventada por meio da expe-
riência e criação da realidade da qual extrai suas características objetivas. 
A necessidade da invenção é criada pela dialética e pela interdepen-
dência que ela impõe entre os vários contextos da cultura. Uma vez que 
"esgotamos" nossos símbolos no processo de usá-los, precisamos forjar 
novas articulações simbólicas se queremos reter a orientação que possibi-
lita o próprio significado. N assa Cultura coletiva cria e sustenta uma ima-
gem e uma percepção da "narureza" e da força natural, enquanto nossa 
busca compensadora por conhecimento e experiência em domínios não 
Culturais equivale a uma invenção da Cultura. Viver na Cultura e contar 
com ela cria a necessidade de conhecimento e experiência da "natureza" 
(inclusive do impulso e da "natureza humana"); observar e experienciar 
a natureza torna a Cultura significativa e necessária. A necessidade pode 
ser mascarada como a necessidade de conter impulsos internos e "forças 
da natureza" externas ou, inversamente, como uma necessidade de rela-
xar, "afastar-se de tudo" ou descobrir novos fatos, mas na verdade ela é 
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uma propriedade da dialética por meio da qual o significado é e precisa 
ser continuamente reinventaclo. 
A tendência da cultura é manter-se a si própria, reinventando-se. 
Mas tenho observado que os controles convencionais da moderna Cul-
tura norte-americana são altamente relativizados - como dispositivos de 
ordenação e unificação, são eles próprios desordenados e particulariza-
dos: nossa ciência e nossa tecnologia são altamente especializadas, nOssas 
funções administrativas são irremediavelmente burocratizadas, nos-
sos símbolos nacionais são indiscutivelmente ambivalentes. A Cultura 
é ambígua (e a antropologia em grande medida existe por explorar essa 
ambiguidade). De resto, isso não se deve ao roubo de nossos fluidos 
vitais pelos comunistas, ao relaxamento da disciplina, aos espoliadores 
que espoliam O Meio Ambiente, aos Jovens Mal-Agradecidos por Sua 
Educação ou ao "tumulto mecânico por um pedaço de pão",4 ainda que 
alguns desses fatores sejam sintomas importantes. Isso decorre direta-
mente do fato de que nos agarramos à nossa Cultura - às suas orgulho-
sas tradições, às suas técnicas poderosas, à sua história e à sua literatura, 
às suas impressionantes fileiras de Grandes Nomes - acima