WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
Pré-visualização50 páginas
conven-
cionais, nosso "conhecimento", nossa literatura sobre realizações cien-
tíficas e artísticas, nosso arsenal de técnicas produtivas, são um conjunto 
de dispositivos para a invenção de um mundo natural e {enomênico. Ao 
assumir que apenas medimos, prevemos e arregimentamos esse mundo 
de situações, indivíduos e forças, mascaramos o fato de que o criamos. 
Em nossa crença convencional de que esse mensurar, prever e arregimen-
tar é artificial, parte do domínio da manipulação humana e do "conheci-
mento" e da Cultura cumulativos, herdados, precipitamos esse mundo 
fenomênico como parte do inato e do inevitável. O aspecto significativo 
dessa invenção, seu aspecto convencional, é que seus produtos precisam 
ser tomados muito seriamente, de modo que não se trate absolutamente de 
invenção, mas de realidade. Se o inventor mantém firmemente essa serie-
dade em mente (como uma "regra de segurança", pelo menos) enquanto 
faz seu trabalho de medição, previsão ou arregimentação, a experiência 
da "natureza" resultante irá sustentar suas próprias distinções conven-
cionais. A invenção da natureza é séria para nós pela mesma razão que 
nossa invenção da Cultura precisa ser não séria, ou "engraçada". 
Como tantas outras coisas, nossa Cultura tecnológica precisa "falhar" 
para ser bem-sucedida, pois suas próprias falhas constituem aquilo que ela 
está tentando medir, arregimentar ou prever. Se as fórmulas e previsões 
I2) 
da ciência fossem completamente efetivas e exaustivas, se as operações da 
tecnologia fossem completamente eficientes, então a natureza se tornaria 
ela própria ciência e tecnologia. (É de fato assim que falamos das coisas em 
nosso mundo moderno de relatividade contextual: a natureza é "sistema", 
é "biologia" ou "ecologia", enquanto a Cultura é "natural", uma "adap-
tação evolutiva".) A ciência e a tecnologia "produzem" nossas distinções 
Culturais entre o inato e o artificial na medida em que falham em ser com-
pletamente exatas ou eficientes, precipitando uma imagem do "desconhe-
cido" e de forças naturais incontroláveis. É assim que ciência e tecnologia 
(por oposição à visão "interpretada" que temos delas) se alinham ao con-
servadorismo nos Estados Unidos modernos. Mas se deve enfatizar que 
mesmo do ponto de vista tecnológico nossa Cultura "funciona" em termos 
de objetificação e apenas incidentalmente em termos de energia e eficiência. 
A tecnologia é a sutil arte de combinar mecanismos complexos sobre 
os quais o "evento natural" se impõe de maneira a sustentar o funciona-
mento deles. Seu planejamento e sua eficiência dependem de nossa capa-
cidade de prever. Máquinas são Culnua, são controles convencionais con-
cretos que simultaneamente objetificam os eventos fenomênicos impostos 
como "natureza Culturalizada" (eletricidade, cavalo-vapor, "energia", 
desempenho) e são por sua vez objetificados como "Cultura naturalizada" 
(máquinas dotadas de capacidades, "poderosas", "inteligentes" e assim 
por diante). O que elas produzem em termos de ineficiência, fricção, inér-
cia ou de "desconhecido" é nossa palpável percepção da natureza como 
uma entidade que se opõe a nós. 
Consideremos a geração de "energia hidrelétrica". Diz-se que a água 
que evapora pelos efeitos do sol e do ar e que se precipita de terrenos ele-
vados possui uma certa quantidade de "energia". Mas se essa força não é 
"arregimentada" por meio da intervenção humana, permanece um poten-
cial bruto; e se não é "computada" por meio da aplicação de técnicas huma-
nas e dispositivos de medição, seu potencial permanece desconhecido. Seja 
como potencial ou como atualização, a energia precisa ser criada 
a seleção dos dispositivos de medição ou conversão Cultural apropriados 
para que o evento natural se imponha. Esses dispositivos objetificam o 
evento como "poder" ou "energia" de uma maneira ou de outra. 
124 A invenção do eu 
Mas essa invenção da natureza como "poder" (a energia utilizável 
da eletricidade, a energia "desperdiçada" da inércia e da fricção) jamais 
ocorreria se os seres humanos já não tivessem inventado os meios tecno-
lógicos e culturais pelos quais a objetificação pudesse ser efetivada. Sem a 
matemática do volume e da velocidade ou a física do calor, da gravitação 
e da eletricidade, o potencial não poderia ser calculado. Sem a tecnologia 
da construção de barragens, das turbinas, dos geradores, dos transforma-
dores e da transmissão de energia, o potencial não poderia ser atualizado. 
Todas essas técnicas e procedimentos são resultado da invenção humana, 
que confere à Cultura tecnológica caracteristicas que são transferidas para 
a natureza no curso de sua objetificação. Adquirimos o hábito de enxergar 
os fenômenos naturais em termos de potencial energético, como recursos 
(do mesmo jeito que uma raposa olha para uma galinha), e tendemos a 
esquecer que os verdadeiros recursos são aqueles da invenção humana. 
Como parte da Cultura, a tecnologia é um meio de armazenar essa invenção, 
concentrando a criatividade coletiva de muitos milhares de pensadores e 
inventores na tarefa de objetificar a natureza que constitui nossas vidas coti-
dianas. A energia que extraímos da arregimentação das quedas-d 'água, da 
combustão e da desintegração radioativa é aquela da criatividade humana, 
pois sem a invenção da Cultura que essa criatividade origina e encarna, a 
Cultura, por sua vez, não poderia ser usada para inventar a natureza. 
A tecnologia interpõe seus dispositivos de tal modo que a imposi-
ção do evento natural possa ser construída em termos de "forças" que os 
governam. A ciência, do mesmo modo, introduz "sistema" na natureza 
e depois se deleita em descobri-lo ali; ela imprime uma forma sistêmica 
aos fenômenos naturais, e uma inevitabilidade natural a suas teorias. Essa 
não é a visão convencional dessas atividades: fomos ensinados a com-
preender as "regularidades naturais" que elas precipitam como inatas e 
eternas, como um "mundo físico". A ciência e a tecnologia tampouco são 
os únicos meios de invenção que empregamos, e de modo algum os mais 
sutis e difundidos. Toda a nossa Cultura coletiva pode ser vista como um 
conjunto de controles ("instrumentos", como se diz) para esse fim, e todo 
o universo fenomênico natural, como o objeto e o produto da invenção. 
Exatamente como as "forças" da natureza governam nossa tecnologia e as 
UI 
..... 
"leis" da natureza validam nossas teorias, também os fenômenos naturais 
são sempre criados como algum tipo de força espontânea ou motivadora. 
O tempo, como a essência dessa espontaneidade inata e inevitável, 
é nesse sentido nosso mais importante produto. Nós fazemos o tempo (e 
não só quando estamos "datando"'). Assim como o espaço, o tempo jamais 
poderia ser percebido sem as distinções que lhe impomos. Mas nos pro-
tegemos com uma barafunda de sistemas e distinções temporais capaz de 
deixar zonzo um consciencioso sacerdote maia. Nós criamos o ano, acadê-
mico e fiscal, e o dia, feriado ou útil, em termos dos eventos e situações 
que os tornam significativos e proveitosos, e fazemos isso prevendo-os, e 
vendo então como os eventos e situações se impõem às nossas expectativas. 
Calendários, agendas, horários, rotinas e expectativas sazonais são todos 
dispositivos "de previsão" para precipitar o tempo (e fazer com que nos 
surpreendamos com ele, e não o tornemos previsível). Eles são um meio para 
preparar expectativas que, ao ser cumpridas ou não, se tornam "a passa-
gem do tempo", "o tempo" [meteorológico], "bons momentos", "um ano 
ruim". Ao estender nossas calibragens e nossas expectativas por períodos 
de anos, décadas e mesmo milênios, tornamo-nos capazes de precipitar 
(estatisticamente ou de outra maneira) uma "realidade" temporal e muitas 
vezes cíclica. Temos fases de "hoom" e de "crise" econômica; depressões e 
recessões; "desenvolvimentos", ciclos e "eras" históricas. 
Conhecemos o tempo