WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.128 materiais32.746 seguidores
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são ilusões culturais nascidas de um ponto de vista cultural 
particular; o verdadeiro problema é o da relação entre elas. A formação e 
a administração dessa relação constituem assim o fator crucial no desen-
volvimento do indivíduo. Trata-se de uma luta contra a relativização da 
convenção que equivale à neurose ou histeria, e seus "perdedores" não 
são vítimas de forças demoníacas internas ou externas ("anseios natu-
rais", "sociedade", uma "alma possuída"), mas de uma orientação inven-
tiva destrutiva, que coloca os esforços pessoais contra eles próprios. Para 
todos os povos, a criação de uma relação efetiva implica adquirir uma 
certa perícia em manipular o "inato"; para indivíduos "criativos", isso 
leva a uma inversão da identificação convencional daquilo que se "é" em 
oposição àquilo que se "faz". Para a moderna ideologia norte-americana, 
dada a Sua identificação da objetificação particularizante com o "inato", 
esse é um problema ao administrar a invenção - um problema que cha-
mamos de "personalidade". 
A "personalidade" é uma preocupação da Cultura da classe média 
urbana que Schneider descreveu e analisou em seus estudos do paren-
tesco norte-americano, e que ele distingue dos mundos interpretativos do 
parentesco das classes alta e baixa.' A Cultura fornece para todos os nOrte-
4· David M. Schneider & Raymond T. Smith, Class DifJerences and Sex Roles in Amedcan 
Kinship and Family Structure. Eaglewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1973, 
133 
.' 
americanos um conjunto comum de formas simbólicas e acionais, para 
além daquelas de suas orientações particulares (de classe, "étnicas" ou 
individuais), e sustenta o arcabouço da vida pública - tribunais, escolas, 
produção e administração. Aqueles que participam das correntes domi-
nantes de nossa civilização, os "trabalhadores de colarinho branco", as 
classes profissionais e comerciais e suas famílias, que aderem à realidade 
da natureza e à importância da e de uma boa educação, todos eles 
constroem suas vidas em torno disso e objetificam suas ações em termos de 
seus controles. Outros, as classes baixas "étnicas" e "religiosas", os insa-
tisfeitos e os marginalizados, as classes altas "criativas", precisam se haver 
com isso por meio da confrontação dialética - algo que assume uma des-
concertante variedade de formas, desde a "interpretação" da propaganda, 
do governo, do entretenimento e o protesto até a "exploração" e o crime. 
O "eu" precipitado por essa Cultura (o "id" freudiano) é individual, 
particularista, e não obstante espontâneo e motivador. Ele é experimen-
tado como um aspecto aparentemente pessoal e "interno" do mundo 
natural, como um amálgama de forças naturais, impulsos e anseios. 
Geralmente identificado com a forma e o funcionamento da constituição 
"física" do homem, com hormônios, química e cognição, ele é na verdade 
invenção disfarçada de "vida". O "eu" cresce, nos "pega desprevenidos" 
como o tempo e o clima, e é frequentemente representado em termos 
cíclicos - "ritmos" corporais, períodos e sensibilidades femininos. Assim 
como o tempo, as situações e o clima, o eu é criado mediante a articula-
ção consciente dos controles convencionais da Cultura, mediante a tenta-
tiva de prevê-lo, controlá-lo e coagi-lo. O "eu" nasce como "resistência" 
motivadora dessas tentativas. Os "impulsos" sexuais, por exemplo, não 
são apenas direcionados ou canalizados, mas efetivamente inventados 
mediante nossas tentativas para antecipá-los e controlá-los; a traquinice 
de uma criança traquinas nasce de nossas expectativas e sanções ao dis-
cipliná-la. Com efeito, todos os nossos procedimentos de treinamento e 
educação, nossas teorias do "desenvolvimento infantil" e as 
que eles despertam não passam de "máscaras" para a invenção coletiva de 
um eu "natural". Essa invenção não se limita de modo algum à infância 
ou à educação: os horários, ocupações e programas para o desempenho 
134 A invenção do eu 
humano que constituem nossa Cultura coletiva são uma vasta coleção 
de controles para a criação do eu natural. O artista ou escritor precipita 
um "talento" motivador, o artesão ou administrador cria suas "habilida-
des", o cientista ou engenheiro inventa sua "engenhosidade", e mesmo 
aquele que se submete a um "teste" de inteligência usa o questionário 
para produzir uma impressão de sua "inteligência inata". 
A invenção, assim como o "eu natural", é interna e misteriosa para 
nós precisamente porque consideramos a convenção, sob a forma de 
Cultura coletiva, como artificial e externa. Quanto mais buscamos usar 
e desenvolver artifícios culturais - teorias, tecnologias, programas de 
ação - em um esforço de decifrar o mistério e de controlar e aplicar 
suas propriedades, com mais firmeza e segurança inventamos seu caráter 
inato e seus mistérios. O mundo dos fenômenos sempre irá escapar ao 
fisico (como nos mostrou Heisenberg), a cognição irá sempre se furtar 
ao dedicado etnocientista, a engenhosa traquinice das crianças se esqui-
vará eternamente das disciplinas e dos programas moralizantes de seus 
"desenvolvedores". A participação em uma Cultura artificial do empre-
endimento coletivo precipita a invenção como sua antítese. 
Contudo, aprendemos que a invenção precisa continuamente 
"inverter" a si mesma a fim de que a convenção seja preservada. Assim, a 
própria constituição motivacional do norte-americano de classe média 
o obriga a "usar" seu "eu" inato e individual, a articulá-lo deliberada e 
conscientemente de quando em quando no decorrer de suas atividades. 
Quando usamos a imagem do eu individual dessa maneira, como um 
controle diferenciante, chamamos isso de "personalidade" (o "ego" freu-
diano). Trata-se de uma invenção consciente: é aquilo que o artista, o pes-
quisador, o profissional do entretenimento e o publicitário transformam 
em uma profissão, e também aquela espécie de objetificação dificil e mui-
tas vezes frustrante que temos em vista quando tentamos "ser nós mes-
mos". Enquanto um papel diferenciante, a personalidade precipita uma 
motivação coletivizante (o "superego" freudiano), uma contrainvenção 
da ordem moral convencional sob a forma de uma "consciência" com-
pulsiva. A personalidade é um "eu" atuante, uma individualidade deli-
berada incitada e motivada por uma Cultura precipitada. A "resistência" 
135 
,'" 
motivadora experienciada e criada dessa forma, pelas maneiras pelas 
quais nossas ações deixam de se conformar à imagem do controle, assume 
a forma de culpa. A culpa é a crítica da "personalidade". 
Todas as atividades "criativas", "recreativas" e restaurativas dos norte-
americanos de classe média, todas as coisas que fazem para renovar, revi-
gorar e reavaliar suas vidas, são assombradas por uma motivação culpada. 
Comemos, fumamos, escovamos os dentes, arrumamos a casa e tiramos 
férias compulsivamente, acossados pelas alternativas calamitosas de um 
ou outro tipo de excesso - desnutrição versus glutonaria; germes, sujeira e 
insalubridade versus rituais vazios e sem sentido; tensão nervosa versus medo 
do câncer ou da perda de tempo. A personalidade precipita a convenção e 
responde a ela em sua forma mais essencial: com a distinção entre o inato 
e o artificial. A culpa consiste em última instância na consciência de uma 
invenção inadequada (isto é, "relativizante") - assim como a vergonha, seu 
oposto, é a demonstração de uma consciência inadequada -; sentimo-nos 
culpados porque transgredimos a distinção moral entre aquilo que somos 
e aquilo que fazemos, manipulando o primeiro e negligenciando o último. 
Assim como o fenômeno da motivação não é de modo algum 
"interno", mas se estende externamente para as pessoas e coisas que nos 
cercam, a inversão pela qual noS tornamos conscientes da personalidade 
está sujeita à manipulação das relações interpessoais. Fazemos com que 
os outros se sintam culpados ao projetar essa consciência,