WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.086 materiais32.400 seguidores
Pré-visualização50 páginas
assumindo o 
papel da consciência Cultural e forçando os outros a ter consciência de 
seus eus inventivos. A culpa motiva a reparação de um desequilíbrio con-
vencional; aliás, existem papéis sociais formais e informais, e até mesmo 
indústrias inteiras (a propaganda e o governo não menos que as institui-
ções de caridade), fundadas no simples artifício de redefinir a convenção 
de maneira a fazer com que as pessoas se sintam culpadas. Trata-se do 
principal esteio de nossa vida cultuaI (oficial e não oficial), e portanto, 
indiretamente, de nossa Cultura. Mas também se trata praticamente de 
uma neurose institucionalizada. .-.... 
O truque de aprender a personalidade consiste em aprender a não se 
levar (não levar a própria personalidade) a sério, em dominar a técnica de 
criar e de responder à culpa (em nós mesmos e nos outros) de tal modo 
136 A invenção do eu 
que se mantenha a distinção convencional entre o que se é e o que se faz. 
É a arte da invenção em um mundo cuja atividade séria é a articulação 
da convenção; como na propaganda, na previsão do tempo, no entrete-
nimento e em outros aspectos da cultura interpretativa, é preciso "jogar" 
e sacrificar a própria seriedade para que a convenção (Cultura) possa ser 
levada a sério. Uma personalidade saudável e efetiva é aquela que, mani-
pulando a individualidade de modo hipotético, exploratório e "engraçado", 
mantém seu senso do "eu" claro e distinto; ao fazê-lo, ela precipita uma 
distinção convencional claramente definida. Uma personalidade que se 
leva demasiadamente a sério, por outro lado, joga com a convenção; ela 
falsifica a Cultura e a convenção cultural, fabricando a culpa como meio 
para a ação. É isso o que entendemos por neurose obsessiva ou compulsiva: 
"rituais" neuróticos permitem ao indivíduo agir com sucesso (manipular 
o eu com muita seriedade) precipitando uma "convenção" motivadora e 
justificadora, mas altamente idiossincrática. 
Aprender a personalidade é sempre um flerte com a neurose, por-
que é muito difícil ao mesmo tempo "fazer" ou manipular o eu como um 
controle diferenciante e não levar esse controle a sério. A tentação, e a 
inclinação, é sempre acabar reformando o eu segundo uma imagem prefe-
rida, e assim precipitar convenções que irão justificar (e mesmo motivar) 
a ação. Esse é o problema das crianças, adolescentes e especialmente adul-
tos que querem ser profissionalmente criativos. O ator só pode sustentar, 
experienciar e lidar com a totalidade de seu universo mediante contínua 
invenção, mas como a invenção só pode sustentar sua orientação e sua 
comunicação significativa precipitando O tipo correto de convenção, o ator, 
na cultura ocidental moderna, precisa aprender a projetar e experienciar 
sua personalidade como espontânea e inata. Ele pode "jogar" com ela, 
discipliná-la ou procurar canais para seu enriquecimento e crescimento, 
mas só pode assumir a responsabilidade última pelo que ele "é" ao custo 
de precipitar um mundo privado de compulsão neurótica. Ele precisa 
aprender a inventar sua personalidade, sua invenção, como inata. 
Justamente porque aprendemos fazendo, e porque esse tipo de "fazer" 
é dificil de dominar, a neurose é uma experiência comum para todos nós. 
Aprender a controlá-la é aprender a inventar o mundo corretamente; é 
IJ7 
.'.A 
aprender um "senso de responsabilidade". São em particular aqueles que 
estão aprendendo a "lidar com" (a criar) o mundo a partir de uma nova 
posição - uma criança, um adulto como criador ou administrador - que 
enfrentam o problema de inventar uma "responsabilidade" convencio-
nal (o "período de latência" freudiano é simplesmente a quietude de uma 
criança que aprendeu a agir como criança, a reconhecer seu jogo como 
"brincadeira"). O começo disso pode ser observado bem cedo na vida de 
uma criança. Ao tentar fazer coisas contra as quais fora severamente adver-
tida (às vezes com punições), minha filha de quase dois anos se empenhava 
com grande zelo, murmurando para si mesma: "Não, não, não". Certa ou 
errada, uma invenção é uma invenção, e carrega consigo sua própria motiva-
ção. Mas o exemplo ilustra com clareza o modo como a disciplina pode pro-
duzir uma percepção da convenção. Não se poderia de fato argumentar que 
minha filha não entendia o significado da negativa, uma vez que ela a empre-
gava com perfeição. Ela estava aprendendo ( ao fazer) a perceber a negação 
de uma ação "correta" como um impulso. E, no entanto, esse impulso, o 
"não, não, não", permanecia inteiramente englobado em seu mundo da brin-
cadeira; quando eu invertia os papéis e fingia ser seu "bebê", a única coisa 
que eu podia fazer para induzi-la a me dar palmadas era começar a chorar. 
A prioridade da invenção (e portanto a tendência à neurose) no 
aprendizado da personalidade por uma criança é admiravelmente ilus-
trada pela criação de "amigos imaginários". Estes são, com efeito, modos 
de interpretação por meio da invenção de ordens sociais artificiais - ami-
guinhos cujas aventuras, exigências, opiniões e travessuras relatadas 
motivam e desculpam as intenções e ações da criança. Ao lado de seus 
"amigos" mais ortodoxos e sociáveis como Gambá [Possum], Fran, Esfre-
gão [Wiper] e Farkel, meu sobrinho de dois anos e meio era perseguido 
por seu inimigo, de nome Goppy. Goppy ficava o tempo todo derra-
mando, quebrando e derrubando coisas, pelo que o pobre menino sem-
pre levava a culpa, e ainda por cima enchia sua fralda traiçoeiramente 
uma ou duas vezes por dia. O próprio "eu" da criança, que está 
se "fazendo" por intermédio dessas caracterizações, pode entrar e sair 
de seus papéis: os amigos de minha filha, Getty, Jamil, Ciumento [Jea-
lous] (que apareceu pouco depois do nascimento do irmãozinho dela), 
138 A invenção do eu. 
e Chapeuzinho Vermelho, frequentemente faziam por ela coisas que ela 
não queria fazer, e Chapeuzinho só foi adicionada ao panteão depois que 
ela própria deixou de assumir esse papel regularmente. 
Sem dúvida, essas criações nascem em parte da observação (bastante 
perceptiva) e da emulação dos adultos pela criança, pois seguem todas as 
"regras" pelas quais os adultos manifestam e desculpam seus atos e incli-
nações por meio de fofocas e anedotas sobre outras pessoas. Elas pare-
cem transparentes e "divertidas" (e para alguns levianas) porque lidam 
um tanto frivolamente com os padrões de legitimidade que sustentam e 
certificam as invenções dos adultos - embora, é claro, essa legitimação 
raramente seja declarada em conversas. Na verdade, elas representam 
uma adaptação da ordem convencional à própria invenção do eu pela 
criança, um mundo de faz de conta que lhe permite ser o tipo de eu que 
ela deseja ser ao se deparar com uma "responsabilidade" intrusiva. Ainda 
que mundos de faz de conta possam dissolver-se, proliferar ou passar por 
transformações, como um fenômeno geral, eles nunca são superados: 
as pessoas simplesmente aprendem a torná-los mais convincentes, ade-
quando suas invenções às exigências da responsabilidade convencional. 
O mundo do adolescente, do jovem que está aprendendo a criar 
desejos e necessidades adultos, apresenta um dilema similar. Para desen-
volver o tipo de criatividade que pode ser moldada em uma personalidade 
mais ou menos convencional, é preciso cometer os "erros" necessários, 
inventar um eu com muita seriedade, sob a forma de desejos, anseios e 
aspirações - precipitando assim espasmos obsessivos de "apaixonamento" 
e de "culto do herói". O que é uma personalidade dita "saudável" ou 
"normal", senão uma neurose prévia, uma contrafação da Cultura, que 
foi moderada em uma relação com a convenção? 
Aprender a não levar a personalidade a sério significa aprender a 
levar muito a sério o que se "deve fazer", a convenção Cultural e a culpa 
que a acompanha. Isso equivale a aprender a Jater a moralidade enquanto 
se está sendo um eu e aprender a ser