WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.134 materiais32.779 seguidores
Pré-visualização50 páginas
a moralidade ("ser bom") enquanto se 
está fatendo o eu. Nisso consiste o dilema da pessoa que está aprendendo 
a ser criativa em relação à sua sociedade, a objetificar deliberada e cons-
cientemente o inato de maneira a precipitar uma imagem inovadora e 
139 
'.' 
provocativa do convencional- o mais dificil dilema que há. Assim como 
a criança e o adolescente, a pessoa criativa precisa criar e depois moderar 
seus sintomas neuróticos. Mas diferentemente da criança e do adolescente, 
que precisam aprender a "fazer" a personalidade e todavia não levar a sério 
esse fazer, ela precisa, em nome da "responsabilidade", recuperar-se de 
sua neurose de modo a ser capaz de manipular sua personalidade e inven-
ção com muita seriedade sem deixar transparecer que está fazendo isso, e 
prestar suas homenagens às convenções da "responsabilidade" enquanto 
vive em um mundo criativo formado por suas próprias convenções. Sua 
própria criatividade, sua habilidade de se impor ao mundo convencional, 
depende disso. 
Desse modo, o indivíduo criativo vê-se em uma espécie de "duplo 
vínculo". Em vez de retificar o desequilíbrio neurótico entre invenção e 
convenção, alinhando-o com a distinção convencional entre o inato e o arti-
ficial, ele precisa aprender uma inversão pessoal dessa convenção, sem deixar 
transparecer que está fatendo isso. Ele precisa levar sua neurose "até o fim", 
a ponto de viver em seu próprio mundo, e usar a mesma articulação entre 
personalidade e invenção pela qual esse mundo é precipitado como uma 
"ponte", a fim de construir a relação entre seu próprio mundo e o mundo da 
convenção cultural. A personalidade, então, é a coisa mais séria do mundo 
para ele, e, entretanto, ele precisa depreciá-Ia e reduzi-Ia às dimensões da 
não seriedade para manter sua credibilidade ao lidar com outras pessoas. 
Pela mesma razão, o reino da "responsabilidade" convencional muitas vezes 
lhe parecerá excêntrico e arbitrário (pense em Beethoven!), pois sua perso-
nalidade inventiva é motivada por um conjunto muito diferente de conven-
ções; não obstante, ele precisa dirigir seus esforços criativos a essa Cultura 
mais ampla para que estes tenham significado e sejam efetivos para outros. 
A personalidade criativa traça uma estreita linha entre a "credibilidade" 
que a conecta ao mundo cotidiano da convenção responsável e a motiva-
ção de seus próprios impulsos criativos. A pessoa sempre se sente tentada a 
ceder a estes e a deslizar para um mundo convencional criado por ela m"'Jila, 
com o risco de perder "credibilidade" e ser decretada insana. Com efeito, 
um dos grandes riscos da inversão convencional que uma pessoa criativa 
enfrenta é o de perder o desejo ou a capacidade de "relacionar-se" e manter 
140 A invenção do eu 
a credibilidade, tomando-se assim esquiwfrênica. Bateson argumentou bri-
lhantemente que o esquizofrênico é alguém que aprendeu, sob o impacto 
de condições familiares, a evitar esse tipo de comunicação: 
o esqui{ofrênico geralmente elimina de sua mensagem tudo que se re-
fira explícita ou implicitamente à relação ele e a pessoa à qual 
está se dingindo. Os esqui{ofrênicos comumente evitam os pronomes 
de primeira e segunda pessoas. Eles evitam dizer a você que tipo de 
mensagem estão transmitindo. 5 
Um esquizofrênico, em outras palavras, perdeu ou não considera impor-
tantes aqueles pontos de contato que traduzem suas afirmações e ideias 
em potência e significados culturais viáveis. Ele aprendeu a criar o mundo 
sem inventar o eu, e sem a ajuda dos outros. 
Esse foi, em última instância, o refUgio de Nietzsche, que, no prin-
cípio de sua insanidade, escreveu a J acob Burckhardt, seu ex-colega na 
Basileia: "Por fim, eu preferiria ser professor na Basileia a ser Deus; mas 
não ousei levar tão longe o meu egoísmo privado e, por causa dele, deixar 
de criar o mundo". 6 Isso caracteriza com lucidez tipicamente nietzschiana 
o drama de alguém que deseja "criar o mundo" sem o estorvo do eu ou de 
outros. Qualquer que tenha sido a "causa" da insanidade de Nietzsche (há 
muitas teorias), sua reação intelectual a ela foi singularmente apropriada 
para alguém que se esforçou com tanto brilhantismo, mas com resultados 
incertos, para transmitir a ideia da "transvaloração de todos os valores" . 
A insanidade de Nietzsche tinha a ver com tornar-se sério, um desen-
lace infeliz para o autor da Gaia ciência, que tão bem usufruía a arte de 
jogar com a imagem do eu, com a personalidade. Observa-se com fre-
quência entre os grandes criadores uma facilidade, uma projeção do 
eu cômica e grotescamente "não séria" numa caricatura da convenção. 
5. Gregory Bateson, Steps to anEcology 01 Mind. Nova York: Chandler Publishing, 1972, 
p.2);. 
6. Friedrich W. Nietzsche, The Portahle M"eqsche, org. e trad. de Walter Kaufmann. Nova York: 
Viking, 19i4, p. 685 
'4' 
Permitir que a personalidade criativa aparente estar fazendo uma carica-
tura de si mesma (que não "se leve a sério"), quando na verdade está cari-
caturando a convenção, serve como uma "solução" viável e catártica para 
o duplo vinculo criativo. Beethoven, um rude mestre nesse tipo de coisa, 
compôs suas Variações Diabelli como uma piada; Rembrandt retratou a si 
mesmo como o herói de Sansão ameaçando seu sogro, e também se incluiu 
entre os soldados que se ocupavam em crucificar Cristo (O levantamento 
da CruZ)' Mas a obra-prima desse tipo de caricatura é de autoria de lan 
Vermeer, sobre quem um comentador observou que "há sinais nele de um 
imenso desdém".' No quadro A arte do pintor (hoje conhecido como Um 
artista em seu estúdio ou A alegoria da fama), o artista (muito provavel-
mente o próprio Vermeer) está de costas para o observador, que vê apenas 
a modelo dele, uma "musa da história" um tanto frívola segurando um 
livro e um instrumento parecido com um trombone, numa pose ridícula e 
autoconsciente. Eis o "artista anônimo", surpreendido em seu ato dema-
siadamente sério de capturar a "Fama" na tela, mas também uma "Fama" 
que é ela própria "fabricada" e autoconsciente! 
Também o antropólogo, em suas manipulações da personalidade para 
agir de acordo com as expectativas de um modo de vida estranho, suscitando 
esse estilo de vida como uma "convenção" pessoal, passa por uma inver-
são criativa. Quer ele faça uso ou não desse papel estratégico - dessa criação 
do eu como uma relação intelectual - para caricaturar suas próprias con-
venções (e numa Cultura relativizada a tentação de fazê-lo é muito grande), 
sua siruação torna urgente a questão das convenções comparativas. Ele vê 
essa questão como o problema da Culrura - mas será sempre esse o caso? 
SOBRE "FAZER DO SEU JEITO"; O MUNDO DA HUMANIDADE IMANENTE 
Precipitamos o aspecto incidental e inventivo (ou evolutivo) das coisas 
como o nosso grande mistério motivador - quer o chamemos de tempo, 
crescimento, invenção, personalidade ou, na linguagem taquigráfica da 
7. Lawrence Gowing,jan Vermeer. Nova York: Barnes & Noble, 1962, p. 73. 
142 A invenção do eu 
moderna cultura de massa, "mudança". De forma consciente e inten-
cional, "fazemos" a distinção entre o que é inato e o que é artificial ao 
articular os controles de uma Cultura coletiva, convencional. Mas o que 
dizer daqueles povos que convencionalmente "fazem" o particular e o 
incidental, cujas vidas parecem ser uma espécie de improvisação contí-
nua? Podemos entendê-los em termos de algo que nós "fazemos" e que 
eles não se esforçam deliberadamente para realizar? Ao tornar a inven-
ção, e portanto o tempo, o crescimento e a mudança uma parte de seu 
"fazer" deliberado, eles precipitam algo análogo à nossa Cultura, mas 
não o concebem e não podem concebê-lo como Cultura. Esse algo não 
é artifício, e sim o universo. Para eles, o convencional- gramática, rela-
ções de parentesco, ordem social ("norma" e "regra") - é uma distinção 
inata, motivadora e "sorrateira" (portanto