WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.128 materiais32.746 seguidores
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inexplicável) entre o que é 
inato e o que é artificial. Esse "conhecimento", como o chamamos, não 
pode ser para eles objeto de "aprendizado" e discussão no nosso sentido 
convencional; antes, ele participa da essência imanente de todas as coi-
sas, sendo acessível apenas aos maiores videntes e xamãs e compelido 
e precipitado, como um refulgente clarão de percepção, no decorrer da 
adivinhação, da inspiração religiosa e da introspecção. 
Um mundo fenomênico que manifesta uma ordem convencio-
nal e social humana implícita é um mundo antropomórfico. Por trás de 
cada evento fenomênico, quer ele faça parte da socialidade humana ou 
do ambiente circundante, vivente e não vivente, esconde-se a possibi-
lidade enigmática de uma explicação antropomórfica ou sociomórfica. 
Em outras pala:vras, há uma certeza convencional de que a causalidade 
última das coisas é constituída em termos da ordem convencional parti-
cular (e necessariamente inata) da pessoa. As próprias concepções podem 
ser explícitas, tais como divindades nomeadas consideradas "forças" ou 
predisposições do universo, ou uma "criação", como a paisagem mitica-
mente potente dos aborígines australianos; ou podem ser difusas, como a 
noção daribi de que os movimentos do sol e da água prefiguram o curso 
da mortalidade humana. Mais uma vez, o antropomorfismo pode assu-
mir uma forma diferente e uma significância diferente sob a marca de 
diversos procedimentos cerimoniais, mitológicos e divinatórios voltados 
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a compelir e descobrir o inato. Mas essa humanidade imanente - seja lá 
qual for a forma que as maquinações humanas confiram a ela - apre-
senta ao homem a urgência contínua de controlar, compelir e determi-
nar sua natureza. Sendo a "ordem" das coisas e das pessoas, ela não é 
"poder" no sentido do nosso mundo natural (embora se manifeste por 
meio do poder), mas antes a chave para o poder, o conhecimento que 
confere poder e que O poder ajuda a conquistar. 
Enquanto os americanos e outros ocidentais criam o mundo inciden-
tal ao tentar constantemente prevê-lo, racionalizá-lo e ordená-lo, os povos 
tribais, religiosos e camponeses criam seu universo de convenção inata ten-
tando mudá-lo, reajustá-lo e impor-se a ele. Nossa preocupação é inserir 
as coisas em uma relação ordenada e consistente - seja esta uma relação de 
"conhecimento" organizado de modo lógico ou de "aplicação" organizada 
de modo prático -, e chamamos a soma de nossoS esforços de Cultura. 
A preocupação deles pode ser pensada como um esforço para "desestabi-
lizar o convencional" e assim tornar-se poderosos e únicos em relação a 
este. Se entendemos que "poder" representa invenção, uma força ou um 
elemento individual que se impõe às coletividades da sociedade, então o 
ocidental urbano "é" poder (no sentido de sua individualidade "inata" e 
de seus dons e talentos especiais) e "faz" moralidade (seu "desempenho"), 
ao passo que a pessoa tribal ou religiosa "faz" ou "segue" o poder (papéis 
especiais, magia orientadora ou auxiliares espirituais) e "é" moral. 
As tarefas convencionalmente prescritas da vida cotidiana - o que 
se "deve" fazer em tal sociedade - são orientadas por um vasto con-
junto de controles diferenciantes em contínua mudança e constante cres-
cimento, todos eles mantidos e "condicionados" pela "sociedade" con-
vencionai que o uso deles precipita. Esses controles incluem todos os 
tipos de papéis produtivos e de parentesco, de técnicas mágicas e práticas, 
de possíveis modos de conduta para o comportamento pessoal. E se é difí-
cil para o etnógrafo padronizar esses controles, ou apanhar um "nativo" 
no ato de explicitamente" executar" um deles, isso acontece porque a 
própria natureza e intenção desses controles desafia o tipo de liter'à1idade 
que a "padronização" ou o "desempenho" (bem como a ética profissional 
de coerência do próprio etnógrafo) implicam. Eles não são Cultura; não 
144 A invenção do eu. 
são pensados para ser "executados" ou seguidos como um "código", mas 
para ser usados como a hase da improvisação inventiva. O truque para sua 
utilização é o exagero e a improvisação, e pode envolver, como muitas 
vezes envolve, um certo grau de caricatura e bufonaria. A pessoa que é 
capaz de fazer isso bem - a ponto mesmo de inventar controles comple-
tamente novos - é admirada e muitas vezes imitada. Os controles são 
temas para interpretação e variação - um pouco ao modo do jazz, que 
vive da constante improvisação de seu tema. 
E assim podemos falar dessa forma de ação como uma aventura con-
tínua de "imprevisão" do mundo. Ao tentar consciente e deliberadamente 
afirmar sua singularidade e independência em relação aos outros, o ator 
invariavelmente fracassa em alguma medida, traindo inadvertidamente 
sua essencial "humanidade" e sua similaridade com os outros. E esse fra-
casso, como uma contrainvenção do mundo deveras convencional que 
ele está tentando "imprever", serve-lhe de motivação. Isso equivale ao 
modo de objetificação subliminar e involuntário, à coletivização de seu 
controle diferenciante - a uma invenção sorrateira da ordem moral e 
social a despeito de suas intenções. Como o exato oposto da nossa inven-
ção da "natureza" por meio das consistências de maquinarias, horários, 
livros e razões, esse empreendimento não pode deixar de ser ao mesmo 
tempo estranho e provocativo para nós. 
Essas pessoas vivem quase que exclusivamente por intermédio de seus 
cultos e enrusiasmos, de modo que a vida é uma sucessão de expectativas 
e aventuras altamente carregadas. É "metafórica" e paradoxal, um com-
prometimento com uma coisa em nome de outra, e portanto sua intenção e 
impacto essenciais são totalmente perdidos se tomados literalmente. O curso 
da vida é algo como nossa propaganda: continuamente "redime" a sociedade 
ao vivê-Ia mediante algum tipo de controle inusitado ou mágico. As ima-
gisticas ordinárias que ele segue, seus "poderes" (como o poder da "magia 
do francolim" na agricultura), são e precisam ser slogans ferinos, ideais em 
que se deve acreditar (pois é isso o que os faz "funcionar"), mas que não 
convém tomar muito literalmente. Pois ao tomá-los demasiado explícita ou 
literalmente nós os confundimos com os fins a que se destinam, o "conhe-
cimento" preciso e a ordem convencional que constituem a natureza das 
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coisas. Assim, pode haver muitos "tipos" de magia, muitos "papéis" ou 
procedimentos alternativos, muitas "caminhos para o conhecimento" cuja 
medida de aceitação e utilidade não é seu conteúdo literal, mas o quanto 
eles "funcionam" ou não (isto é, o quanto é possível acreditar neles). Entre 
os Daribi, cujos nomes pessoais compartilham desse aspecto diferenciante, 
muitas pessoas têm nomes como merawai ("boca suja", "imundo") e dinaho 
("come excremento"), que ninguém considera pejorativos. 
A vida coma sequência inventiva tem um caráter particular, uma 
certa qualidade de radiância que não tem nenhuma comparação com o 
nosso atarefadíssimo mundo da responsabilidade e do desempenho. Era 
isso, e não a "nutrição" ou a "sobrevivência", que animava os remotos 
acampamentos que os nossOS arqueólogos estudam em seus diagramas 
de carbono; é isso, e não o "primitivismo" ou a "mentalidade da idade da 
pedra", que torna contraditórios e paradoxais os encontros de pessoas 
da "classe média" com povos tribais, camponeses e da "classe baixa"; e é 
isso que "falta" em um acampamento ou aldeia esvaziados de sua popula-
ção pelo recrutamento de mão de obra e assim por diante. A monotonia 
que encontramos em escolas de missão, em campos de refugiados e às 
vezes em aldeias "aculturadas" é sintomática não da ausência de "Cul-
tura" , mas da ausência de sua própria antítese - aquela "magia" , aquela 
imagem insolente de ousadia e invenção que fa, cultura, precipitando 
suas regularidades na medida em que falha em superá-las por completo. 
A natureza não literal dos controles