WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.132 materiais32.767 seguidores
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diferenciantes permite que eles 
sejam compreendidos, de certa forma, comO procedimentos indiretos e 
"ardilosos", embora essa consciência nunca chegue ao ponto de admitir 
que o artifício cna o inato. As propriedades inatas das coisas são ludibria-
das, compelidas, aduladas, elicitadas' (assim como nossa temporalidade 
8. "Elicitar" e "elicitação" são adaptações de palavras inglesas: o verbo (to) elicit, "extrair, 
fazer sair; obter; desencadear, provocar; deduzir; descobrir; esclarecer"; e o substantivo eli-
citation, "obtenção gradual; dedução" (ver Dicionário Inglês-Português da PortO Editora). 
Estas formas inglesas provêm do latim elicitus, particípio passado de elicere, "tirar para.igp.", 
de ex, "fora", e -licere, forma de lacere, "atrair com engano, enredar" . As formas elicitar e 
elicitação são de uso comum em português em certos campos científicos (linguística, biolo-
gia, informática), indicando a atividade de extrair ou obter ativamente informações, respos-
tas, dados, por meio de métodos e procedimentos específicos. [N. T.] 
146 A invenção do eu 
"inata" e nossas "forças" naturais são previstas, compreendidas ou apli-
cadas) pela ação humana, mas não geradas por essa ação. É a ordem dada 
das coisas que é ludibriada, e não o ator. A percepção de que se está ludi-
briando a si mesmo obviaria o ato, "desmascararia" a transformação que 
o ator acredita estar ele mesmo efetivando. Os controles diferenciantes, 
quer se aproximem da nossa noção de "magia", quer tenham a ver com 
"tecnologia" ou "parentesco" ou com a influência de um "poder" ou um 
santo guia, são valorizados como dispositivos engenhosos para a coerção 
da ordem "dada" das coisas em prol da pessoa. Assim, os Daribi me expli-
cavam a operação de seus encantamentos em termos de "ardis" delibera-
dos, induzindo e conjurando o resultado pretendido. Mas a habilidade para 
abrir roças do francolim era "drenada" ou compelida pelo encantamento, 
não simplesmente criada (se as pessoas pudessem criá-la, diriam os Daribi, 
então o francolim, e a menção ao francolim, não seriam necessários). 
A ideia de que operações "mágicas" criam O inato é antitética com 
respeito ao empreendimento bem-sucedido da magia (embora seja cen-
tral para a minha análise de como as pessoas criam suas realidades); ela 
não é mais aceitável para o usuário da magia do que a proposição de 
que criamos forças naturais seria para os nossos técnicos e engenheiros. 
Chuva, morte, fertilidade e os outros fins visados por um feiticeiro ou 
mago não são menos "inatos" em razão do fato de que são concebidos e 
elicitados antropomomcamente. A magia não os cria nem pode criá-los: 
tão somente os "ajuda" ou compele. Desse modo, ainda que possamos 
entender lamentos funerários como controles para a criação do sofrimento 
como um estado social convencional, o nativo precisa vê-los como um dis-
positivo para ajudar a canalizar a expressão de um sentimento de caráter 
inato; ainda que possamos analisar o pai-nosso como um dispositivo para 
criar uma experiência do divino, o crente precisa aceitá-lo como um guia 
útil para as tendências inatas de sua alma. 
As modalidades interpretativas da ação individual levam todas à 
criação de estados e relações convencionais aparentemente "inatos" ao 
"suscitá-los", "responder" a eles antecipadamente, por assim dizer, ope-
rando de maneira a elicitar a resposta de outrOs e assim tornar socialmente 
fatual o estado ou a resposta. No entanto, como o estado ou a relação 
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,'''' 
são compreendidos como algo inato, como uma ocorrência motivadora, a 
ação nunca é vista ou conceituada dessa maneira pelos participantes. Para 
eles, ela é "dada", e portanto anterior; ela somente começa a se atualizar 
nas motivações daquele que a inicia - como uma tendência de sua alma. 
O estado ou relação estão ali; eles são simplesmente "reconhecidos" por 
meio de uma resposta apropriada por parte do ator que os inicia. O conse-
lheiro da aldeia no Lago Tebera "reconheceu" uma relação de identidade 
onomástica entre mim e seu filho de pele clara quando deixei que a criança 
puxasse meu cabelo e especialmente quando perguntei por seu nome. Ele 
não mencionou o fato na ocasião, mas quando a criança e a mãe retornaram 
de canoa, à tarde, ele simplesmente anunciou: "Seu xará está chegando". 
A qualidade do inato entre os povos tribais, religiosos e camponeses 
é um discernimento motivador, uma convencionalidade ou socialidade 
(conjunto de relações) implícita que aparentemente "seleciona" sua pró-
pria precipitação. Ele é precipitado ou elicitado mediante a articulação 
deliberada (inventiva ou improvisatória) de controles diferenciantes. As 
necessidades que esse modo de ação coloca para o ator - "ajudar" ou 
compelir os poderes a atuar a seu favor, reconhecer e tornar explícitos 
elou evitar estados e relações ocultos, atrair outros para uma relação, 
provocando-os ou "pondo-os à prova" - são máscaras para a criação 
efetiva do social e do convencional. Consideremos as relações "jocosas" 
e de "evitação" dos povos tribais mundo afora, que tanto cativaram a 
imaginação dos etnógrafos. As próprias pessoas dizem que "precisam" 
agir de modo jocoso, respeitoso ou totalmente anônimo com certos indi-
víduos porque estão relacionadas a eles de um certo modo. A relacão, em 
outras palavras, é anterior. Mas na verdade sua ação conforme a maneira 
prescrita [a'{ o relacionamento, relaciona as pessoas da maneira apro-
priada. Relações "jocosas" exigem a paródia de certos comportamentos 
"inapropriados" (isto é, sexuais ou agressivos) por parte de um dos par-
ticipantes ou de ambos. Na medida em que os participantes" encaram 
isso como brincadeira" , reconhecendo implicitamente a 
comportamento (e por conseguinte a adequação de sua relação), eles 
efetivamente criam a própria relação como contexto de sua interação. 
O "respeito" igualmente requer a evitação de certos assuntos e modos 
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de agir: na medida em que ambos os participantes conspiram para man-
ter essa evitação, e portanto a adequação desse modo de interação, eles 
se colocam "na relação"; eles a criam. A situação não é em nada dife-
rente para aqueles cujas relações exigem evitação parcial ou completa: 
eles tornam sua relação adequada ao não ter nada a ver um com o outro 
sob certas circunstâncias ou ao não ter nada a ver um com o outrO de 
modo algum. 
Esses" estilos" de interação familiar e de parentesco diferem daque-
les dos americanos de classe média pelo fato de que fazem da família e 
da relação o contexto invisível da ação individual explícita, em vez de 
fazerem do indivíduo o contexto invisível de uma existência familiar 
intencional. A família (e na verdade a "sociedade" como um todo) não é 
"planejada": é precipitada. Onde isso fica mais aparente é na diferenciação 
sexual. Homens e mulheres criam sua interação como tais agindo um con-
tra O outro, atuando como "homem" para alguém que atua como "mulher" 
e elieitando uma resposta, "pondo à prova" o outro sexo, tomando os sig-
nificados da masculinidade e transformando-os em feminilidade ou vice-
versa. O fato de que homens e mulheres em grupos tribais, camponeses e 
de "classes baixas" se mantêm separados uns dos outros, desenvolvendo 
clubes e estilos de vida próprios e interagindo apenas em disputas, debo-
ches e relações sexuais, não é um problema "psicológico" superficial a ser 
sumariamente explicado por teorias referentes a biologia, função ou pri-
vação. É algo central em sua modalidade de criação da realidade social- é 
o meio pelo qual essa realidade é criada. Cada sexo se diferencia do outro 
de maneiras inventivas, improvisatórias e muitas vezes simplesmente 
peculiares. Ao reconhecer de forma implícita o caráter e as qualidades 
do outro, provocando-o à existência, por assim dizer, cada qual cria a 
complementaridade sexual em que a vida social se baseia. 
A "reciprocidade"