WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.134 materiais32.779 seguidores
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de ativação dentre os quais a alma deve 
escolher, encontram-se aqueles que envolvem a articulação deliberada do 
convencional, como uma contramedida diante da ameaça de relativiza-
ção. A alma, em última instância, é a distinção entre o inato e o artificial 
- pois isso constitui o verdadeiro cerne de seu discernimento -, de modo 
que "inverte" o modo de objetificação a fim de defender sua essência e a 
ordem moral que ela própria representa. Quando a imagem do eu cole-
tivo é usada dessa maneira, como um controle coletivizante, é conhecida 
como "honra", "cortesia", "humanidade". Os aborígines australianos 
falam da "trilha" ou caminho do homem, e os mitos daribi versam sobre o 
"homem verdadeiro" (hidi mu) ou o "sujeito correto" (saregwa). Trata-se 
de convenção consciente: a via "reta e estreita" da restauração e emulação 
moral, o papel do líder ou legislador social e religioso, do chefe, sacer-
dote, santo, xamã, vidente ou curador. Trata-se também do "caminho" 
da cortesia e da ação ritual correta trilhado pela pessoa comum quando 
confundida e confrontada pela ameaça de ambiguidade. 
Ao exercer um papel coletivizante, essa "honra" ou "humanidade" 
precipita uma motivação diferenciante, uma contrainvenção de forças 
inventivas, dinâmicas, que podem ser identificadas com um aspecto 
impulsivo da constiruição pessoal (uma "alma do corpo", desejos "da 
carne" ou "mundanos") ou com alguma agência espiritual. "Honra" ou 
"humanidade" é um eu moral atuante, uma demonstração da "alma", 
respondendo à sua antítese motivadora e reconhecendo-a (e, é claro, 
criando-a). Enquanto experiência, essa "resistência" motivadora - as 
maneiras pelas quais as ações de uma pessoa não conseguem se conformar 
com a imagem do controle - assume a forma de vergonha. A vergonha 
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" 
é uma manifestação de consciência moral inadequada, um embaraço 
público ou privado da humanidade inata da pessoa, tal como demons-
trada na ação coletivizante. 
As relações sociais de povos tribais, camponeses e religiosos, na 
medida em que são deliberadamente desempenhadas ou trazidas à cons-
ciência, estão sujeitas a uma motivação vexatória. A sexualidade e o inter-
curso sexual, quando colocados no contexto de relações de afinidade ou outras 
relações sociais, são inerentemente vexatórios para os Daribi e muitos 
outros povos como eles: são descobertos (sejam legítimos ou não) e então 
os participantes ficam envergonhados, ou são evocados (quando se usa 
linguagem obscena) com o intuito de envergonhar. Nessas sociedades, o 
medo da vergonha e a onipresença de situações potencialmente vexató-
rias parecem ser fatores de permanente indução à ação moral: põem as 
pessoas "à prova", por assim dizer, e desencadeiam a inversão no sentido 
de uma postura moral, defensiva. 
Assim como a culpa entre os americanos de classe média, a vergo-
nha é um dispositivo ou estratagema universal das relações interpessoais 
nessas sociedades. As pessoas envergonham umas às outras para incitá-
las a responder, fazer, dar e receber. A elicitação de papéis masculinos 
por meio de papéis femininos (e vice-versa), a iniciativa de um empre-
endimento ou tarefa coletiva, o oferecimento e a aceitação ou rejeição 
de riquezas em "trocas recíprocas" são todos atos vexatórios explícitos 
ou implícitos, ou desafio e resposta morais. "Você é um homem (uma 
mulher) de verdade? Você é um autêntico ser humano? Então responda 
moralmente a essa situação mora!!" Os estilos pessoais de compostura 
afável e de bufonaria que reconheci logo no início de meu trabalho entre 
os Daribi (e que Bateson caracterizou como "racional" e "emocional" 
entre os debatedores iatmul) consistem na realidade em estratégias vexa-
tórias arraigadas. O primeiro, um papel "de cortesia", põe os outros à 
prova e elicita uma resposta emulativa; o segundo provoca os outros com 
uma sem-vergonhice afetada e infectante que ameaça 
não respondam moralmente. 
O melhor exemplo de estratégia vexatória talvez seja o dos papéis 
que os Daribi frequentemente assumem em ferozes combates individuais. 
1)4 A invenção do eu 
Ao ser confrontada por um antagonista que está "fora de si" de raiva, 
em geral brandindo uma vara, a pessoa muitas vezes adota o papel de 
"vítima virtuosa". Enquanto o protagonista se atira sobre ela, gritando, 
vergastando-a e às vezes chutando-a, a vítima virtuosa mantém sua com-
postura, sustenta sua posição sem revidar e "encoraja" seu oponente, 
dizendo: "V á em frente, me bata de novo (podemos ver perfeitamente 
que tipo de pessoa você é)". Isso, é claro, faz o protagonista ficar ainda 
mais furioso (e portanto moralmente indefeso): ele redobra seus esforços 
(e portanto sua vergonha), tentando incansavelmente desfechar o golpe 
que convencerá a todos da seriedade de sua raiva. Caso o consiga, uma 
"vítima" sagaz se tornará ainda mais "virtuosa" deixando-se tombar e 
simulando morte ou ferimento grave, buscando mostrar a todos que a 
raiva do protagonista era, com efeito, demasiado séria. 
O truque de aprender a humanidade, de ser capaz de "fazer" a alma 
como cortesia, honra, piedade, é o truque de aprender a levá-la - a levar-
se - extremamente a sério. Isso significa aprender, sob as devidas circuns-
tâncias, a não levar a vergonha nem um pouco a sério, a ser capaz de usar a 
vergonha (fazendo-se o vergonhoso ou elicitando-o nos outros) para fins 
morais. Significa aprender a pecar, pois sem pecado não há salvação. Isso 
explica por que e como pessoas que são instruídas a conferir um valor tão 
alto à moralidade são capazes de atuar como bufões e praticar outros atos 
de imodéstia aparentemente ultrajantes; explica como os Enga e os Huli da 
Nova Guiné, que vivem sob um assombroso temor da impureza feminina, 
são capazes, afinal, de se reproduzir. Por estranho que possa parecer aos 
indivíduos de classe média, sempre fugindo da culpa de um mau desem-
penho evidente e adeptos do "jogo limpo", trata-se da destreza em compe-
lir uma "humanidade" moral e virtuosa, uma "honra'" ou "piedade", por 
quaisquer meios, honestos ou infames (isso pode soar mais familiar para 
políticos e outros que aceitam a corrupção e toda sorte de abusos em nome 
do "bem maior" ou da "segurança nacional"). Essa é a arte de "jogar com a 
vergonha", de modo que o moral possa ser real e sério, uma arte que conta 
com suas escolas informais e conspiratórias em toda diferenciante. 
Aprender a ousar, a assumir os constrangimentos morais sobre a inven-
ção com suficiente indiferença para permitir o tipo de ação improvisatória 
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inconsequente que propicia uma criação firme, mas flexível, da convenção, 
é tão imperativo nessas tradições quanto o aprendizado da personalidade é 
na nossa. O moral e o convencional precisam ser provocados, ameaça-
dos e adulados, precisam ser inventados, pois é somente assim que podem 
persistir. Mas se a liberdade da invenção é levada ao extremo de não mais 
se levar a convenção a sério, de usar a convenção para seus próprios fins, 
então sobrevém a ameaça da relativização, da "contrafação" da convenção. 
Vimos que em tradições como a nossa, onde a moralidade é uma questão de 
ação deliberada e explícita, essa" contrafação" assume a forma da neurose, 
da construção de "convenções" privadas que permitem (e exigem) ao neu-
rótico satisfazer uma imagem desejada do eu. Seu equivalente em tradições 
onde o pensamento e a ação são uma questão de diferenciação deliberada 
e explícita, onde a moralidade é inata e implícita, é a histeria. O histérico 
"faz" ou ousa além dos limites toleráveis da ação ordinária, fabricando arti-
ficialmente poderes "inatos" que irão lhe possibilitar (e em última instância 
exigir) que viva em um determinado "estado" social. Aqui o sentido do eu 
como "alma" se torna ambíguo - um joguete dos poderes individuais que 
a vítima luta para invocar ou controlar. Ele cai em um estado de "doença", 
"possessão",