WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
127 pág.

WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.814 seguidores
Pré-visualização50 páginas
pes-
soal e comunal exige que alguém mantenha eSSas forças sob controle e 
9- Gunnar Landtman, The Kiwai Papuans of Bn-tish New Guinea. Londres: Macmillan, 192 7, p_ 21_ 
'59 
'A 
efeme uma "representação" delas que seja moral, e não catastrófica. Para 
os melanésios, há poder na morte, nos sonhos, nos espíritos da floresta 
periférica e no misterioso reino dos segredos cultuais e dos encantamen-
tos. Para muitos povos norte-americanos, as espécies e os fenômenos do 
mundo que os cercava eram poderes. Muitas vezes, os mamíferos, insetos, 
pássaros e plantas familiares representavam apenas uma amostra parcial 
do leque de "poderes" que se acreditava presentes no universo. Cada um 
deles era uma manifestação específica de um "poder" generalizado, com 
seus próprios segredos, hábitos, traços, cantos e assim por diante, e esse 
poder seria capaz de ser drenado pelo ser humano que lograsse entrar 
em conexão com ele (o que frequentemente se iniciava com uma visão). 
Havia também um leque potencialmente ilimitado de possibilidades para 
o engrandecimento pessoal acarretado pela associação de um devoto com 
seu "poder", e os procedimentos envolvidos na busca e manutenção da 
conexão propiciavam um guia (e um controle) para esse empreendimento. 
Entre muitos grupos, como os Atapascanos do Sudoeste ou os Sioux e 
numerosas outras tribos "históricas" das pradarias, esse tipo de poder 
era essencial para o sucesso do homem ambicioso - um pouco como o é 
a "educação" para seu congênere ocidental. 
O indivíduo que deseja aprender a compelir e controlar esse poder 
sobre o coletivo - o chefe, o sacerdote, o especialista rimal, o monge, o 
curador ou o xamã - precisa aprender a "fazer" os atos coletivizantes 
pelos quais esse poder é precipitado sem invocar a inconveniência da ver-
gonha ou o terror paralisante da possessão ou vitimização por esses pode-
res. Ele precisa aprender uma inversão da ação convencional, transferindo 
a seriedade que ordinariamente se concede ao convencional e ao moral 
para as demandas de seu "poder", mas sem transparecer que está fazendo 
isso. Ele precisa levar as tendências de sua histeria "até o fim", a ponto de 
ser seu poder (de atingir uma conexão completa ou união com ele), mas 
precisa também esforçar-se para manter a imagem de humanidade. Pois 
o problema aqui não é o de perder contato efetivo e desaparecer e!",JIm 
mundo próprio; é antes o de perder a própria motivação moral. 
Esse é o clássico dilema do chefe africano, que precisa ser poderoso 
e também moral, exemplificado de maneira tão pungente pela figura de 
I 60 A invenção do eu 
Yabo em Return to Laughter. lO É também o dilema do xamã siberiano e 
norte-americano, que pode ser obrigado a eliminar seus próprios paren-
tes como prova de fidelidade para com seu "poder" ou espírito familiar. 
É o drama do sacerdote, monge ou freira, que precisa renunciar a seus 
laços de parentesco e com O "mundo". E frequentemente é uma fonte 
de grande ansiedade para os outros que vivem nessas sociedades, cujas 
vidas e cujo bem-estar dependem absolutamente de uma invocação e 
aplicação moral desses poderes. Os Daribi, que consideram seus xamãs, 
ou sogoye,ibidi, com grande honra, dizem que um fantasma escolherá 
alguém de bom discernimento para uma vocação desse tipo, pois caso 
contrário o sogoyezihidi poderá "sair por aí fazendo as pessoas adoecer". 
A situação de tais "fazedores do coletivo", cujas próprias almas são 
articuladas como relação, uma espécie de "ponte" entre o mundo dos 
poderes inatos e aquele da vida humana, não é menos uma situação de 
"duplo vínculo" do que a do indivíduo criativo na sociedade ocidental. 
Eles precisam tratar o convencional casualmente, mas sem transparecer 
que o estão fazendo. Ainda que a pessoa comum faça isso em alguma 
medida no aprendizado do pecado ou da vergonha que precisa acom-
panhar seu aprendizado da humanidade, a carreira do chefe, sacerdote 
ou xamã bem-sucedido precisa levar isso até o ponto de uma completa 
inversão. Ele precisa aprender a viver uma ordem de motivação e expe-
riência completamente invertida, fazendo o que os outros consideram 
inato e ao mesmo tempo mantendo suas relações sociais e morais com 
eles. Em suma, ele é obrigado, à maneira de seus congêneres ocidentais, 
a continuamente enganar os outros do mesmo modo que estes, sem o 
saber, aprenderam a enganar a si mesmos - a viver uma vida de obviação 
que é o caminho para a iluminação. 
Nessas sociedades, assim como o curso normal do desenvolvimento, 
do "aprendendo a humanidade", envolve a criação e a superação de sin-
tomas histéricos, o caminho para o poder ou para a iluminação envolve 
sucumbir à histeria completamente, de modo a superar suas limitações. 
Essa é uma histeria mais severa, que atinge o noviço em idade madura ou 
10. Elenore Smith Bowen, Return to Laughter. Nova York: Doubleday, I964. 
161 
.,. 
pós-adolescente, frequentemente sob a forma de doenças, acessos, pos-
sessão, um "chamado" ou vocação. Viver isso até o final acarreta doen-
ças contínuas, ataques frequentes - uma luta contra a própria doença, 
vocação ou espírito possuidor até que algum controle sobre isso seja 
obtido: a pessoa "morre" e "nasce novamente", "cura-se", "casa-se com 
Cristo" ou atinge a união com algum ser espiritual. A "cura" é uma luta 
para restabelecer um equilíbrio entre invenção e convenção - nesse caso, 
mediante reversão do equilíbrio ortodoxo. 
A "doença" ou "possessão" é concebida como uma vitimização do 
eu convencional- a alma - pelo espírito ou poder. Os Daribi dizem que 
um fantasma descontrolado "come o fígado" de sua vítima, a fim de 
"abrir espaço para si mesmo". Enquanto o noviço continuar a identificar-
se com esse eu convencional, ao mesmo tempo que fabrica a representa-
ção de um "espírito" (como invenção descontrolada) que lhe demanda 
viver em um certo" estado" , os sintomas irão permanecer ou recrudescer. 
Ele está inventando "contra a convenção", contrafazendo um estado de 
ser que conflita com sua alma, sua motivação moral. (As mulheres daribi 
que perderam um marido ou um filho muitas vezes se tornam médiuns 
noviças dessa maneira; elas querem manter suas almas e ao mesmo tempo 
manter uma relação com o morto, cuja representação como fantasma 
assume precedência sobre sua própria vontade). No entanto, à medida 
que o noviço se aproxima cada vez mais de uma situação de "conexão", 
à medida que passa a identificar-se com o poder e o estado que está 
"contrafazendo", os sintomas histéricos começam a desaparecer, o fan-
tasma ou espírito se torna mais "controlado", menos desregrado. Por 
fim, quando a identificação plena é alcançada, o antigo noviço se torna 
capaz de precipitar a motivação do fantasma ou espírito como sua própria, 
e assim a tentar produzir os atos coletivizantes por meio dos quais ela é 
precipitada sem temor de vitimização. Suas ações, a moralidade que ele 
deliberadamente "constrói", tornam-se uma espécie de varinha mágica, 
um condutor de poder espiritual. 
162 A invenção do eu 
CAPÍTULO 5 
,'* 
A invenção da sociedade 
"MUDANÇA" CULTURAL: A CONVENÇÃO SOCIAL COMO FLUXO INVENTIVa 
Até aqui, viemos enfocando o ponto de vista do ator - do inventor - no 
fenômeno universal da invenção cultural. E mesmo se mantivermos em 
mente a cláusula de que o ator, em qualquer situação, pode ser uma pes-
soa, uma parte de uma pessoa, um grupo ou alguma outra entidade cul-
turalmente reconhecida, o fato é que o ator está sempre posto em alguma 
relação com a convenção. Ele pode "fazer" a convenção no sentido de 
articular deliberadamente contextos convencionais, ou pode subsumir a 
convenção como o contexto implícito de sua ação; ele de fato pode "con-
trafazer" um mundo convencional dele próprio, mas o convencional será 
sempre um fator. O modo como ele concebe sua motivação em relação 
à sua invenção (seu controle),