WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.138 materiais32.803 seguidores
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à "ilusão" à qual está necessariamente 
sujeito no curso da ação, é ditado pela convenção cultural. Ao analisar-
mos o fenômeno da invenção do ponto de vista do ator, foi necessário 
considerar as convenções de sua cultura - o que é entendido como "inato" 
em oposição àquilo que é visto como o reino "artificial" da manipulação 
humana - como relativamente estáticas. 
Obriguei assim o leitor a considerar a existência das "tradições" ou 
dos modos convencionais coletivizante e diferenciante como "dados". 
Mas a percepção das profundas diferenças conceituais e experienciais 
entre os dois modos coloca em primeiro plano a questão de saber como 
as coisas passaram a ser assim, como e por que essa profunda diferen-
ciação da humanidade veio à tona, como e por que ela se altera ou se 
mantém. Esse problema da "mudança" cultural, ou, em suas dimensões 
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mais amplas, da "evolução" cultural, équivale ao que chamarei aqui de 
a questão da "invenção da sociedade". 
O problema não é "evolutivo" no sentido antropológico ou sociobioló-
gico corrente, pois não há nada necessariamente "primitivo" numa "ideo-
logia" diferenciante, e nada necessariamente "avançado" numa "ideologia" 
coletivizante. Para além do fato de que todas as pessoas - a despeito de 
sua classe social ou de seu status supostamente "civilizado" - empreen-
dem, de tempos em tempos, ambos os modos de ação, a probabilidade de 
que os antepassados do homem urbano tenham todos vivido em regimes 
diferenciantes não é um sinal de sua prioridade ou "primitividade" evolu-
tiva. Pelo contrário, todas as civilizações mais "maduras" e estabelecidas 
há muito tempo que conhecemos enfatizam modos de pensamento e ação 
diferenciantes ou dialéticos. Esse fato torna problemática nossa tradicional 
obsessão com a "evolução" - com a invenção disfarçada de "progresso" -
e confere uma oportuna urgência à questão da invenção da sociedade. 
É por isso que escolhi assentar minha discussão sobre a simbolização 
humana nos termos mais amplos possíveis. Quando os aspectos contradi-
tórios e muitas vezes inimagináveis da "diferença cultural" emergem no 
decorrer de estudos muito mais sensíveis e particulares de mundos con-
ceituais específicos, como os de Ruth Benedict e Oswald Spengler (para 
mencionar apenas dois exemplos, bastante controversos), são frequen-
temente varridos para o limbo do simbólico" ou tratados 
com condescendência por meio de platitudes acerca de "ver" e "classifi-
car" o mundo diferentemente. Modos de ação diferenciantes e coletivi-
zantes e, é claro, todo pensamento e ação humanos, são invariavelmente 
contingências de contextos específicos, idiomas específicos e símbolos 
específicos. A tendência do analista, e do leitor igualmente, é perder-se 
nessa especificidade, deixar-se encantar de tal maneira pela força de idio-
mas exóticos que sua perspectiva global se perde em meio a um senso 
geral de ambiguidade relativista, ou em uma certeza sobre as "culturas 
orgânicas que cumprem seus destinos". "Diferenciação" e 
são abstrações abrangentes. É por isso que faço uso delas. 
As convenções que determinam qual desses estilos de ação humana 
deve ser compreendido como tal e moralmente aprovado dependem, elas 
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próprias, da invenção para que tenham continuidade. De, modo implícito 
ou explícito, a convenção é reinventada continuamente no curso da ação. 
Uma vez que essa continuidade supõe a invenção, ela pode ser, é claro, 
muitas vezes reinventada de maneiras que de algum modo se desviam 
de representações anteriores. A maior parte desses desvios, quer sejam 
graduais ou abruptos, coletivos ou individuais, equivalem a meras alte-
rações de imagística, como as ideologias dos cultos dos povos tribais ou 
os estilos de vestuário nos Estados Unidos. Quando, porém, ocorrem 
mudanças que servem para alterar a distinção entre o que é inato e o 
que é artificial, podemos falar de uma mudança convencional signifi-
cativa. Em casos individuais, isso corresponde a uma" contrafação" da 
convenção que é parte do processo de "tentativa e erro" do crescimento, 
ou mesmo da neurose ou histeria de um adulto. E pode culminar numa 
total inversão da convenção cultural por parte de um líder ou de uma 
pessoa criativa, ou de um esquizofrênico ou paranoico. 
As alterações mais impactantes da convenção são, no entanto, sociais, 
e envolvem um grande número de pessoas por meio das próprias bases de 
sua intercomunicação. Elas são, na verdade, inevitáveis, devido à troca de 
caracteristicas que invariavelmente deve acompanhar a objetificação. As 
línguas literalmente "falam a si mesmas" em outras línguas, e as socieda-
des vivem a si mesmas em novas formas sociais. Se compreendermos esses 
sintomas como consequências do uso de controles ambíguos ou relativi-
zados, em lugar de vê-los como condições da "mente" ou "psique" indi-
vidual, poderemos caracterizar o comportamento de movimentos sociais 
inteiros e mesmo de sociedades em termos de "neurose", "histeria" ou 
inversão convencional. Pois convenções mantidas coletivamente não são 
menos dependentes da invenção do que convenções pessoais, e quando as 
pessoas aderem coletivamente a uma determinada distinção entre o inato 
e o artificial, aplicando no entanto controles relativizados que obviam essa 
distinção dos Estados Unidos modernos, elas precipitam uma crise coletiva. 
Essa situação é tipica dos Estados Unidos modernos, onde o reino 
da ação humana se tornou "automático" e burocratizado para além 
do limite da "prestação de contas" responsável, ao passo que o reino do 
inato requer a constante intervenção humana (em termos de conservação, 
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medicação e assim por diante). A relativização também ocorre entre os 
povos tribais e religiosos, aparecendo sob a forma de "impotência" das 
formas rituais de ação em face de distúrbios espirituais, de deuses e espí-
ritos fora de controle. E, na medida em que toda ação humana é motivada 
pela necessidade de contrapor-se à relativização, essa mais extrema e uni-
versal manifestação da relativização coloca para o ator a mais urgente 
de todas as necessidades - a de inverter seu modo de ação e restaurar o 
equilíbrio convencional. Quanto mais uma restauração completa e efetiva 
é retardada ou postergada por medidas "paliativas" (como a propaganda 
e outras atividades "interpretativas", programas de "conservação" ou 
reorganização parcial), mais urgente se torna essa necessidade. 
As pessoas literalmente se inventam a partir de suas orientações con-
vencionais, e a maneira como essa tendência é contraposta e enfrentada 
constitui a chave para a sua automanipulação social e histórica, para a sua 
invenção da sociedade. Mas, antes de tratarmos das implicações de longo 
alcance dessa invenção, seria proveitoso obter alguma compreensão da 
convenção cultural como uma espécie de movimento ou fluxo inventivo, 
uma base "comunicacional" inteiramente sustentada pelo esforço inven-
tivo. Consideremos o exemplo da linguagem. 
A INVENÇÃO DA LINGUAGEM 
o conjunto de convenções mediante as quais certos sons ou grupos de 
sons são compreendidos como "representando" certas experiências e coi-
sas culturalmente reconhecidas, e mediante as quais esses sons são orde-
nados e transformados para articular uma expressão significativa - esse 
corpo de "concordâncias" a que chamamos "linguagem" -, é sempre 
parte do aspecto coletivo da cultura. Com suas distinções lexicais, gra-
maticais e retóricas, a linguagem é sempre parte do moral e pertence aos 
contextos (relativamente) convencionalizados de uma cultura. Em U;;jlli-
ções nas quais se sente que esses contextos convencionais representam a 
natureza" dada" de ser humano, a linguagem também é considerada parte 
dessa humanidade inata. O som de uma palavra é pensado como tendo 
I 68 A invenção da sociedade 
uma relação intrínseca