WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.132 materiais32.767 seguidores
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pouco se transformam em 
convenções da linguagem, as quais se tornam particularizadas e perdem 
seu status convencional. 
Desse modo, a natureza absolutamente convencional (ou" correta") 
das distinções lexicais e gramaticais, bem como a natureza absolutamente 
não determinada e voluntária das construções expressivas (como metáfo-
ras, figuras de linguagem e as orações que as contêm), sempre tem algo de 
ilusório. As convenções da linguagem sempre são, em alguma medida, rela-
tivas, pois como um elemento da contínua invenção do mundo a própria 
linguagem está sempre no processo de ser inventada. Geralmente, existem 
mais maneiras" corretas" alternativas de se fazer distinções linguísticas, e 
menos maneiras dotadas de significado, ainda que diferentes, de se descre-
ver uma situação ou fenômeno, do que tem consciência qualquer falante de 
uma língua. Isso porque qualquer falante ou comunidade de falantes dados 
precisa manter uma imagem e uma prática daquilo que é convencional e 
daquilo que é não convencionalizado no que diz respeito ao uso da língua, 
assim como precisa fazê-lo com respeito aos outros contextos da cultura. 
Em vez de ser um conjunto delimitado de convenções (sintáticas, 
gramaticais e lexicais) que podem ser rearranjadas em várias combina-
ções para descrever o mundo e suas situações, toda língua constitui um 
espectro de formas sonoras mais ou menos convencionalizadas, 
desde distinções puramente sistemáticas (como as da sintaxe e gramática) 
até construções analógicas evocativas que "descrevem" (e inventam) o 
mundo da fala. Num extremo está o conjunto de distinções e precedentes 
172 A invenção da sociedade 
que ordenam e arranjam o fato da articulação verbal em si por meio de 
seus contrastes sistemáticos, conquanto a ordem que eles manifestam seja 
apenas a da convenção e não possua nenhum "conteúdo" expressivo. No 
outro extremo estão os constructos expressivos que usam um controle 
ou outro na atividade objetificante da "fala". Esses COnstructos têm um 
conteúdo expressivo distinto das formas convencionais por meio das 
quais são ordenados. Esse conteúdo - e, na verdade, o controle utilizado 
em sua objetificação - pode de fato ser bastante convencionalizado ou 
até mesmo constituir um lugar-comum do ponto de vista da cultura do 
falante, mas enquanto permanecer distinto como tema do discurso, não 
entrará na ordem convencional da linguagem. Mas quando começamos 
a usar um tal constructo como uma "figura de linguagem" em contex-
tos exteriores àqueles de sua expressão original, quando tornamos sua 
imagística uma parte da nossa imagística para dizer coisas em geral, ele 
se torna uma "maneira de dizer algo" convencionalmente reconhecida. 
O uso de um constructo figurativo para facilitar a formação de 
outros constructos figurativos, a despeito de quão raros ou esporádi-
cos sejam, equivale à convencionalização linguística de algo que ante-
riormente era um controle não convencionalizado. O que consistia pre-
viamente em uma parte do conteúdo da fala foi introduzido no leque 
de formas relativamente convencionalizadas que se distribuem em uma 
escala entre os constructos expressivos e as ordens sistêmicas da sintaxe 
e gramática. É difícil determinar o quanto clichês como "do meu ponto 
de vista" ou "até segunda ordem" devem ser vistos como pertencentes 
à "língua" ou não. Eles são convencionalizados a ponto de que a maio-
ria dos falantes sabe o que significam ou mesmo conta com que sejam 
usados, e, no entanto, retêm um caráter alternativo, na medida em que 
outros arranjos de palavras podem substituí-los livremente, sem prejuízo 
da "correção" ou da aceitabilidade linguística. Sua relação analógica COm 
os contextos originais no domínio do discurso é também visível, pois lan-
çamos mão dessa "imagística" ao usá-los - "ponto de vista" evoca uma 
imagem de mudanças relativas na aparência de um objeto quando visto 
de ângulos diferentes. Mas essa imagística é comumente tão desgastada 
pelo uso Constante (convencionalização) que acaba sendo "tomada por 
173 
certa" e perdida. As pessoas frequentemente classificam tais "figuras de 
linguagem" como parte da retórica ou do "uso da linguagem", mas elas 
são bons exemplos da relatividade dos controles convencionais. 
As palavras, da mesma maneira, são formadas pela convenciona-
lização de constructos analógicos, e a convencionalização relativa de 
uma palavra pode ser medida pelo grau em que sua base metafórica 
permanece evidente. "Disco voador" é um termo ainda "novo" sob 
esse aspecto, e retém algo de sua significância metafórica original, mas 
"aeroplano", "dona de casa" [housewife, literalmente "esposa da casa"] 
representam convencionalizações mais firmemente arraigadas, e nor-
malmente não consideramos suas origens analógicas, a não ser que algo 
chame a nossa atenção para elas. Finalmente, a base analógica de "cul-
tura" só se torna aparente na similaridade dessa palavra com as formas 
do verbo "cultivar", enquanto palavras como "casa" [house] e "dona" 
[wiJe, "esposa"] há muito ultrapassaram os limites de qualquer reconhe-
cimento analógico. Muitas vezes, abreviações e acrônimos (como "nazi" 
ou "PM", OVNI ou DVD) ou combinações de palavras tomadas de outras 
línguas (como "laptop", "pick-up" ou "telecinese") são usados para faci-
litar a convencionalização de novos constructos, obscurecendo suas bases 
analógicas ou tornando-as comparativamente inacessíveis. E todavia, a 
convencionalização de palavras, como a de outros tipos de constructos, 
é compreensível como parte de um processo gradual de convencionali-
zação dos controles usados de modo alternativo (qualquer que seja seu 
status convencional na cultura em geral) para criar o "conteúdo" da 
fala. É tão difícil determinar as fronteiras do vocabulário de uma língua 
quanto definir seus outros elementos formais. 
A convencionalização continua a operar sobre os constructos semia-
nalógicos que formam a fluida e vaga "fronteira" da linguagem, mas de 
uma maneira seletiva, de modo que os de uso mais comum acabam por 
perder totalmente sua natureza figurativa e se tornam parte da ordem 
sistêmica da sintaxe, da gramática ou do léxico. N osso uso dos auxilia:us 
"have" e "will"para formar o passado e o futuro dos verbos [em inglês] é 
um exemplo disso. Esses verbos praticamente perderam seus respectivos 
sentidos de "possuir" e "querer" (volição) nesses contextos gramaticais, 
174 A inyenção da sociedade 
embora ainda seja possível imaginar como eles foram selecionados para 
esses usos (uma vez que "possuir" implica uma ação passada e "volição" 
uma ação futura). Outros aspectos sistêmicos da linguagem, como os ele-
mentos da ordem de palavras ou as flexões verbais em - ed ou - ing [para 
formar respectivamente o pretérito e o infinitivo ou gerúndio] no inglês, 
não permitem sequer esse grau de reconstrução analógica, exceto talvez 
por especialistas. Mas a convencionalização continua a operar meSmo 
sobre esses elementos mais altamente abstraídos e sistematizados da lin-
guagem, regularizando formas aberrantes e reunindo-as em um padrão 
mais consistente. Exemplos abrangentes e bem escolhidos desse processo 
no inglês e em outras línguas podem ser encontrados no excelente estudo 
de Edward Sapir, A linguagem: introdução ao estudo da fala. 1 
Em paralelo ao processo de convencionalização linguística em todos 
os níveis de convencionalidade relativa está sempre em operação um con-
traprocesso de diferenciação ou particularização das convenções da lin-
guagem. Sejam os elementos da linguagem usados ativamente como con-
trole ou sirvam eles como um contexto para outros controles, os encontros 
com os contextos particulares de fala têm o efeito de objetificá-Ios e con-
ferir-lhes caracteristicas altamente específicas. Quando uma determinada 
palavra, expressão ou elemento gramatical ocorre com frequência em 
um contexto em detrimento