WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


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de outros, adquire as associações peculiares 
daquele contexto, a ponto de perder seu status convencional. Podemos 
dizer que os elementos linguísticos gerais se tornam dessa maneira" espe-
cializados" - eles são "selecionados", consciente ou inconscientemente, 
para ser usados em certos contextos, de modo que a maior parte de suas 
associações dotadas de significado acaba por vir desses contextos. 
Por vezes essa seleção constitui uma tendência geral entre os falan-
tes de uma língua, e então as palavras, formas gramaticais ou retóri-
cas sofrem uma mudança no que se refere à sua significação linguística 
global. Em outros casos a seleção corresponde a preferências e hábitos 
de um certo contexto social, educacional ou ocupacional particular, ou 
1. Edward Sapir, A linguagem: introdução ao estudo da fala. São Paulo: Perspectiva, [I921 J 
1980. 
175 I 
de alguma classe ou grupo regional, resultando na diferenciação da pró-
pria linguagem em "estilos" e dialetos particulares. Em ambos os casos 
o processo opera no sentido de particularizar e diferenciar as proprie-
dades coletivas da linguagem por meio dos diversos conteúdos e situa-
ções de fala para "des-convencionalizá-Ios" de uma maneira ou de outra. 
Palavras individuais, expressões e usos gramaticais são com frequên-
cia particularizados a ponto de sua aplicabilidade convencional ver-se gra-
dualmente restringida. Há evidências de que outrora nossa palavra "deu" 
[cervo 1 designava animais em geral, assim como seu cognato germânico 
"Tier" - Shakespeare fala em "mice and olher small deer" [camundongos e 
outros animais pequenos l. Depois a palavra passou a ser empregada tão 
exclusivamente em referên<;:ia a algumas poucas espécies que agora tem 
para nós associações muito mais restritas. De modo similar, a palavra 
&quot;notorious&quot; [famigerado] já foi um dia sinônimo bastante &quot;neutro&quot; para 
&quot;famoso&quot; ou &quot;publicamente conhecido&quot;, mas adquiriu gradualmente cono-
tações ominosas em razão de uma tendência a aplicá-Ia apenas a malfeito-
res. Da mesma maneira, figuras de linguagem com frequência assumem 
uma significação contextual muito específica: podemos &quot;desembarcar de&quot; 
e &quot;fretar&quot; navios, ônibus e aviões, mas não automóveis, ao passo que auto-
móveis podem &quot;morrer&quot; e &quot;estacionar&quot;, mas navios não. 
Os contextos em que a linguagem é aplicada podem ser diferencia-
dos social ou regionalmente, bem como distintos topicamente, e esse tipo 
de diferenciação também exerce efeitos sobre a objetificação de elemen-
tos linguísticos. O vocabulário e a retórica das tradicionais &quot;classes supe-
riores&quot; britânicas foram por muito tempo sujeitos a uma objetificação por 
meio do uso de elementos do francês e do latim, uma vez que o contato 
com essas línguas era um traço significativo no contexto da vida aristo-
crática e profissional. Assim, o inglês da &quot;classe superior&quot; se diferenciou 
como um dialeto social distinto dos estilos dos comerciantes, dos traba-
lhadores ou do homem do campo de várias partes da ilha. Estes últimos, 
porém, falavam dialetos regionais, formas do inglês que se 
por meio da presença contextual do celta, do nórdico ou de outros idio-
mas germânicos. E mesmo nos lugares em que tais &quot;influências&quot; não são 
um fator relevante, a distintividade contextual de comunidades de fala 
176 A invençiW da sociedade 
sociais, ocupacionais e regionais exerce um efeito diferenciante sobre as 
convenções da linguagem. Profissionais qualificados norte-americanos 
falam um dialeto &quot;de classe&quot; bastante padronizado, fortemente influen-
ciado pelo &quot;academiquês&quot; de sua formação e pelos idiomas padroniza-
dos do jornalismo. Além disso, e especialmente entre profissionais não 
qualificados, o &quot;inglês americano&quot; sofre uma contínua diferenciação em 
jargões e dialetos regionais, ocupacionais e coloquiais. 
Tanto a convencionalização linguística de constructos discursivos 
correntes, mediante a qual uma linguagem coletiva é formada, quanto a 
diferenciação de usos linguísticos convencionais, mediante a qual ela é frag-
mentada e particularizada (e dialetos - &quot;línguas&quot; individuais _ são forma-
dos) contribuem para uma relatividade contínua da convenção linguística. 
Uma vez que elas são consequências necessárias da objetificação, e uma vez 
que a fala é necessariamente um processo de objetificação, a relatividade 
convencional é um atributo permanente de todas as línguas vivas. Uma 
língua jamais pode se tornar estática ou definitivamente delimitada; ela está 
sempre lançando mão de constructos figurativos da fala e assimilando-os 
gradualmente a seu formato convencional, bem como está sempre per-
dendo a viabilidade comunicável e convencional de elementos à medida 
que estes vão sendo gradualmente particularizados. A relatividade da con-
venção linguística é consequência de uma contínua e necessária mudança. 
Contudo, essa relatividade quase nunca é perceptível para os que 
convivem com uma língua. Para eles, a objetificação da linguagem e de 
seus temas acarreta as mesmas implicações e consequências que todos os 
outros tipos de objetificação - a saber, incide diretamente sobre seu &quot;ser&quot; 
e &quot;fazer&quot; e sobre as motivações que envolvem. Se escolhemos abstrair e 
simplificar a convencionalização e a particularização linguísticas a ponto 
de chamá-las &quot;processos&quot;, devemos ter em mente que tais &quot;processos&quot; 
estão completa e invariavelmente incorporados na motivação e invenção 
humanas, pois a linguagem, tanto quanto a cultura, não pode existir fora 
das situações emocionais e criativas da vida humana. Sob circunstâncias 
variantes, a linguagem pode assumir a forma de um controle coletivi-
zante, motivado pela invenção da &quot;fala&quot;, ou pode servir de motivação 
convencional precipitada pela imagistica da fala. 
177 
Nos casos em que a linguagem é normalmente empregada como um 
controle coletivizante, a objetificação de seus contextos formais é expe-
rienciada coma o resultado previsível de tendências &quot;naturais&quot; (como 
aquelas do eu &quot;natural&quot;). Os americanos de classe média veem como 
inevitáveis os efeitos de seu mundo factual e histórico sobre a língua 
(mudanças de palavras e expressões em virtude de mudanças na tecnO-
logia, nas &quot;influências&quot; ou no meio ambiente; formação de jargões e 
dialetos em consequência de especialização ou isolamento). Pela mesma 
razão, eles são motivados a se contrapor a essas mudanças &quot;naturais&quot; 
coletivizando conscientemente: compilando e empregando dicionários e 
gramáticas, ensinando e aprendendo sua língua, engendrando acrônimos 
e outras formas artificialmente&quot; convencionalizadas&quot; , criando dialetos 
&quot;padronizados&quot; , linguagens artificiais, códigos e sistemas de processa-
mento de dados, tudo em prol da &quot;comunicação&quot;. 
Quando os recursOS linguísticos habituais de uma pessoa falham, 
seja porque ela está ainda &quot;aprendendo&quot; a língua e não consegue fazer 
justiça a uma determinada situação de fala, ou porque as formas disponí-
veis estão tão convencionalizaclas que se tornam &quot;banais&quot;, ela é forçada 
a inverter os controles e &quot;inventar a linguagem&quot; mediante a articula-
ção deliberada de construções &quot;discursivas&quot; (metafóricas). Essa inver-
são, o equivalente linguístico da &quot;invenção consciente&quot; que chamamos 
de &quot;personalidade&quot;, é tão importante no aprendizado da fala quanto nO 
aprendizado do eu. Ela é especialmente característica da fala de crianças 
pequenas (que podemos escolher chamar de &quot;brincadeira linguística&quot;), 
e corresponde àquele aspecto do falar formalmente invisível que N oam 
Chomsky caracterizou como &quot;performance&quot; em contraste com a &quot;com-
petência&quot; da construção sintática e gramatical deliberada. &quot;Performance&quot; 
é simplesmente a capacidade de articular o &quot;mundo&quot;, a imagística dos 
constructoS de fala diferenciantes; é a &quot;poesia&quot; que os românticos imagi-
naram ser a forma original da linguagem. Ela é inventada como &quot;inata&quot; e 
como um mistério fascinante (assim como a &quot;personalidade&quot;