WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


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sua ação. Elas encenam 
as contradições dialéticas e motivacionais de modo consciente em sua 
administração dos papéis, rituais e situações, e assim reconstituem con-
tinuamente o convencional. Culturas que medeiam a dialética por meio 
do convencional, por outro lado, padronizam seu pensamento e sua ação 
segundo um modelo de articulação coerente, racional e sistemático, enfa-
tizando a evitação do paradoxo e da contradição. Lançando mão de um 
familiar idioma freudiano, podemos dizer que essas culturas "reprimem" 
a dialética, embora ao fazê-lo passem a incorporá-la em suas próprias 
histórias - são "usadas" por ela. 
Os acadêmicos modernos talvez prefiram ver esse contraste como 
um contraste entre diferentes "lógicas": uma lógica dialética e tempo-
ral (isto é, que enfatiza o valor cambiante das proposições no tempo) 
versus uma lógica linear e não temporal. 2 E no entanto, como muitos de 
nós fomos ensinados a considerar a lógica como sendo de algum modo 
2. Aqueles interessados em explorar essa distinção do ponto de vista da lógica deveriam 
consultar o livro Laws of Form, de G. Spencer Brown (Londres: Allen and Unwin, 1969), 
discussão brilhante similar à que se encontra num ensaio inédito de J. David Cole intitu-
lado "An Introduction to Psycho-Serial Systems and Systematics" (1968). Cole 
que "não é necessário que os atos tenham ideias por trás de si: eles assumem seu lugar 
em qualquer cadeia de eventos psicosseriais como partes de um processo racional. Quando 
procuramos a ideia por trás de uma ação estamos meramente procurando elaborar seu 
significado" (p. 1). 
182 A invenção da sociedade 
antitética à emoção e à motivação, o termo "lógica" poderia se mostrar 
perigoso e enganador, como na caracterização de Lévy-Bruhl do pensa-
mento dialético como "pré-lógico" ou "mágico". O efeito dessa hipér-
bole (bem como dos ainda menos palatáveis idiomas da "primitividade" 
e do "homem da idade da pedra") é tornar o problema do pensar um 
aspecto supremo da nossa abordagem da cultura. Uma vez que o pensa-
mento é inseparável da ação e da motivação, não estamos lidando tanto 
com diferentes "lógicas" ou racionalidades quanto com modos totais de 
ser, de inventar o eu e a sociedade. Um modo de invenção consciente-
mente dialético é característico de algumas das mais sofisticadas tradições 
que conhecemos, e abordagens lineares, racionalistas, também foram 
amplamente disseminadas nas grandes civilizações. 
A natureza dialética do pensamento e da ação em sociedades tribais 
há muito tempo constitui uma experiência dos etnógrafos, não importa 
o que eles escolham fazer teoricamente com ela. Apreendidos seja como 
sabedoria extraordinária (um daribi certa vez me disse: "Um homem 
é pequeno; quando você fala o nome dele, ele é grande"), seja como 
observação perspicaz (como no caso daquele esquimó "ecológico" que 
diz que "o lobo mantém a rena forte e a rena mantém forte o lobo"), os 
comentários dos sujeitos estudados pelo antropólogo muitas vezes apon-
tam precisamente para as dependências que ele está tentando capturar. 
Autores como Lévi-Strauss reuniram volumes de exemplos da natureza 
dialética do cerimonial nessas sociedades. Talvez a melhor caracteriza-
ção geral do fen6meno possa ser encontrada nas observações de Bateson 
sobre a "dualidade" entre os latmul da Nova Guiné: 
Devemos ver o desenvolvimento de sistemas alternados na cultura iat-
mui e sua ausência em nossa própn'a cultura como uma função dó fato de, 
entre os latmul, amóos os padrões, complementar e assimém'co, serem 
pensados em termos duais, ao passo que na Europa, emóora entendamos 
os padrões complementares como duais ou dispostos em hierarquias, não 
pensamos nos padrões de rivalidade e ou competição como necessaria-
mente duais. Em nossas comunidades, rivalidade e competição são con-
cebidas como algo que se dá entre qualquer número de pessoas, e não há 
181 
.. 
nenhuma suposição de que o sistema resultante se tornará o padrão de 
qualquer tipo de simem·a bilateral. Apenas se ambos os tipos de relação 
forem habitualmente considerados em termos duais será provável o desen-
volvimento de hierarquias alternadas do tipo que ocorre entre os iatmul.3 
Assim como muitos povos tribais (mas de modo algum todos), os Iatmul 
simplificaram o aspecto ritual ("inverso" ou ((antimotivacional") de sua 
cultura conceitualizanclo-o em termos dualistas. Provêm assim um per-
feito exemplo da autoinvenção dialética na sociedade tribal, pois permitem 
ao etnógrafo objetificar o processo dialético em termos de "dualidade". 
Os atos coletivizantes mediante os quais os Iatmul criam os "dados" da vida 
e recarregam os símbolos de sua existência diferenciante ordinária assu-
mem a forma de relações de oposição e competição entre duas "metades" 
da sociedade. Isso inclui a cerimônia do naven, que celebra a autoafirmação 
de um indivíduo ou sua conquista de certo status cultural (em especial os 
"primeiros" atos de uma criança: a primeira utilização de um implemento, 
o primeiro animal abatido, o primeiro ato de troca), a iniciação dos jovens, 
as trocas matrimoniais e os debates cerimoniais em que as origens e a ances-
tralidade do mundo social e fenomênico são estabelecidas. Todos têm a ver 
com a criação ritual das coisas: das pessoas (nas cerimônias do naven e na 
iniciação), das famílias (no casamento) e das realidades sociais e fenom&-
nicas do mundo (nos debates cerimoniais). Todos são conceitualizados e 
realizados em termos da interação dialética entre as duas metades, que tanto 
dependem uma da outra quanto se opõem e contradizem entre si. 
Mesmo quando não são concebidos sob tais formas explicitamente 
dualistas, os aspectos rituais e "criativos" das culturas tribais manifestam 
uma conceitualização dialética. Os Oaribi não têm metades - as unida-
des individuais casam entre si à vontade, e no entanto todo casamento 
envolve os papéis opostos de "doador de esposa" e "receptor de esposa"-, 
e aqueles casamentos que produzem uma prole levam a relações entre "os 
'.-
3. Gregory Bateson, Nayen: Um exame dos problemas sugen·dos por um retrato compósito da 
cultura de uma tn'ho da NOYa Guiné, desenhado a partir de três perspectivas, trad. Magda Lopes. 
São Paulo: Edusp, [1958] 2008, pp. 3°4-0,. 
184 A invençM da sociedade 
do lado da mãe" e "os do lado do pai" que se assemelham àquelas do naYen 
íamul. Quando uma comunidade daribi se dedica a restabelecer a conexão 
com fantasmas que ameaçam seu bem-estar, subdivide-se em duas seções 
rituais opostas - na cerimônia do habu, os "homens do habu" (que assu-
mem o papel dos fantasmas) versus os "homens da casa"; na cerimônia do 
tabuleiro gema pintado, que acompanha um banquete de carne de porco, 
os "donos do gema" versus os que personificam os fantasmas. Embora lhes 
falte o esquema amplo, englobante, das metades universalmente opostas, 
os Oaribi mantêm a natureza dialética da atividade criativa mediante mui-
tas aplicações sociais e cerimoniais específicas. 
As observações de Bateson também sugerem que as atividades ordi-
nárias ("complementares" ou diferenciantes) dos povos tribais são por eles 
compreendidas em termos dialéticos. As relações homem/mulher (e, igual-
mente, Outras formas de individuação e separação) podem ser vistas como 
atos de diferenciação consciente contra um fundo de similaridade comum 
(a "alma" e outras coletividades da cultura), e desse modo como uma dia-
lética entre o particular e o geral, entre homem e mulher e assim por diante. 
Há inúmeros exemplos na literatura antropológica que apoiam essa suges-
tão. Em Naven, Bateson discute longamente a oposição gerativa ("cismogê-
nese complementar") entre o "estilo" pessoal ou ethos dos homens e o das 
mulheres, dando a entender que para os Iatmul viver como um homem ou 
como uma mulher envolve a participação numa interação essencialmente 
dialética. O movimento J amaa de Katanga,