WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


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na África, que se desenvolveu a 
partir do confronto de formas conceituais nativas com tentativas ocidentais 
de industrialização, afirma essa dialética "doméstica" de forma epigramá-
tica: "O marido nascerá de sua esposa; a esposa nascerá de seu marido".4 
Tomada como um todo, pois, a autoinvenção das sociedades tribais 
é vivida (isto é, motivada no interior dos participantes) e conceitualizada 
como uma alternância criativa entre dois conjuntos básicos de relações, 
4· Johannes Fabian,jamaa: A Charismatic Moyement in Katanga. Evanston: Northwestern 
Universiry Press, 197', p. 149·jamaa significa "família", e a doutrina do movimento em-
prega conscientemente o conceito dialético de "geração mútua" (leu.-sala, cf. pp. 132, 149) 
implicito na relação marido/mulher para caracterizar sua unidade. 
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cada qual concebido em termos dialéticos. Como as observações de Bate-
son indicam, a natureza dialética ou "dual" de cada conjunto de relações 
reflete e reforça a do outro; o caráter "dualista" das ações e instituições 
iarmul corresponde ao fato de que os larmul pensam e agem - e portanto 
inventam a si mesmos e a sua sociedade - dialeticamente. Eles medeiam 
as convenções de sua cultura por meio da dialética, em vez do contrá-
rio. O conjunto de relações que engloba a atividade ordinária (diferen-
ciante), identificada com as motivações do eu, e o conjunto de relações que 
corresponde à atividade "ritual" (coletivizante), motivada pelos "pode-
res" - os seres e forças antropomórficos que criam a vida do homem e seu 
modo de ser -, encontram-se em uma relação mutuamente contraditória 
e criativa. Assim, nessa concepção inerentemente dialética do homem e 
do mundo a totalidade das coisas também é entendida dialeticamente; as 
oposições diferenciantes da vida cotidiana (masculino versus feminino) 
tanto criam aquelas das atividades rituais e cerimoniais (isto é, as oposi-
ções "religiosas" entre o homem e os "poderes" do mundo) quanto são 
criadas por elas. Cada qual é ao mesmo tempo adversa e necessária à outra. 
Os atos e papéis diferenciantes da existência cotidiana criam coletivi-
dade e comunidade; os atos coletivizantes do ritual e do cerimonial criam as 
identidades, papéis e outros aspectos diferenciantes da existência ordinária. 
Uma vez que a alternância entre esses dois modos é ela própria concebida 
dialeticamente, cada conjunto de relações pode ser entendido como "traba-
lhando contra" o outro. A "resistência" aos atos diferenciantes produzida 
pela coletivização dos controles motiva os atores a novos esforços de dife-
renciação; a diferenciação dos controles coletivizantes, por sua vez, motiva 
os atores a esforços adicionais de coletivização. Assim, cada modo de ati-
vidade retém a capacidade para contradizer e negar o outro, e cada qual é 
executado de tal maneira que exclui o outro. Elementos rituais e cerimoniais 
(máscaras, trajes, apetrechos e fórmulas) são considerados "perigosos" para 
as relações e circunstâncias domésticas e mantidos à parte delas. As ativi-
dades cerimoniais são realizadas no mais das vezes em ambientes retiraclt>s, 
a salvo da "profanação" da vida doméstica ordinária. Separações desse 
tipo ocorrem sob uma espantosa variedade de formas etnográficas (tais 
como "casas-dos-homens", tabus, retiro e isolamento cerimonial), mas sua 
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tendência básica é a da própria dialética: manter uma concepção e orienta-
ção particulares do eu em relação ao mundo dos "poderes". 
Uma vez que os dois modos são concebidos como antitéticos, a nega-
ção ou comprometimento de um deles leva automaticamente ao outro. 
Quando ações próprias a um tipo de papel de parentesco são incluídas no 
desempenho de um outro papel, como no ato do incesto, o efeito é tanto 
o de comprometer o modo de diferenciação ordinário quanto o de "desu-
manizar" o ator, fazendo com que ele invente um eu não antropomórfico.5 
Em partes da Nova Guiné e da Austrália, as mais rigorosas restrições de 
parentesco envolvem um homem e a mãe de sua esposa; à luz disso, é signi-
ficativo que entre os Aranda da Austrália Central (onde o mesmo se aplica) 
algumas cerimônias sagradas incluam atos de conexão sexual entre parentes 
nessas categorias. A intenção, de fato, é precisamente a de negar o modo 
de atividade ordinário, para que o estado socializado do homem possa ser 
revogado e a ordem das coisas "criativa" primai (alcheringa) seja restaurada. 
Na cerimônia do habu daribi, que deve ser executada exclusivamente pelos 
homens para ser bem-sucedida, as mulheres comparecem em trajes mascu-
linos e entoam versos em que suplicam que lhes seja permitido participar, 
com o que provocam os participantes. Ameaçando" complementar" uma 
atividade ritual por vias "profanas", elas põem os homens "à prova" e ser-
vem para motivar sua performance cerimonial. Finalmente, na conclusão 
desta, as mulheres aparecem mais uma vez travestidas e carregam um mas-
tro em barulhenta procissão pelo corredor central da casa onde a cerimônia 
termina, um ato de manifesta oposição aos homens que nega a oposição 
cerimonial (entre "homens da casa" e "homens do habu") ao reinstaurar 
aquela, mais ordinária, da complementaridade masculino/ feminino. 
Os povos tribais criam o eu e a sociedade episodicamente, mediante 
uma alternância de oposições relacionais contrastantes. Embora contra-
balancem as atividades coletivizantes do ritual com aquelas diferencian-
tes da vida cotidiana, conceitualizam ambos os modos de ação em ter-
mos oposicionais, diferenciantes. Trata-se de uma cultura de oposições 
5· Ver R. Wagner, "Incest and Identity: A Critique and Theory on the Subject of Exogamy 
and Incest Prohibition". Man, voI. 7, n. 4, 1972, pp. 601- 13. 
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mutuamente opostas, por assim dizer - uma dialética entre o sagrado e 
o profano, ou entre a alma e o "poder" antropomórfico, cuja expressão 
e rediferenciação contínuas equivalem a nada mais nada menos que a 
invenção permanente da sociedade. Ao continuamente diferenciar cada 
conjunto de oposições do outro, ao isolá-lo e protegê-lo da profanação 
ou da contaminação, ao ativá-lo deliberadamente para negar o outro, os 
povos tribais objetificam sua orientação convencional do eu em relação 
ao mundo. Eles medeiam o convencional por meio da dialética. 
É por isso que insistem tanto sobre as distinções e fronteiras entre 
essas modalidades, pois tal diferenciação constitui o próprio âmago de 
sua autoinvenção social. Exatamente como o eu coletivo é inventado por 
meio das atividades conscientemente diferenciantes do indivíduo, uma 
orientação convencional de um eu desse tipo em relação a um mundo 
de "poderes" é inventada e sustentada pela diferenciação entre contextos 
"sagrados" e "profanos" por parte da sociedade mais ampla. Ao inven-
tar as relações das atividades rituais e cotidianas umas contra as outras, 
eles contrainventam a totalidade, o quadro de referência conceitual, que 
inclui ambas. Os tabus, precauções e outras práticas e elementos que 
distinguem o "sagrado" do "profano" ou do "secular" situam-se bem 
no centro da vida porque constituem os meios da autoinvenção social, 
e não porque os povos tribais são obcecados pelo temor do incesto, por 
exemplo, ou são presa de ansiedades pairantes. 
A sociedade, nesse caso, é concebida e operada (a partir de "den-
tro") como um conjunto de dispositivos (diferenciantes) para elicitar 
coerência e similaridade, e suas distinções mais básicas são aquelas que 
"juntam as peças do mundo". Muitas vezes os mesmos indivíduos são 
obrigados a desempenhar tanto os papéis" cotidianos" quanto os "criati-
vos" como papéis explícitos, ainda que em ocasiões diferentes. O homem 
aranda, que habitualmente vive diferenciando seu papel contra o de sua 
esposa e família, precisa, em certas ocasiões "rituais", diferenciar a si 
mesmo contra a sociedade transformando-se