WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.
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WAGNER, Roy. 2010 (1975). A presunção da cultura. Em A invenção da cultura. São Paulo Cosac Naify, pp. 27 46.


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.132 materiais32.767 seguidores
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daquela que ele já conhece; deve antes 
"assumi-la" de modo a experimentar uma transformação de seu próprio 
universo. Da perspectiva do trabalho de campo, "virar nativo" é tão inútil 
quanto permanecer no aeroporto ou no hotel fabricando histórias sobre 
os nativos: em nenhum dos casos haverá qualquer possibilidade de uma 
significativa relação (e invenção) de culturas. É ingênuo sugerir que virar 
nativo é a única maneira de alguém "aprender" efetivamente outra cul-
tura, pois isso exigiria abrir mão da sua própria cultura. Assim sendo, já 
que todo esforço para conhecer outra cultura deve no mínimo começar 
por um ato de invenção, o aspirante a nativo só conseguiria ingressar num 
mundo criado por ele mesmo, como faria um esquizofrênico ou aquele 
apócrifo pintor chinês que, perseguido por credores, pintou um ganso 
na parede, montou nele e fugiu voando! 
A cultura é tornada visível pelo choque cultural, pelo ato de subme-
ter-se a situações que excedem a competência interpessoal ordinária e de 
objetificar a discrepância como uma entidade - ela é delineada por meio 
de uma concretização inventiva dessa entidade após a experiência inicial. 
Para o antropólogo, esse delineamento comumente segue as expectativas 
antropológicas quanto ao que a cultura e a diferença cultural deveriam ser. 
U ma vez que a concretização ocorre, o pesquisador adquire uma cons-
ciência intensificada dos tipos de diferenças e similaridades implicadas pelo 
termo "cultura" e começa a usá-lo cada vez mais como um constructo 
explanatório. Ele começa a ver seu próprio modo de vida em nítido relevo 
contra o pano de fundo das outras ('culturas" que conhece, e pode ten-
tar conscientemente ohjetificá-Io (por mais que esse modo de vida esteja 
('ali", por implicação ao menos, nas analogias que ele já criou). Assim, a 
invenção das culturas, e da cultura em geral, muitas vezes começa com 
a invenção de uma cultura particular, e esta, por força do processo de 
invenção, ao mesmo tempo é e não é a própria cultura do inventor. 
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Rafael Devos
Rafael Devos
Rafael Devos
Rafael Devos
A peculiar situação do antropólogo em campo, participando simulta-
neamente de dois universos de significado e ação distintos, exige que ele 
se relacione com seus objetos de pesquisa como um "forasteiro" - ten-
tando "aprender" e adentrar seu modo de vida - ao mesmo tempo em 
que se relaciona com sua própria cultura como uma espécie de "nativo" 
metafórico. Para ambos os grupos ele é um estranho profissional, uma 
pessoa que se mantém a certa distância de suas vidas a fim de ganhar pers-
pectiva. Essa "estranheza" e o caráter "interposto" do antropólogo são 
motivo de muitos equívocos e exageros por parte daqueles COm quem ele 
entra em contato: os de sua própria sociedade imaginam que ele "virou 
nativo" , ao passo que os nativos muitas vezes acham que ele é espião ou 
agente do governo. Por mais perturbadoras que possam ser tais suspeitas, 
elas são menos importantes do que o impacto da situação sobre o próprio 
antropólogo. Na medida em que ele funciona como uma "ponte" ou um 
ponto de conexão entre dois modos de vida, ele cria para si mesmo a ilu-
são de transcendê-los. Isso explica muito do poder que a antropologia 
tem sobre seus convertidos: sua mensagem evangélica atrai pessoas que 
desejam se emancipar de suas culturas. 
U ma emancipação pode efetivamente vir a ocorrer, menos pelo fato 
de o pesquisador ter conseguido "escapar" do que pela circunstância 
de ter encontrado um novo e poderoso "controle" sobre sua invenção. 
'A relação por ele criada amarra o inventor quase tanto quanto as "cul-
turas" que ele inventa. A experiência da cultura, dotada da formidável 
realidade das dificuldades nela envolvidas, confere ao seu pensamento e 
a seus sentimentos aquela convicção que a confirmação da crença parece 
sempre proporcionar a seus adeptos. 
A INVENÇÃO OA CULTURA 
A antropologia é o estudo do homem "como se" houvesse 
ganha vida por meio da invenção da cultura, tanto no sentido geral, como 
um conceito, quanto no sentido específico, mediante a invenção de cul-
turas particulares. Uma vez que a antropologia existe por meio da ideia 
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de cultura, esta tornou-se seu idioma geral, uma maneira de falar sobre 
as coisas, compreendê-Ias e lidar com elas. É incidental questionar se as 
culturas existem. Elas existem em razão do fato de terem sido inventadas 
e em razão da efetividade dessa invenção. 
Essa invenção não necessariamente se dá no curso do trabalbo de 
campo; pode-se dizer que ela ocorre toda vez e onde quer que algum con-
junto de convenções "alienígena" ou "estrangeiro" seja posto em relação 
com o do sujeito. O trabalbo de campo é um exemplo particularmente 
instrutivo porque desenvolve tal relação a partir da situação de campo e 
dos problemas pessoais dela derivados. Mas muitos antropólogos jamais 
fazem trabalho de campo, e para muitos que o fazem trata-se apenas de um 
caso particular (embora altamente instrutivo) da invenção da cultura. Essa 
invenção, por sua vez, faz parte do fenômeno mais geral da criatividade 
humana - transforma a mera pressuposição da cultura numa arte criativa. 
Um antropólogo denomina a situação que ele está estudando como 
"cultura" antes de mais nada para poder compreendê-la em termos familia-
res, para saber como lidar com sua experiência e controlá-Ia. Mas também 
o faz para verificar em que isso afeta sua compreensão da cultura em geral. 
Quer ele saiba ou não, quer tenha a intenção ou não, seu ato "seguro" de 
tornar o estranho familiar sempre torna o familiar um pouco estranho. 
E, quanto mais familiar se torna o estranho, ainda mais estranho pare-
cerá o familiar. É uma espécie de jogo, se quisermos - um jogo de fingir 
que as ideias e convenções de outros povos são as mesmas (num sentido 
mais ou menos geral) que as nossas para ver o que acontece quando 
"jogamos com" nossos próprios conceitos por intermédio das vidas e 
ações de Outros. À medida que o antropólogo usa a noção de cultura 
para controlar suas experiências em campo, essas experiências, por sua 
vez, passam a controlar sua noção de cultura. Ele inventa "uma cultura" 
para as pessoas, e elas inventam "a cultura" para ele. 
Uma vez que a experiência do pesquisador de campo se organiza 
em torno da cultura e é controlada por ela, sua invenção irá conservar 
uma relação significativa com nosso próprio modo de vida e pensamento. 
Assim, ela passa a encarnar uma espécie de metamorfose, um esforço 
de mudança contínua e progressiva das nossas formas e possibilidades de 
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Rafael Devos
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cultura, suscitada pela preocupação em compreender outros povos. Não 
podemos usar analogias para revelar as idiossincrasias de outros estilos 
de vida sem aplicar estes últimos como "controles" na rearticulação de 
nosso próprio estilo da vida. O entendimento antropológico se torna um 
"investimento" de nossas ideias e de nosso modo de vida no sentido mais 
amplo possível, e os ganhos a serem obtidos têm, correspondentemente, 
implicações de longo alcance. A "Cultura" que vivenciamos é ameaçada, 
criticada, contraexemplificada pelas "culturas" que criamos, e vice-versa. 
O estudo ou representação de uma outra cultura não consiste numa 
mera "descrição" do objeto, do mesmo modo que uma pintura não mera-
mente" descreve" aquilo que figura. Em ambos os casos há uma simbo-
lização que está conectada com a intenção inicial do antropólogo ou do 
artista de representar o seu objeto. Mas o criador não pode estar cons-
ciente dessa intenção simbólica ao perfazer os detalhes de sua invenção, 
pois isso anularia o efeito norteador de seu" controle" e tornaria sua 
invenção autoconsciente. Um estudo antropológico ou uma obra de arte 
autoconsciente é aquele que é manipulado