BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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cegos é, normalmente, soli-
citado a fazer descrições de pessoas, situações, lugares e também 
de vídeos, peças de teatro, fotografias etc. Entretanto, a descrição 
pode ser subjetiva imprimindo valores e conceitos que podem 
não estar presentes no objeto descrito, ou seja, a audiodescrição 
é um tipo de tradução audiovisual que revela de modo objetivo 
os elementos visuais presentes no objeto descrito. Assim, a au-
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diodescrição traz para a formalidade a atividade feita por aqueles 
que acompanham pessoas com deficiência visual (Motta, 2010). 
Por agregar um vasto conjunto de diferenciais técnicos que di-
zem respeito a questões envolvendo os recursos de acessibilidade co-
municacional, a TVDi demonstra um enorme potencial tecnológico 
para ser uma mídia extremamente acessível.
No que se refere ao recurso da audiodescrição, é necessário um 
fluxo de áudio que pode ser ativado pelo controle remoto ou estar 
permanentemente habilitado na programação televisiva, caso o es-
pectador configure seu conversor digital ou aparelho televisivo para 
receber o serviço. Outra opção é a audiolocução que pode ser utiliza-
da no guia de programação (Electronic Program Guide \u2013 EPG) e nos 
menus de configuração. 
Quando se começou a cogitar que a audiodescrição deveria estar 
presente na programação televisiva, a televisão analógica já estava 
consolidada nas sociedades, tanto na sociedade britânica quanto na 
brasileira, e pouco se discutia sobre televisão digital terrestre e os 
diferenciais trazidos por ela. 
Vale ressaltar a diferença temporal entre os dois países em re-
lação ao início das discussões sobre a audiodescrição na televisão. 
No Reino Unido, o projeto Audio description of Television for 
the Vissually Disable and Elderly (Audetel) foi o primeiro a pro-
mover essa discussão em 1991. No caso brasileiro, pode-se con-
siderar que foi a partir do desenvolvimento da NBR 15.290, em 
2003, que a audiodescrição passou a ser pensada como recurso de 
acessibilidade da televisão. 
O sistema de transmissão analógico possui até dois canais de áu-
dio, dependendo do método de codificação de áudio usado. No siste-
ma de transmissão analógico NTSC, usado nos Estados Unidos, por 
exemplo, o método BTSC permitia a transmissão do áudio estéreo 
mais um canal de áudio secundário, o SAP. Por isso, a audiodescri-
ção era transmitida pelo SAP. 
No sistema PAL \u2013 sistema de transmissão analógico antes 
adotado no Reino Unido \u2013 era utilizado o método de codificação 
NICAM\u2013728 que permitia somente a codificação de um canal de 
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áudio para transmitir o áudio estéreo. Foi necessário desenvolver 
um conversor externo acoplado ao aparelho de TV para que fosse 
possível a recepção da audiodescrição transmitida em outra fre-
quência (ITC, 1993). Esse modelo de recepção da audiodescrição 
foi usado no projeto Audetel. 
No Brasil, é usado o sistema de transmissão analógico PAL\u2013M, 
que permite o uso do BTSC de codificação. Assim, a audiodescri-
ção pode ser transmitida pelo SAP. Segundo Paulo Romeu Filho 
(2010), defensor da audiodescrição, atuando na elaboração des-
sa regulamentação, a Norma Complementar nº 1, publicada pela 
Portaria nº 310 do MINICOM, em 2006, o SAP já contemplava a 
possibilidade de transmissão e recepção de audiodescrição, dadas as 
diretrizes contidas na NBR 15.290. 
A implantação da televisão digital terrestre trouxe outras pers-
pectivas para a audiodescrição. Os sistemas de transmissão digital 
permitem a veiculação de vários canais de vídeo, de áudio e de dados, 
favorecendo, assim, a adoção de recursos de acessibilidade comuni-
cacional. Tanto o sistema DVB \u2013 usado no Reino Unido \u2013 quanto o 
sistema ISBT\u2013Tb \u2013 adotado no Brasil \u2013 são capazes de transmitir 
um canal de áudio com a audiodescrição da programação televisiva.
No caso da televisão digital britânica, são usados dois modos 
de transmissão da audiodescrição: pré-mixada e mixada. A primei-
ra opção adiciona a audiodescrição ao áudio original do conteúdo, 
consequentemente, o espectador não consegue alterar somente o vo-
lume da descrição e, por isso, a mudança da gradação do volume é 
igual para o áudio original e para a audiodescrição.
Quando a audiodescrição é mixada, a emissora de televisão 
transmite o áudio original e a audiodescrição separados para serem 
mixados no conversor digital, permitindo que o espectador, se assim 
desejar, configure somente o volume da audiodescrição, sem alterar 
o volume do áudio original do programa. 
Todavia, no Reino Unido, não são todos os conversores digi-
tais que estão configurados para receber mais de um canal de áudio. 
Por isso, um dos entraves enfrentados no início da implantação da 
audiodescrição na televisão digital britânica foi a necessidade de 
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mudança de equipamento, motivo pelo qual a audiodescrição foi 
inserida tardiamente na programação da televisão digital terrestre.
No caso da transmissão da audiodescrição na programação te-
levisiva por satélite, foi necessária somente a atualização remota dos 
conversores digitais para que os espectadores pudessem ter a opção 
do serviço. 
A acessibilidade na televisão digital não está restrita à audiodes-
crição, legenda oculta e janela de intérprete de LIBRAS. Deve ser 
considerada, também, a acessibilidade de aplicativos interativos e, 
também, do controle remoto (Baranauskas; Melo; Piccolo, 2007). A 
primeira proporciona a equiparação de oportunidade de fruição de 
todos os conteúdos transmitidos e disponibilizados nesse meio de 
comunicação. Já a acessibilidade do controle remoto pode ser feita 
pela alteração de formato do controle ou das teclas,3 posicionamento 
das teclas e modos de acionar as teclas. 
Com a TV digital é possível, por exemplo, explorar com profun-
didade as possibilidades da EaD, ampliando formatos e ferramentas 
para o t-learning (Arbex; Sens; Spanhol, 2009). A audiodescrição 
amplia o alcance de recepção dos conteúdos transmitidos. 
A Univesp TV \u2013 veículo da Universidade Virtual do Estado 
de São Paulo (Univesp) \u2013 está operando em caráter experimen-
tal na multiprogramação da TV Cultura na Grande São Paulo. 
O canal estreou a audiodescrição a partir de 5 de agosto de 2011, 
inserindo-a no Programa Educação Brasileira, exibido às 20h30, 
às sextas-feiras.
O programa de entrevistas é comandado por Éderson Gra-
netto e traz especialistas para discutir temas ligados ao ensino e 
à aprendizagem, à avaliação, ao cotidiano escolar e à formação 
de professores. 
O formato de programa escolhido permite que haja audio-
descrição somente na abertura de cada bloco e no fechamento do 
 3 Proposta que não se transformou em norma foi a de Valdecir Becker e Carlos Montez 
(2005), os quais sugeriram que as teclas coloridas do controle remoto fossem de for-
matos diferentes, o que facilitaria a sua percepção por pessoas com deficiência visual.
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programa. Por se tratar de um serviço recente na Univesp TV, é 
provável que outros programas de formatos diversos tenham esse 
recurso de acessibilidade comunicacional também. 
A proposta de usar a televisão digital aberta com audiodescri-
ção como tecnologia da informação e comunicação para os cursos 
oferecidos pela Univesp é um exemplo de t-learning com acessibi-
lidade comunicacional.
Assim como as universidades deveriam disponibilizar re-
cursos de acessibilidade em suas dependências e práticas pe-
dagógicas para efetivar a educação inclusiva, a programação de 
uma televisão universitária educativa também deveria transmi-
tir seus conteúdos de forma acessível para que a comunidade 
pudesse ter, de forma equânime, a oportunidade de acesso à in-
formação veiculada. 
Diante da importância que a audiodescrição assume para a in-
clusão social, digital e educativa de pessoas com deficiência visual 
e do impacto que a programação televisiva