BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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redistribuição compensatória, equilibrando as desigualdades que 
se cristalizam no território urbano. Os recursos socialmente pro-
duzidos são captados pelos governos com impostos e endivida-
mento público.
A direção e a intensidade da distribuição são decididas poli-
ticamente pelas regras do jogo democrático representativo, cuja 
participação juridicamente igualitária se faz por meio do sistema 
de votação, franqueado a todos os membros adultos da sociedade.
Os governos assumem, cada vez mais, papel estratégico 
para o desenvolvimento da cidade do welfare state keynesiano. O 
consenso político \u2013 forjado eleitoralmente \u2013 aponta a direção a 
ser dada às ações da administração pública que deve ser eficien-
te e eficaz para implantar os programas de políticas públicas 
compensatórias. A busca por resultados vai provocar transfor-
mações nos próprios paradigmas que regem o fazer administra-
tivo: perde força a ideia de administrar de forma burocrática em 
favor de uma postura mais gerencial, gérmen já da cidade vista 
como controle.
Entre 1945 e 1975 \u2013 período de crescimento econômico pro-
vocado pelas políticas de reconstrução do pós-guerra \u2013 são conhe-
cidos os ganhos históricos, políticos e econômicos, obtidos como 
resultado da implantação da estratégica democracia partidária 
competitiva e do welfare state keynesiano nas sociedades europeias 
ocidentais: melhoria das condições de vida e de trabalho, pleno 
emprego, ganhos reais de salário, organização política e sindical 
dos trabalhadores, crescimento da social-democracia e vitórias 
eleitorais significativas de partidos mais comprometidos com o 
modelo de desenvolvimento social baseado na consolidação cres-
cente da cidade para todos.
Também é conhecido o retrocesso que, a partir da crise econô-
mica mundial de meados dos anos 1970, vai sofrer a cidade do welfa-
re state keynesiano, forçando uma revisão do paradigma das políticas 
públicas compensatórias, perante a proposta de austeridade mone-
tária, como forma de o Estado controlar a sua crise de financiamen-
to, sua crise de gestão e sua crise de credibilidade.
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Pierson (1999), seguindo a classificação elaborada por Esping-
-Andersen (1990), busca entender como os diferentes países da Eu-
ropa Ocidental enfrentam o cenário de austeridade monetária com 
reformas no modelo de welfare state oferecido pela cidade social aos 
cidadãos. São três grupos de países com diferentes comportamentos 
diante da questão.
No primeiro grupo, estão os países do welfare state liberal (Aus-
trália, Inglaterra, Nova Zelândia e Estados Unidos), nos quais há 
uma pressão social muito grande para que a cidade do welfare state 
keynesiano venha a se adequar aos orçamentos enxutos. A estraté-
gia passa a ser reorientar as demandas por aqueles serviços que ga-
rantem a cidadania para o mercado privado. Diminui visivelmente 
o oferecimento de políticas compensatórias via ações de governo, 
ou seja, diminui a intervenção do governo para controlar distorções 
causadas pelo sistema econômico e aumenta, para tanto, a concen-
tração da autoridade política para o processo de tomada de decisões.
O segundo grupo é formado por países que respondem por 
um welfare state social-democrático (Dinamarca, Noruega, Suíça e 
Finlândia). Mantém-se o funcionamento da cidade do welfare state 
keynesiano a partir dos novos cenários de austeridade econômica. 
Os investimentos para garantir o Direito à Cidade sofrem cortes de 
custos e passam por processos de racionalização administrativa. Os 
objetivos finais não mudam, mas se acredita que seja possível com-
pensar as perdas pelo aumento da eficiência e da eficácia. A questão 
mais importante é desenvolver estratégias de mudanças mais nego-
ciadas, pactuadas e incrementais.
O terceiro grupo agrega países que desenvolveram, histori-
camente, um welfare state conservador (Áustria, Bélgica, França, 
Alemanha, Itália e Países Baixos). O esforço aqui é para manter o 
funcionamento da cidade do welfare state keynesiano apesar das 
pressões pela austeridade monetária. Corte de custos e retomada 
de velhos programas sociais passam a ser a estratégia. Toda a arti-
culação política volta-se para a busca de coalizões políticas que via-
bilizem as reformas sem ferir princípios e interesses enraizados nas 
estruturas partidárias.
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A análise de Pierson (1999) atinge apenas países da Europa 
Ocidental. Olhando para o Brasil \u2013 mas certo de que a análise pode 
ser estendida para outros países da América Latina \u2013, é possível de-
tectar um quarto grupo de países cujo modelo de implantação do 
welfare state foi construído de forma incompleta e sob o domínio de 
governos autoritários.
Nossas colônias do mercado mundial, nossas democracias 
populistas centralizadas e nossas ditaduras militares pavimentam 
um caminho comum de aprofundamento das diferenças sociais \u2013 
cristalizadas na malha urbana das cidades \u2013 com ínfima distribui-
ção de renda. Os pífios programas de bem-estar social camuflam 
regimes autoritários, ditatoriais, e fazem as instituições públicas 
reféns do Estado centralizador, utilizado como fundo público 
para projetos faraônicos e enriquecimento privado de setores eco-
nômicos hegemônicos.
De fato, o modelo de distribuição pública de benefícios sociais 
faz do Estado o grande herói das economias reais, no período de 1945 
a 1975. No socialismo, com o totalitarismo de Estado; nos países 
capitalistas avançados, com o binômio democracia partidária com-
petitiva e welfare state keynesiano; e nos países da América Latina, 
com o binômio ditadura militar e desenvolvimentismo nacionalista; 
os governos vão consolidando uma estratégia de fortalecimento do 
Estado racional legal moderno.
Justamente, é por isso que, a seguir, o discurso do neoliberalis-
mo ataca a ineficiência e o tamanho do Estado como causa de todos 
os problemas estruturais das sociedades contemporâneas. Ganha 
força a ideia de que os aparelhos governativos devem ser reforma-
dos, suas ações devem ser reavaliadas sob critérios bem definidos 
\u2013 como eficiência, eficácia e efetividade \u2013 e a cidade deve encontrar 
outra forma, principalmente outros parceiros, para atender às neces-
sidades dos cidadãos mais pobres.
Finda a leitura dos três modelos que antecedem a cidade atual, 
é hora de olhar a cidade digital, recuperando alguns aspectos que a 
engendram. Múltiplos elementos \u2013 já apontados \u2013 se entrecruzam 
para compor o cenário que hoje se apresenta: o ataque neoliberal às 
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intervenções estatais e a reforma dos aparelhos nacionais e locais de 
Estado sob o signo da eficiência, eficácia e efetividade. Mais que isso, 
verifica-se a flexibilização das relações de trabalho em uma fase de 
acumulação capitalista baseada na globalização financeira e a revo-
lução tecnológica baseada na virtualização vertiginosa da vida \u2013 pri-
vada e pública \u2013 desterritorializando a cidade.
Aprofundando a crítica neoliberal, que vai incidir sobre as ins-
tituições de governo enquanto agentes de distribuição de renda, há 
uma acusação de que a esfera pública age na destruição dos funda-
mentos que compõem a ética do trabalho capitalista, posto que os 
benefícios sociais interferem nas regras e na precificação do livre 
mercado de mão de obra. Paralelamente, o custo governo, provoca-
do pela necessidade de captar recursos para as políticas sociais que 
sofrem desmandos por má gestão administrativa, impacta na socie-
dade produtiva, asfixiando a classe média com impostos e gerando 
processos inflacionários.
Segundo o discurso oficial, perde-se todo o esforço social pro-
duzido em virtude da ineficiência da burocracia improdutiva que 
agrava os problemas que deveria resolver: os cidadãos passam a 
desconfiar da capacidade do governo para regular os conflitos pro-
venientes da exploração do trabalho no modo capitalista de pro-
dução. Avança, estruturalmente,