BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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esferas gover-
nativas, de forma que sejam respeitados as diretrizes, os projetos e 
as metas traçados para o desenvolvimento de médio e longo prazos.
Cria-se um caminho para que haja crescimento endógeno e seja 
possível atrair novas economias, equilibrando o crescimento po-
pulacional, a geração de renda, as ofertas de emprego, a educação 
para o trabalho e a qualificação global dos recursos humanos. Mais 
que isso, porém, cria-se a possibilidade de recuperação do território 
como elemento agregador da vida material na cidade.
Como foi visto, o movimento para a construção das cidades ra-
dicais nasce nas cidades digitais. No próximo capítulo, portanto, será 
apresentada uma experiência de modernização administrativa e incor-
poração tecnológica em cidades de baixo IDH do estado de São Paulo.
 
2
o progrAmA de Apoio à 
governAnçA municipAl
Em 2000, havia um grupo de pesquisadores da Unesp in-
vestigando como difundir, nos municípios paulistas, um novo 
padrão de gestão local,1 definido como um ambiente muito 
próximo das Cidades Digitais (CDs), conforme esboçado no 
capítulo anterior.
Hoje, nos projetos reconhecidos como paradigmas de CDs,2 
a preocupação central é levar a conexão de banda larga ao maior 
número possível de moradores para garantir a inclusão digital para 
todos. A análise mais aprofundada da questão sob o olhar da admi-
nistração pública3 indica que as TICs abrem espaço para permitir, 
fora o acesso à rede, a governança local, ou seja, as TICs permitem 
que o cidadão tenha garantido o seu Direito à Cidade por intermé-
dio de um poder local eficaz e visível.
 1 O produto consolidado no sistema de informações Progam acabou se transformando 
em uma patente.
 2 Os paradigmas de CDs no modelo \u201cinclusão digital para todos\u201d podem ser encontra-
dos, por exemplo, em Guia das cidades digitais (2012).
 3 O modelo defendido pode ser mais bem avaliado em artigo publicado na Revista 
Banco Hoje. Ver Bizelli, Cintrão e Nogueira (2008).
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Já era possível perceber, em 2003, que a gestão de políticas 
públicas inclusivas dependeria decisivamente das máquinas admi-
nistrativas das prefeituras brasileiras e que o estrangulamento dos 
governos locais seria sentido principalmente nos pequenos muni-
cípios, aqueles que não teriam capacidade financeira de suportar 
processos de modernização. Naquele momento, passados 15 anos 
da promulgação da Constituição de 1988, o termo \u201cmunicípio\u201d 
mostrava suas contradições.
A principal contradição \u2013 permanecida até hoje \u2013 quando a legis-
lação usa o termo \u201cmunicípio\u201d é tratar de entidades organizacionais 
com profunda diferença na escala de tamanho, o que acarreta múlti-
plos impactos em diversos aspectos: volume de recursos \u2013 financei-
ros, humanos e materiais; capacidade de resposta às demandas das 
estruturas administrativas; variação na multiplicidade do capital de 
conhecimento disponível nas equipes de governo; qualidade das are-
nas políticas e decisórias; enfim, nada permite comparar o município 
de menos de 10 mil habitantes ao que tem mais de 1 milhão. A própria 
resposta às atribuições legalmente determinadas \u2013 principalmente de-
pois da Lei de Responsabilidade Fiscal e da Lei Federal nº 10.028, 
ambas promulgadas no ano 2000 \u2013 e à influência política nos arranjos 
regionais ou estaduais diminui muito em municípios pequenos.
No estado de São Paulo, o cenário descrito estava rebatido cla-
ramente em dados objetivos trazidos, por exemplo, pelas análises do 
IDH do ano 2000 e, posteriormente, pelas séries históricas do Ín-
dice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS). Desenhavam-se 
com nitidez áreas deprimidas economicamente no território paulista, 
ou seja, áreas que, embora agregadas a um estado rico, congrega-
vam e concentravam espacialmente municípios com baixos índices 
de qualidade de vida \u2013 baixo IDH e alta vulnerabilidade no IPRS. 
Três regiões incluíam-se na classificação: o Vale do Paraíba, o Vale 
do Ribeira e o Pontal do Paranapanema.
Houve uma abertura natural de diálogo entre o grupo de pes-
quisa da Unesp e o governo do estado de São Paulo, via Secretaria 
do Desenvolvimento, dada a coincidência de preocupações e de vi-
são de futuro com relação ao papel estratégico a ser assumido pelos 
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pequenos municípios nas economias regionais. Em 2005, fruto de 
dezenas de reuniões, surgia o Programa Estadual de Apoio à Go-
vernança Municipal, voltado para a modernização da administração 
local em pequenos municípios e viabilizado por um contrato entre 
a Casa Civil do Governo Paulista, a Fundação para o Desenvolvi-
mento da Unesp (Fundunesp) e a Companhia de Processamento de 
Dados do Estado de São Paulo (Prodesp).4
O projeto piloto selecionou dez municípios vulneráveis com base 
no IPRS, localizados em duas das regiões deprimidas definidas anterior-
mente. No Vale do Paraíba, foram escolhidos os municípios: Lagoinha, 
Natividade da Serra, Redenção da Serra e São Luís do Paraitinga. No 
Vale do Ribeira, foram: Barra do Chapéu, Bom Sucesso do Itararé, Itaó-
ca, Itapirapuã Paulista e Ribeira. Para testar o método em um muni-
cípio maior, foi selecionado, na Grande São Paulo, Francisco Morato.
Outros organismos foram envolvidos no programa, prin-
cipalmente como avaliadores e agentes de fomento ao debate e 
à divulgação dos métodos de trabalho utilizados: o Centro de 
Estudos e Pesquisas de Administração Municipal da Fundação 
Faria Lima (Cepam), agregando sua experiência em assessorar 
os municípios paulistas pelo seu corpo de especialistas; a Fun-
dação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), adensan-
do o conhecimento na área da educação para servidores públicos 
do estado; a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados 
(Fundação Seade), que acompanhou e desenvolveu indicadores 
de avaliação para medir os resultados da implantação do piloto 
proposto nos dez municípios; e a Imprensa Oficial de São Paulo 
(Imesp), local onde se encontra o programa Acessa São Paulo, 
que utiliza redes de comunicação para propiciar a inclusão digital 
no estado de São Paulo.5
 4 O programa foi coordenado por mim, tendo o doutor José Xaides de Sampaio Alves 
como vice-coordenador e o especialista em Gestão de Cidades Luciano Pezza Cintrão 
como coordenador técnico.
 5 Outras 20 cidades foram se agregando ao processo de várias formas. Uma forma uti-
lizada por municípios maiores (Bauru, Limeira, Catanduva, Lençóis Paulista) foi o 
Programa de Modernização da Administração Tributária (PMAT), cujo objetivo é 
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Como o nome do programa indica, o propósito era melhorar a 
governança pública em pequenos municípios. Ao conceito tradicio-
nal de governança6 \u2013 que significa dar condições à administração de 
melhorar sua arrecadação própria e sua forma de gastar os recursos 
públicos \u2013, propunha-se agregar novos elementos que aumentassem 
a eficiência da administração local, de forma a dar visibilidade às 
ações de governo local, criar um controle estratégico sobre a eficácia 
das políticas públicas produzidas e fortalecer a representação cidadã 
no planejamento compartilhado da cidade para todos.
Várias das questões que se referem à governança estavam pre-
sentes no capítulo anterior quando da discussão sobre as transforma-
ções que acontecem nas cidades que aperfeiçoam seus mecanismos 
de controle e caminham para a radicalização desse processo: reformas 
nos aparelhos de governo, novas configurações jurídicas para reger as 
relações entre os atores políticos e administrativos da cidade, parce-
rias estratégicas para a desconcentração no atendimento das deman-
das dos cidadãos, fortalecimento dos agentes locais como interlocu-
tores de políticas e interlocutores políticos criando condições para 
um planejamento compartilhado do espaço urbano. O progama foi 
a ocasião para colocar em prática a abordagem do grupo de pesquisa 
sobre a