BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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de qualidade e com segu-
rança para que os municípios pudessem acessar os programas e os 
bancos de dados que ficariam sob sua responsabilidade. A falta de 
um contrato executável com a Telefonica \u2013 responsável pelos links \u2013 
começou a atrasar o projeto.
Cabe aqui ressaltar que toda a arquitetura do projeto estava cal-
cada em uma tecnologia wireless, mais adequada para responder às 
necessidades dos municípios envolvidos, dando-lhes autonomia so-
bre a sua rede e os seus dados. A Casa Civil optou pela substituição 
das redes wireless pelos links da Prodesp, no modelo já conhecido 
dos Infocentros paulistas \u2013 Programa Acessa São Paulo.
Os links eram baixos e não permitiam que o município acessasse 
outros sites que faziam parte da vida e dos compromissos munici-
pais, como o DATASUS, por exemplo. Alguns municípios \u2013 nos 
quais os gestores locais do projeto estavam preparados para vencer 
desafios e souberam convencer seus prefeitos da importância de au-
mentarem a capacidade de banda para circulação de dados \u2013 con-
seguiram implantar a totalidade dos módulos necessários à gestão 
municipal. Exemplo disso foi Lagoinha, no Vale do Paraíba. Outros 
municípios obtiveram resultados menos significativos.
Foi possível perceber, também, que os módulos e treinamentos 
da educação encontraram mais adesão do que os da saúde e da pro-
moção social. A educação \u2013 sendo uma área mais organizada \u2013 já havia 
encontrado um modelo de financiamento dentro do orçamento públi-
co municipal que exigia aplicação de recursos regulares na área. Por 
isso a educação tem avançado mais, encontrando maiores oportunida-
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des para desenhar ações complementares: o limite, mais uma vez, está 
na capacidade de resolução de problemas das equipes gestoras locais.
A saúde é uma área deficitária e em reordenação. A saúde co-
letiva \u2013 no avanço que representa o Programa de Saúde da Família 
(PSF) nos pequenos municípios paulistas \u2013 invade os interesses dos 
médicos particulares; a boa qualidade dos serviços públicos con-
corre com hospitais particulares, com as clínicas de especialidades 
e de análises clínicas etc. A política pública de saúde nas pequenas 
prefeituras consiste, na maioria das vezes, em ter viaturas ou ônibus 
que fazem duas ou três viagens, por dia, para transportar pacientes 
a centros maiores.
O corpo político tem, quase sempre, na política de saúde, a fór-
mula de manter a sua clientela, seja como facilitador de serviços, seja 
como fornecedor de medicamentos caros. Reflexo desse fato também 
foi sentido nos resultados obtidos na implantação dos softwares de 
controle no setor de materiais. O controle eficiente da administração 
da farmácia municipal, ou seja, sobre a distribuição dos remédios, 
por exemplo, atrapalha a política de clientela dos agentes políticos.
A Promoção Social está cada vez mais nas mãos de entida-
des sem fins lucrativos. Nesse caso, a adesão das entidades nem 
sempre atingiu o índice desejado, visto que elas estavam mais 
preocupadas em sobreviver e encontrar fontes alternativas de 
financiamento para suas atividades do que em modernizar sua 
relação com a máquina pública. Como foi dito antes, é notória a 
discrepância entre os resultados obtidos na educação versus os da 
saúde e os da promoção social.
À exceção de Francisco Morato, a sala de aula do curso de ges-
tores alimentou uma Reforma Administrativa, muito embora essa 
reforma não tenha se tornado, durante o período de implantação 
do projeto, Lei Municipal. Francisco Morato vivia, na época de 
implantação do projeto, uma situação muito particular, posto que 
existiam denúncias de corrupção envolvendo a prefeita. A relação 
com a Câmara Municipal foi péssima, o que inviabilizou o projeto 
Vereança. Havia uma percepção local de que o projeto era para as-
sessorar o poder Executivo, enquanto a Câmara Municipal abria 
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um processo para pedir a cassação da prefeita, em virtude das de-
núncias de corrupção.
Com relação aos cadastros para o georreferenciamento da malha 
urbana, apesar da multiplicidade de fontes de informação existente 
nos municípios, o trabalho avançou muito. Registre-se a oportuni-
dade que o grupo teve \u2013 num contrato paralelo \u2013 de elaborar o Pla-
no Diretor Participativo de São Luiz do Paraitinga,14 criando uma 
situação que redundou em oportunidade para aprofundamento nas 
realidades dos pequenos municípios que têm uma economia rural 
sob a mira das plantações de eucalipto.
É preciso ressaltar que São Luiz do Paraitinga detinha 
grande parte do Patrimônio Histórico paulista, além de áreas 
de preservação natural da Serra do Mar como no Núcleo Santa 
Virgínia. Durante o período da reconstrução da cidade, depois 
da grande enchente que assolou a malha urbana em janeiro 
de 2010, os membros do Progam estiveram ali em projeto da 
Unesp que reuniu profissionais de várias áreas de conhecimen-
to. Daí resultou o livro Gestão em momentos de crise: programa 
Unesp para o desenvolvimento sustentável de São Luiz do Pa-
raitinga (Bizelli; Alves, 2011) e o vídeo O batismo das Águas: 
celebrando a reconstrução da Ágora (2011).
É preciso reconhecer, também, que o período de execução do 
projeto foi uma terceira dificuldade importante. O projeto foi nego-
ciado quando a Casa Civil respondia ao governador Alckmin, mas 
nos momentos decisivos para a finalização dos trabalhos de implan-
tação o governador havia se desincompatibilizado para concorrer à 
presidência da República, e o governo estadual ficou na mão de Cláu-
dio Lembo. Acrescente-se a isso a baixa capacidade dos técnicos do 
governo estadual para atuarem de acordo com as formas de gestão 
gerencial e seu apego às formas burocráticas de condução de impas-
ses, o que conduziu a desgastes com todos os envolvidos no projeto, 
principalmente com os prefeitos.
 14 A mesma oportunidade nos foi oferecida no município de Lençóis Paulista, onde o 
Progam foi implantado com recursos do Pmat.
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Tudo isso, convenceu a equipe de que a máquina adminis-
trativa pública \u2013 quer na esfera local, quer na estadual \u2013 deve 
ser olhada com profissionalismo nos programas de governo dos 
partidos paulistas, visto que se constitui enquanto entrave para 
qualquer projeto de modernização que contemple um ambiente 
de inovação ou de desenvolvimento que vise superar os baixos 
índices de desenvolvimento humano nas regiões deprimidas do 
estado de São Paulo. 
Como último ponto, é importante retomar a discussão sobre 
a governança pública. O conceito de governança diz respeito, 
cada vez mais, à articulação possível entre os três setores pro-
dutores da riqueza social \u2013 estado, mercado e público não estatal 
\u2013 para provocar um projeto compartilhado de desenvolvimento. 
A governança passa a não ser apenas a capacidade do governo 
de ser visível em suas ações, permitindo os processos de accoun-
tability, mas indica a capacidade da sociedade de dar sentido e 
direção ao seu destino (Aguilar, 2007).
Para a gestão pública já não basta integrar gerentes, é ne-
cessário cumprir uma agenda política de busca de consenso para 
atingir as metas da governança. A administração não pode ser 
apenas burocrática \u2013 agir segundo regras fixas e independentes, 
com critérios de formalização, impessoalidade e profissionalismo 
\u2013 ou apenas gerencial \u2013 administrar por resultados \u2013, ela tem de 
funcionar como polo catalisador de grupos sociais que possam 
legitimar políticas públicas, ou seja, ela tem de, novamente, as-
sumir seu caráter político frente aos imperativos da participação.
O consumo de políticas públicas \u2013 habitação, transporte, 
unidades de atendimento à saúde e à educação, entre outros \u2013 
torna-se, simultaneamente, elemento funcional sistêmico indis-
pensável, como fator de legitimação e capacidade de governan-
ça para a esfera pública. A cidadania confunde-se, pois, com o 
exercício de consumir a