BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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cidade, ou seja, consumir os benefícios 
da modernidade urbana, como as próprias TICs.
A construção da esfera pública tem de fazer frente ao cará-
ter privado e parcelar dos agentes econômicos que intervêm no 
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processo, bem como enfrentar o desnível que existe entre a to-
talidade dos problemas de gestão administrativa e as desigual-
dades sociais concretas (Cepal, 2010).
Nessa perspectiva, as agências institucionais atuam como orde-
nadoras da vida cotidiana dos cidadãos e condicionam, na realidade, 
sob o pretexto da organização do espaço público, o acesso à cidada-
nia. Essa generalização das contradições no desenho da esfera públi-
ca e a posse sistemática delas por parte da administração, em todos 
os seus níveis, politizam de maneira direta o pensar o setor público, 
reafirmando-o como possibilidade para a mudança social.
Ampliam-se, assim, as prerrogativas da administração: obter 
consenso, harmonizar interesses, abrandar \u2013 pela negociação \u2013 a 
competição que se desenvolve entre os grupos antagônicos com po-
der de veto e pressão nas arenas decisórias, entre suas clientelas e 
entre os membros da própria administração com seus interesses e 
concepções de valor, de ordem profissional, econômica e política.
A politização da administração vai responder à incorporação de 
novas estruturas normativas que trazem para dentro do sistema de-
cisório segmentos que vão demandar regras menos excludentes de 
convivência social.
A nova engenharia jurídico-institucional pode permitir que o 
setor público não estatal venha a criar um novo equilíbrio produtivo 
não capitalista (Mintzberg, 1996; Dowbor, 2008). Ganham força os 
Conselhos, os Fóruns das Cidades e os Orçamentos Participativos 
como formas de o cidadão comum e os movimentos sociais assumi-
rem funções decisórias e ativas no processo político-administrativo.
Além disso, aumenta a pluralidade das esferas relativamente 
autônomas de poder dentro do setor público, nas quais objetivos 
específicos podem ser canalizados e convertidos no sistema de tro-
cas políticas, ou seja, passa a existir maior porosidade, na ossatura 
da máquina administrativa, aos interesses socialmente organizados 
que agora compõem a governança pública direcionada ao aprofun-
damento das Cidades Radicais.
É um exercício, vale reforçar, que pressupõe educação para 
todos e para além da fronteira escolar tradicional, como acontecia 
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na Grécia, como se dava na Ágora: escola cidadã. O administrador 
deve, particularmente, educar-se para exercer a liderança (Mari-
ni, 2009) no processo de articulação da parceria entre as repre-
sentações sociais, consolidando o compromisso de garantir que o 
método participativo permeie o espaço democrático.
Somente a Cidade Radical pode estender as fronteiras das rela-
ções sociais, permitindo pensar uma democracia sustentável para 
além da seleção civilizada de elites governativas. Se a normalidade 
eleitoral permite que a democracia representativa avance no senti-
do de garantir maior pluralidade na organização de interesses, por 
intermédio dos partidos,15 há um avanço também na consolidação 
de formas diretas de participação, nas quais o cidadão divide com 
a administração a responsabilidade pela gestão das políticas pú-
blicas que impactam no dia a dia das cidades.
No entanto, os sistemas integrados de gestão \u2013 conforme pen-
sados no Progam \u2013, utilizados para alimentar, integrar e direcio-
nar as arenas decisórias participativas, podem ser potencializados 
no ciberespaço, há uma capacidade transformadora presente no 
pensar digital. Nos últimos cinco anos, é possível perceber como 
a invasão da internet em todos os campos materiais da vida tem 
colocado novas propostas para se repensar a vida da cidade, a edu-
cação para todos e a própria participação popular.
Um olhar interessante sobre esse novo mundo pode surgir 
com a proposta de implantação de um novo meio de comunicação 
que venha a assumir concretamente um formato de multiplata-
forma, articulando diferentes linguagens de diferentes mídias sem 
representar o desaparecimento de nenhuma delas: a TV Digital 
interativa com multiprogramação.
 15 O sistema partidário brasileiro ainda carece de reformulação para que possa consoli-
dar canais efetivos de comunicação entre o eleitor e os agentes políticos. Assim sendo, 
a \u201cReforma Partidária\u201d está na pauta de mudanças necessárias ao aperfeiçoamento 
institucional brasileiro.
3
tvdi como plAtAformA pArA eAd1
Quanto mais se torna concreta a possibilidade de uma TVDi 
brasileira, mais o foco da discussão para o trabalho aqui proposto 
passa a ser o conteúdo de sua (multi)programação \u2013 pelas frentes 
que se abrem a avanços sociais na educação para todos \u2013 e a efetiva 
contribuição para a inclusão do cidadão na sociedade tecnológica 
do conhecimento, criando novos acessos à rede de inovações.
Ao invadir quase a totalidade dos lares brasileiros, a televisão 
instiga a ideia de que, um dia, além de informar e formar o ci-
dadão \u2013 estimulando modalidades educativas como as que foram 
apresentadas anteriormente, sejam elas formais ou informais2 \u2013, 
criem-se novas portas de entrada para a prestação e a gestão de 
serviços governamentais (t-gov), permitindo outras relações insti-
tucionais e de participação popular.
A TVDi, portanto, postula-se como veículo particular para 
que se avance no fortalecimento dos três princípios que foram 
 1 Uma primeira abordagem ao tema pode ser encontrada em Bizelli e Souza (2012).
 2 Vygotsky (1987), quando discutia as relações entre educação formal e informal, já admi-
tia que a educação formal era a que oferecia as bases estruturais a proporcionar formas 
científicas para compreender os fatos aprendidos informal, espontaneamente.
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definidos como orientadores do trabalho de análise. Naturalmen-
te, sofre ela também com os mesmos limites estruturais impostos 
pela história do desenvolvimento das forças produtivas no Brasil 
\u2013 obstáculos a um projeto de democratização e de apropriação de 
inovações tecnológicas \u2013, expressos nas profundas desigualdades 
encontradas em suas cidades.
A questão, em um primeiro olhar investigativo, é entender o 
esforço do governo para construir uma imagem de futuro via a 
TVDi brasileira. As expectativas colocadas sobre o Sistema Brasi-
leiro de Televisão Digital (SBTVD) podem ser avaliadas no texto 
do Decreto 4901/03, de 26 de novembro de 2003,3 quando são 
relacionadas algumas funções a serem cumpridas pelo SBTVD: 
1) proporcionar a criação de rede universal de educação a dis-
tância; 2) estimular pesquisa e desenvolvimento na área; 3) pla-
nejar o processo de transição do sistema analógico para digital, 
garantindo adesão gradual; 4) estabelecer modelos de negócios; 5) 
aperfeiçoar o uso do espectro de radiofrequências; 6) contemplar 
mobilidade e portabilidade e 7) permitir interatividade e robustez 
no sinal, baixo custo de equipamento ao consumidor final e gra-
tuidade da programação via sinal aberto terrestre.
No entanto, a tecnologia digital embarcada em aparelhos te-
levisivos não é um fenômeno que começa no Brasil. Os Estados 
Unidos, o Japão e a maioria dos países europeus já se beneficiam 
da transmissão digital.
O Japão trabalha na redução de consumo de banda e melho-
ria de sinal (Tanaka, 2008) desde 1979. Em 2003, colocou em 
operação seu sistema Integrated Services Digital Broadcasting 
\u2013 Terrestrial (ISDB\u2013T), nas regiões de Tóquio, Nagoya e Osa-
ka. Para o ano de 2006, com a copa de Pequim, o Japão comer-
cializou mais de um milhão de receptores da tecnologia digital 
(Rossi, 2004).
As pesquisas norte-americanas por uma TV de alta definição 
(HD) começou nos anos 1980 e definiu o padrão Advanced Television 
 3 Ver Brasil (2003).
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System Committee (ATSC) em 1993 (Filmbug, 2010). Já, em 2009, 
interrompeu-se