BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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\u2013 
acessível e visível \u2013 permite um bom relacionamento público, favo-
 3 Jesus Martin Barbero, em Conferência Magistral na IX Bienal Internacional do Ra-
dio, no México, entre 1º e 6 de outubro de 2012, desmistifica o digital apenas como 
meio, apresentando-o como outra cultura. Ver Barbero (2012).
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rece que atores se fortaleçam no processo de construção dessa relação 
e constitui princípio fundamental para a boa governança pública. As 
TICs podem ajudar muito na execução dessa tarefa, pois oferecem 
sistemas de gestão integrada (Enterprise resource planning \u2013 ERP) que 
facilitam a troca de informações dentro e fora das equipes governativas.
O segundo movimento está dirigido aos atores públicos, visto que o 
desafio é criar um modelo poroso de esfera pública que absorva o cida-
dão em suas necessidades e seus anseios até que, como uma esponja, o 
tecido público esteja completamente encharcado com todas essas de-
mandas da população.
O ambiente do governo \u2013 com governança digital \u2013 deve estar com 
portas e janelas abertas para atender a consolidação do Direito à Ci-
dade (Bizelli, 2005) \u2013 direito à educação; à saúde; à promoção social; 
à conexão banda larga; à cultura e ao lazer; ao emprego; ao transporte 
\u2013 para todos. Para que a administração funcione de tal maneira, ela tem 
de ser formada e educada para esse fim. A educação para o trabalho, 
além de servir ao aprimoramento contínuo do trabalhador, ajuda na 
construção de uma visão compartilhada e holística sobre a finalidade 
da ação pública.
Educação universal \u2013 seja educação formal, seja educação para o 
trabalho em todos os setores de atividades \u2013, portanto, é o segundo 
princípio norteador das análises que me proponho a fazer.
Vai-se desarmando, assim, a imagem de que a disputa dos ato-
res na esfera pública é a teatralização do jogo político, o qual se dá, 
concretamente, nos bastidores. Cria-se o ambiente favorável para 
que se garanta o terceiro princípio norteador para a vida cidadã: a 
participação popular. Experiências recentes de construção de Pla-
nos Diretores Participativos demonstram a força de transformação 
que se faz presente quando o processo da participação cidadã é con-
duzido de forma educativa (Bizelli; Alves, 2010). 
Atores políticos e cidadãos podem promover consensos com 
relação à importância da imersão das práticas cotidianas no univer-
so da sociedade da informação por meio de uma plataforma eleito-
ral vencedora, por exemplo. Diante do consenso forjado no voto, 
tanto os atores políticos quanto os administradores públicos e os 
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cidadãos podem ser formados para estabelecer regras que definam 
os contornos de suas competências.
Estabelecidas as regras, é possível que o processo participativo 
indique um plano estratégico de ação para a incorporação da inova-
ção. No entanto, é papel do poder público subsidiar o processo de 
planejamento estratégico com ativos de informações que permitam 
ao participante decidir segundo sua escala de interesse. A ideia é 
evitar que prevaleça o argumento do especialista sobre o argumento 
do cidadão comum.
Um horizonte assim postulado \u2013 norteado pelos princípios ex-
postos de acesso universal às TICs; educação universal que permita 
apropriação de conhecimento e livre-arbítrio; gestão compartilhada 
por meio de processos representativos e participativos \u2013 pode demons-
trar um caminho seguro para a sociedade da informação? Ou exis-
tem limites estruturais a dificultar a implantação de propostas tão 
radicais de inovação?
Sem dúvida, o conhecimento contido nas inovações produzidas 
pela Sociedade da Informação avança de forma vertiginosa, mas exis-
tem limites estruturais colocados.
As condições materiais da existência humana progridem sob o sig-
no da incorporação das novas tecnologias e, de fato, parecem justifi-
car um otimismo direcionado pela sensação de que mais e mais somos 
capazes de queimar etapas no aprimoramento da convivência huma-
na pacífica rumo aos princípios da racionalidade humanista do século 
XVIII: igualdade, liberdade e fraternidade.
Contudo, o campo científico \u2013 e, por consequência, a própria Aca-
demia \u2013 é surpreendido, diariamente, por invasões bárbaras que lem-
bram as origens políticas dos seres humanos no estado de natureza: 
violência, guerra, corrupção, riqueza construída pela pobreza, crime, 
intolerância, discriminação; a exploração do homem pelo próprio ho-
mem (Hobbes, 1979), chancelada pela desigualdade (Rousseau, 1973), 
oriunda da loucura do apropriar-se privadamente daquilo que foi pro-
duzido pelo trabalho (Locke, 1983) e da violência legítima da maqui-
naria institucional ou, simplesmente, estatal (Maquiavel, 1973), que 
reúne a todos na sociedade concreta.
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Qual Sísifo, cada pesquisador social se levanta, todo dia, para res-
ponder ao desafio imposto por Camus (2010): vencer o suicídio inte-
lectual e afirmar o absurdo, mesmo reconhecendo a tragédia de estar 
consciente dos limites estruturais que conformam suas ações4. Ma-
quiavel (1973) já dizia que a fortuna do príncipe permite-lhe deter-
minar quase 50% do sucesso de suas ações. Para que se crie, portanto, 
a ocasião (Bizelli, 1992), quanto maior a virtù do príncipe mais ele se 
aproximará dos 50% de chances de atingir seus objetivos.
A partir dessa imagem, como ler a Sociedade do Conhecimen-
to que avança? Será que a ideia de mudar para continuar sendo o 
mesmo resiste como metáfora do absurdo? Olhar o Brasil dos anos 
1920 e imaginar que os avanços científicos, tecnológicos, institucio-
nais que ocorreram foram apenas invenções maquínicas (Deleuze; 
Guattari, 1972) a desafiar a capacidade de produção de revoluções 
moleculares (Guattari, 1987) ou subversões na periferia do poder 
(Foucault, 1979)?
Quando me dirigi, nos últimos dez anos, para o estudo e o de-
senvolvimento de tecnologias e metodologias voltadas à inovação na 
gestão de políticas públicas em pequenos municípios do estado de São 
Paulo \u2013 minhas jornadas de Sísifo \u2013, escolhi entender o território ur-
bano como porta de direitos para a cidadania, direitos atrelados à uni-
versalização da educação, do acesso ao mundo digital e da participação 
no sistema decisório que orienta a construção da existência humana.
A cidade é laboratório privilegiado para permitir o embate de 
ideias de pessoas das mais diversas formações ou escolaridades por-
que seu território cristaliza os interesses concretos com os quais seres 
humanos convivem desde o nascimento até a morte. Todos os cida-
dãos sabem dizer e opinar sobre os destinos dos espaços públicos ou 
privados que definem o traçado da cidade. Mas o Direito à Cidade 
também oscila sob os limites estruturais da construção social e eco-
nômica, cuja imagem concreta e simbólica é o território urbano.
 4 Camus, no último parágrafo de A peste, explica que Rieux sabia \u201cque viria o dia em 
que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os 
mandaria morrer numa feliz cidade\u201d (Camus, [19-], p.334).
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Para enfrentar a desigualdade, por um lado, o plano estratégico 
de desenvolvimento da cidade pode definir claramente os objetivos 
dos investimentos públicos e as políticas necessárias para sua con-
secução. Inovações ajudam a garantir tanto os direitos tradicionais 
quanto os novos direitos advindos da sociedade em rede, melhor 
dizendo, ajudam a consolidar novas formas de atender às demandas 
cidadãs: fomentar educação \u2013 formal e para o trabalho \u2013 por meio 
do ensino a distância (EaD); prover saúde pelas ferramentas como 
telemedicina ou prontuários eletrônicos que o cidadão carrega con-
sigo; promover novos nichos de emprego e renda; abrir novos hori-
zontes culturais ou de entretenimento etc.
O governo eletrônico pode contribuir para que as políticas 
públicas sejam mais visíveis indicando novas possibilidades para