BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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a relação governo e cidadão. Governo visível5 e compartilhado 
são princípios importantes para nortear a construção de uma es-
fera pública que atenda às mudanças ocorridas na sociedade da 
informação brasileira.
Por outro lado, a cidade pode simplesmente ser a fotografia 
mais bem acabada da materialidade da exclusão estabelecida nas 
relações de produção que a constroem. Campo das experiências do 
mercado imobiliário \u2013 quer na sua virtude estabilizadora capitalis-
ta, gerando valor, consolidando espaços de realização de negócios 
e segregando territórios de poder; quer na sua virtude desestabili-
zadora capitalista, gerando crises de saneamento do mercado \u2013, a 
cidade se materializa também como expressão psicológica, cultural, 
política, religiosa, macroeconômica, estratégica e socioambiental.
É à cidade \u2013 espaço da contradição \u2013 que me dedico no pri-
meiro capítulo deste livro. Não em uma visão histórica, mas bus-
cando um eixo para pensar uma tipologia para as diferentes fotos 
\u2013 instantâneos \u2013 da sociedade moderna. Como Bachelard (1993), 
que busca a alma humana em espaços de refúgio construídos den-
tro do imaginário coletivo e revelados por poetas que expressam 
 5 O governo e as políticas públicas devem ser visíveis \u2013 e não transparentes \u2013 para per-
mitir o olhar da accountability.
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os segredos dos cômodos da casa, ou como Sennett (1999), que 
contrapõe a disciplina dos corpos às estruturas físicas da cidade; 
o exercício é flanar através do tempo, escolhendo modelos que 
possam traduzir a cidade como signo de materialidade de relações 
econômicas (Benjamin, 1994).
Cada vez mais a cidade moderna exige da esfera pública um 
conjunto de políticas (policies) que faça frente às demandas por in-
corporação tecnológica. São os modelos da cidade digital \u2013 na qual 
ainda impera um forte componente do controle da administração 
por meio da tecnologia, envolto pelo discurso da melhoria da ca-
pacidade de gestão \u2013 e da cidade radical \u2013 como tenho chamado a 
proposta de reorganização urbana que enfrenta as consequências 
da aceleração da vida e da perda de controle sobre a informação 
por conta da radicalização do acesso e da apropriação de TICs, 
provocando mudanças mais profundas no horizonte da universa-
lização do direito à educação e à participação popular.
No segundo capítulo, retomo a experiência do Programa de 
Apoio à Governança Municipal (Progam), projeto que conduzi 
em parceira com o governo do estado de São Paulo, entre 2004 e 
2007. O projeto que fora desenhado para atingir dez municípios 
de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no interior 
paulista, estendeu-se para outras localidades e sofreu um processo 
de descontinuidade com a desincompatibilização do governador 
Geraldo Alkmin para concorrer à presidência do Brasil.
A experiência demonstrou as dificuldades de trabalhar com 
inovações no setor público brasileiro mesmo quando setores das 
equipes governativas do estado conseguem enxergar a situação de 
ineficiência da máquina administrativa e suas consequências ne-
fastas para a construção da cidadania, direcionando recursos para 
a modernização que impera nas cidades digitais. No período, pude 
trabalhar também com processos de participação popular na edifi-
cação dos Planos Diretores Participativos, o que me colocou frente 
a frente com a população em um exercício de leituras comunitárias.
Ficou patente quão difícil é desarmar os agentes públicos e a 
população para estabelecer um processo de comunicação efetivo 
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sob a égide do controle, quão incerto é o horizonte para as cidades 
radicais. Por outro lado, houve a constatação nua e crua daquilo que 
o ministro Luiz Carlos Bresser Pereira diz prefaciando o trabalho 
de Nunes (1997): o clientelismo, o corporativismo, o insulamento 
burocrático e o universalismo de procedimentos convivem lado a 
lado na máquina estatal brasileira desde os anos 1930 até hoje.
É essa incerteza que me faz, no terceiro capítulo, debruçar sobre a 
possibilidade de avançar rumo à proposta de uma cidade radical pela 
incorporação da tecnologia digital aplicada fundamentalmente aos 
processos de EaD. Apesar das discussões sobre o mundo digital pas-
sarem hoje pela certeza da convergência de mídias, escolhi como foco 
de análise as alternativas criadas pela TV Digital interativa (TVDi).
A TVDi brasileira \u2013 por meio do middleware Ginga \u2013 propõe-se 
como inovação com capacidade para canalizar diversas convergên-
cias \u2013 tecnológica, de processos e de conteúdos (Castro, 2007) \u2013, 
com capacidade de dar suporte a ambientes colaborativos de en-
sino-aprendizagem \u2013 abrindo fronteiras para a universalização da 
educação \u2013 e de apontar mudança de atitude no caminho de aban-
dono da figura do telespectador para a construção do interagente ou 
interator (Bizelli; Stipp, 2011) \u2013 personagem apto de se apropriar da 
interatividade possível por meio do canal de retorno e de se posicio-
nar diante de uma grade que oferece multiprogramação.
Embora os horizontes estejam abertos, a articulação entre os 
atores \u2013 educadores, profissionais da comunicação e programado-
res de sistemas \u2013 não é simples. As trajetórias da TVDi e do EaD, 
no Brasil e no mundo, vêm consolidando experiências interessantes 
que exigem respostas corajosas. O discurso oficial \u2013 eivado pelos 
interesses eleitorais do jogo político \u2013 é obrigado a ampliar a capaci-
dade transformadora das inovações para superar atrasos estruturais 
históricos e diminuir efeitos colaterais de uma sociedade que se vo-
latiza na rede mundial de computadores.
No entanto, a minha vivência no Programa de Pós-Graduação 
em TV Digital: Informação e Conhecimento, na Faculdade de Ar-
quitetura, Artes e Comunicação da Unesp, Campus de Bauru, per-
mitiu o acompanhamento de trabalhos que apontam para interações 
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possíveis quando, na borda \u2013 à margem da produção televisiva co-
mercial \u2013, a TVDi abre caminho para que as atividades rotineiras 
em determinados setores da vida moderna possam repensar o seu 
fazer. É instigante pensar, por exemplo, que a educação por meio da 
TVDi possa, um dia, reconfigurar a sala de aula tradicional. 
Ainda resultado da experiência de trabalhar com a interação pela 
mídia televisiva, o quarto capítulo apresenta três situações distintas 
projetadas dentro do ambiente digital. A primeira versa sobre jogos 
em TVDi. A segunda trata da experiência de trazer a linguagem da 
mídia interativa para dentro da formação continuada de professores. A 
terceira aborda a face cibernética da política, ou seja, o ciberativismo.
A análise profunda do campo de implantação da política pública, 
que se refere à TVDi brasileira e às experiências que apontam para 
transformações que possam estar nela embarcadas, encontra, porém, 
limites quando da análise do como o novo \u2013 a inovação \u2013 é submetido 
à lógica do velho, do ranço político, da clientela, revelando o jogo de 
interesses articulado no bastidor da arena decisória visível.
No quinto capítulo, a análise escolhida para traduzir a problemá-
tica colocada em tela \u2013 também fruto da experiência de orientação \u2013 
é o debate e a disputa que ganharam espaço dentro das engrenagens 
do governo entre as grandes redes de produção e transmissão tele-
visiva e a sociedade civil organizada, no que concerne à regulamen-
tação da adoção da audiodescrição como direito de acessibilidade à 
programação da TVDi, no Brasil.
A conclusão é clara: o que se impõe é o exercício de uma nova éti-
ca que supere a postura fugaz do consumo individual da vida. Faz-se 
mister, assim, a criação ética da existência humana rumo a um mun-
do multiplataforma que permita a aprendizagem de convivências 
mais justas e pacíficas.
Novamente o dilema de Sísifo se impõe. Talvez, só exista o alen-
to dos ensinamentos do pensamento gramsciano: pessimismo da inte-
ligência, otimismo da