BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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como fórmula 
instável, em busca de outros elementos sem nunca estar completo e 
acabado, característica que lhe garante o interesse do seu público.
A sociedade da informação (Castells, 1999a) não tem base de 
sustentação na economia, na agricultura ou na indústria, mas sim na 
manipulação da informação, inventando, destruindo e reinventando 
TICs, abrindo horizontes para a criação midiática. Reconfigura-se 
o modelo linear de transmissão da informação para atender uma 
sociedade que possui múltiplos acessos à informação e interesse na 
construção de conteúdos coletivos.
Lévy (1999) desvenda \u2013 das entranhas da era da informação 
\u2013 o ciberespaço, o qual se constitui em um espaço de comuni-
cação proporcionado pela interconexão mundial dos compu-
tadores e de suas memórias. O termo especifica não apenas a 
infraestrutura material de conexões para a comunicação digital, 
e sim o grande universo de informações que ela abriga, assim 
como os seres humanos que navegam, alimentam esse universo 
e consomem seu conteúdo.
Essa sociedade produz diversidade na Cultura da Convergên-
cia (Jenkins, 2008), provocando mudança de comportamentos e 
atitudes na busca por informações e interações no mundo digital. A 
essência da convergência está na maneira como o conteúdo é veicu-
lado: por meio de inteligência coletiva que provoca comportamen-
tos migratórios de diversos públicos que habitam o ciberespaço na 
busca de experiências.
Nesse cenário convergente, é preciso discutir as possibi-
lidades embarcadas no projeto da TVDi. Discutir a inovação 
contida no fazer ou interagir televisivo quando se identifica, no 
horizonte, mudanças desejáveis para a vida dos cidadãos em 
busca de seus direitos.
É o cenário para a redescoberta de um documentário de ou-
tro tipo: interativo, hipertextual, com diferentes formas de lin-
guagem em si mesmo. No foco da análise: a página da rede social 
Facebook Kooora Tunisie, expressão do desejo de transformação 
coletiva e revolucionária da Tunísia, que colaborou com a Re-
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volução de Jasmim, a primeira da chamada Primavera Árabe. 
Mister que o documentário incorpore recursos interativos de 
cunho educacional na busca de elucidar questões geopolíticas 
e históricas sobre os fatos ocorridos, permitindo novo tipo de 
experienciação do audiovisual, dentro das possibilidades ofere-
cidas pela TVDi.
Novas tecnologias destroem e recriam certezas ideológicas e 
identidades na fugaz Sociedade da Informação. Contraditoria-
mente, atores \u2013 econômicos, sociais e políticos \u2013 reinventam mo-
vimentos orgânicos \u2013 que convergem para ações em conformidade 
com os parâmetros da racionalidade sistêmica do capitalismo do 
século XXI \u2013, enquanto geram novas formas de resistência ao sta-
tus quo inoculando e potencializando \u2013 pela rede \u2013 o descontenta-
mento com a banalização das injustiças e a violência da luta pelos 
recursos materiais do ambiente.
Por um lado, as TICs permitem, de forma sistêmica, a articu-
lação, a existência, a convivência e as trocas de aprendizagem de 
qualquer grupo social que não encontre espaço territorial, como 
ocorre no caso do Kooora Tunisie. Por outro lado, são capazes de 
imprimir eficiência e eficácia nos processos administrativos, di-
minuindo drasticamente os tempos burocráticos e melhorando 
as comunicações internas que podem ser colocadas a serviço da 
racionalidade orgânica dos governos e oferecer serviços de atendi-
mento aos cidadãos, rompendo qualquer relação territorial entre a 
fonte de oferta e a demanda.
As TICs permitem controle, accountability, empowerment de 
grupos que disputam de forma organizada o ambiente social-
mente construído, mas também fomentam processos de trans-
formação como acontece nas expressões do ciberativismo.
O termo aparece nos anos 1990 e está ligado à popularização 
mundial da rede de computadores. Seu significado remete a uma 
forma de ativismo que é produzido e divulgado por meios eletrô-
nicos \u2013 informática e internet \u2013 mostrando-se como alternativa 
aos meios tradicionais de massa \u2013 rádio, televisão, revistas e jor-
nais \u2013 e oferecendo aos ativistas ampla liberdade.
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O ciberativismo normalmente busca apoio às suas ideias, em 
procedimentos como abaixo-assinados para alterações de lei.11 
Pela internet, temas são debatidos em comunidades virtuais e cau-
sas são divulgadas de uma maneira que não acontece nos meios 
tradicionais, até mesmo por conta do hipertexto presente na rede 
e pelo alcance ilimitado do mundo virtual. Causas locais criam 
amplitude global e geram um sistema próprio de relações interna-
cionais (Seitenfus, 2004).
O mundo cyber tem também seu ativismo craker que invade 
páginas do governo, alterando conteúdos e copiando dados sigilo-
sos, praticado por piratas virtuais. Nos últimos tempos, um grupo 
chamado de Anonymous vem ganhando destaque em todo o mundo 
pela invasão de sites oficiais, tal como aconteceu, no Brasil, com a 
Secretaria da Fazenda em 2012. Paralelamente, grupos formais de 
ciberativismo \u2013 como o CMI, Centro de Mídia Independente, o 
qual não usa moderação prévia e caracteriza-se por publicação aber-
ta \u2013 divulgam notícias, textos, fotos, vídeos e denúncias de todo o 
Brasil, em uma versão tupiniquim do Indy Media.
A primeira aparição do ativismo social na rede aconteceu com o 
movimento mexicano que luta pela libertação do estado de Chiapas. 
Os membros do Exército Zapatista de Libertação Nacional criaram, 
em 1994, listas de discussão sobre suas ações e, em 1996, colocaram 
na rede sua home page. O próprio Greenpeace tem em sua home page 
o espaço Ciberativista, no qual petições on-line são divulgadas a fim 
de impedir a aprovação de leis que prejudiquem o meio ambiente ou 
de apoiar a promulgação daquelas que o favoreçam.
Contra o ciberativismo existe o fator condicionante de que o 
computador com acesso à rede ainda não está disponível para to-
dos: o uso da rede vem constituindo-se como novo fator de exclu-
são dentro do mundo capitalista, regido pelo mercado e dotado de 
políticas estatais insuficientes para dar conta da oferta de banda 
larga para todos.
 11 Em 2012, por exemplo, um dos mais populares é o movimento ciberativista Veta, 
Dilma, que busca impedir a reforma do código florestal brasileiro.
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Além disso, há uma suspeição sobre a capacidade criativa da 
rede no que diz respeito a cumprir um papel cívico de pressionar 
governos e empresas a se ajustarem à opinião pública, assunto que 
indica a complexidade embutida na discussão ideológica sobre a ca-
pacidade efetiva das TICs, ou da rede, de provocar mudanças sociais 
significativas (Mattelart, 2006). 
Os ativistas curtem páginas do Facebook, repassam mensagens 
no Twitter, participam de comunidades do Orkut, postam e comen-
tam opiniões em blogs, assinam petições em listas e realizam outras 
atividades na internet; porém, o engajamento dos ciberativistas do 
lado de fora da rede, na maioria das vezes, é irrelevante ou inexistente.
Gera-se, assim, o fenômeno conhecido como Slacktivism \u2013 
união das palavras inglesas slack e activism \u2013, que pode ser tra-
duzido como ativismo preguiçoso, ou seja, praticado por pessoas 
que até chegam a participar do ativismo on-line, mas que não 
produzem atitudes práticas em sua vida concreta, pessoas que 
aparentam formas mais politizadas de participação digital \u2013 ou 
meramente se dizem ativistas digitais \u2013, mas não exercem de ne-
nhuma forma a participação social.
No ciberespaço, qualquer cidadão pode participar de fóruns 
e grupos de discussões, pode mandar e-mails a representantes 
políticos exigindo providências sobre determinada questão, pode 
assinar petições on-line cobrando de empresas e de autoridades o 
cumprimento de direitos, pode apoiar causas de direitos humanos 
e de defesa de minorias e pode até mesmo criar blogs para divulgar 
qualquer ideia ou causa.