BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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Tratar o ciberativismo do Kooora Tunisie como tema para a 
TVDi, no formato de um documentário, é o que se defende aqui. 
O documentário surge para registrar fatos naturais que desfilam 
à frente da câmera (Barsam, 1974) e pode ser compreendido, de 
forma sumária, como o produto que, a partir da visão subjetiva do 
diretor, oferece um registro de determinada realidade.
É natural que a linguagem do documentário ganhe diferen-
tes contornos de acordo com as mudanças tecnológicas dos equi-
pamentos que se destinam a fazer o audiovisual (Winston, 1995). 
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Com o desenvolvimento da TVDi, o gênero documentário ganha 
recursos interativos permitindo novos estilos.
A partir do eixo central que é o olhar proposto pelo diretor, ou-
tras narrativas podem ser exploradas pelo interator, desde os recur-
sos já utilizados \u2013 como os \u201cextras\u201d nos DVDs: jogos, cenas cortadas 
na edição, making of, informações textuais \u2013 até a escolha própria 
da narrativa: desvios da narrativa principal linear do documentário 
para interfaces interativas, sub-histórias, conteúdos extras diversos, 
disponíveis em tela enquanto o documentário é exibido, permitindo, 
inclusive, a pausa no conteúdo principal para retorno a posteriori.
Esse desvio para a interação gera quebra da narrativa revendo 
o conceito do documentário como obra autoral. Por mais que os 
desvios tenham sido feitos a partir do conteúdo original, a quebra 
da narrativa leva a obra para trajetos em paralelo. O documentário 
para TVDi deve ser realizado apostando nos hiperlinks, nos fluxos 
de interatividade, de modo que o conteúdo não seja fragmentado e 
sim expandido com a possibilidade de interação, educando acerca 
do tema proposto.
O documentário tem um importante papel como relato de 
experiências locais, de modo a difundir as culturas de um de-
terminado espaço-tempo em nível global e atemporal. Sua for-
ma interativa surge como narrativa de asserções sobre o mundo 
(Ramos, 2007), com conteúdos que permitam a participação do 
interagente, dada a sua capacidade de poder reagir com o écran 
por meio de dispositivos tecnológicos.
O documentário interativo permite a imersão dentro de locais 
e de culturas até então pouco explorados, fazendo que o intera-
gente sinta essa outra realidade. A partir do produto sólido, o do-
cumentário, são criados outros produtos que permitem interação, 
seja por meio de outras mídias como telefones, computadores, re-
vistas, seja pelo controle remoto.
A ideia é manter o interesse permanente durante a exibição, 
além da possibilidade de o edutretenimento conduzir o interator 
a formas de educar-se fora da formalidade. O conteúdo do do-
cumentário e seus produtos agregados podem estar relacionados 
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com questões culturais, linguísticas, musicais, arquitetônicas ou 
até mesmo ambientais.
Buscar conhecimento a priori e a posteriori, para compreender 
na totalidade o que acontece na tela, pode ser entendido como a 
experiência de viver o documentário junto com o documentaris-
ta, acompanhando seu cotidiano por interações na tela e outras 
formas digitais como videoblogs, situação percebida, por exemplo, 
em documentários da Discovery Channel.
Estimula-se a criação de documentários que permitam o de-
senvolvimento de comunidades de conhecimento em torno do 
produto audiovisual, buscando desvendar enigmas propostos e 
linguagens que façam parte do roteiro, pela adoção de símbolos e 
estéticas que instiguem o interator a participar, desvendar e, assim, 
educar-se com o produto.
Pensar em um documentário interativo sobre o ciberativismo tu-
nisiano exige poder dispor de recursos interativos que possam escla-
recer: 1) a situação geopolítica tunisiana; 2) a história do país; 3) a his-
tória da Primavera Árabe; 3) texto explicativo sobre a personalidade 
do ex-ditador Ben Ali; e 4) a breve história do jovem feirante Mou-
hamed Bouzazi, cuja morte foi o estopim da revolução na Tunísia.
O documentário resgata símbolos populares sem submetê-los 
à padronização massiva e seriada das matérias jornalísticas. O do-
cumentário existe como uma peça isolada e independente de audio-
visual e, com a interatividade, passa a carregar outros conteúdos: 
fóruns de discussões virtuais, jogos e informações adicionais.
A exibição global de uma realidade regional qualquer permite 
que ela saia de seu eixo de abrangência e ganhe conhecimento cole-
tivo, estabelecendo um processo de comunicação em que uma rea-
lidade altere outras realidades. Estabelecer, portanto, esse processo 
de comunicação torna-se o fator condicionante que mantém ou tira a 
informação de seu isolamento midiático (Ramos, 2007).
O interator, ao buscar maiores informações sobre o conteúdo 
exibido, aumenta seus conhecimentos sobre a realidade retratada, 
fortalecendo a comunidade que está prestando as informações, dan-
do-lhes respaldo e reconhecimento coletivo. A força da experiência 
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e da cultura rompe sua relação com o espaço territorial, provocan-
do mudanças de comportamentos em outros locais compartilhados 
pelo uso da mesma tecnologia.
As idiossincrasias do personagem documental se atenuam con-
forme se amplia o território da mensagem, que passa a ser crivado 
por olhares outros que não os da sua cultura. A princípio, as situa-
ções concretas podem continuar as mesmas, mas quanto maior for o 
número de encontros criativos, de interações, que resultem da exibi-
ção do conteúdo, e quanto mais os conteúdos circularem em outras 
culturas, mais vai se fortalecendo a causa defendida, ganhando seus 
atores mais espaço na mídia, criando, com isso, oportunidades para 
voltar os holofotes para sua luta.
O ciberespaço se constitui, basicamente, em um local para a comu-
nicação proporcionado pela interconexão mundial dos computadores e 
de suas memórias.12 Na TVDi, o documentário surge dentro do tele-es-
paço, ou seja, do espaço que, semelhante ao ciberespaço, permite que o 
vídeo se transforme em hipertexto, carregando seus conteúdos anexos. 
A inovação aplicada ao ambiente audiovisual \u2013 tal como descrito 
no formato do tele-espaço \u2013 ou mesmo o uso de outro gênero \u2013 como 
o documentário interativo \u2013 criam novas perspectivas para temas 
pouco estudados, como o ciberativismo tunisiano que se mostra ao 
mundo pela sua página no Facebook chamada Kooora Tunisie.
O surgimento da página, segundo seus criadores, vem de sites 
que antecedem o dia 14 de janeiro de 2011, data que os tunisianos 
definem como o marco de sua revolução, visto que representa o 
dia da queda do ditador Ben Ali. 
A Revolução Tunisiana registra oficialmente 338 mortos e 
2174 feridos e seu estopim é quando, em dezembro de 2010, um 
jovem feirante se suicida por ter seus produtos confiscados. De-
pois de quatro semanas de protestos intensos e uma greve geral, 
Ben Ali, no poder desde 1987, refugia-se na Arábia Saudita.
 12 Não se refere apenas à infraestrutura material de conexões para a comunicação digi-
tal, mas agrega as informações que ali circulam e os seres humanos que ali navegam, 
alimentam e consomem seu conteúdo e o tornam coletivo nos ciberespaço das comu-
nidades virtuais que existem nas redes sociais.
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A luta dos tunisianos incluía reivindicações por inclusão 
econômica, participação política e garantia dos direitos sociais 
mínimos. O movimento é sustentado nas ruas por jovens, pois 
42% da população tunisiana têm menos de 25 anos. A maioria se 
identifica com Mohamed Bouazizi, o jovem que imola seu corpo 
para chamar a atenção do mundo sobre a Tunísia.
A página Kooora Tunisie virtualiza (Lévy, 1999), no ciberespa-
ço, o clima que invade os cafés, as ruas e as universidades, criando 
em sua interface um ponto de encontro, de discussão e de difusão 
de informações acerca do país.
Ao final de 2012, conta com mais 208.000 membros, sendo ali-
mentada diariamente