BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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vontade, ou seja, aquilo que Cerroni (2012) diz 
ser a formulação de um novo problema relativo à fundação de uma 
ciência política que se identifique com a ciência da sociedade, bem 
como de uma ética da responsabilidade socialmente enraizada.
1
inovAção pArA quAl modelo de cidAde
Conforme foi dito, a cidade tem o tamanho exato para se trans-
formar em um laboratório de experiências sobre o impacto de po-
líticas públicas inovadoras com utilização de TICs. Nela também 
estão cristalizadas todas as contradições inerentes ao sistema eco-
nômico que organiza a sociedade. 
No campo virtual, porém, a cidade tem assumido, cada vez 
mais, a sua versão digital, fonte inesgotável de conhecimento 
sobre os governos, os cidadãos e as estruturas organizativas que 
orientam as relações sociais. Na rede virtual de comunicação e 
informação, é possível a experimentação de uma liberdade qua-
se absoluta. Assim, enquanto pequenos grupos identitários \u2013 que 
não ganham forma ou expressão concreta no sistema de represen-
tação social \u2013 podem ter sua existência garantida pela rede, grupos 
sociais importantes acabam por redefinir suas estratégias em fun-
ção das redes sociais que habitam o ciberespaço.
Diante de um fenômeno tão avassalador e de dimensões tão 
profundas, é possível perguntar se os impactos do processo de 
inovação são capazes de superar o território enquanto substrato 
material da experiência humana, rompendo a relação existente, 
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hoje, entre a magnitude da cidade e os índices de qualidade de 
vida de seus cidadãos.
Trata-se de saber que gestão de políticas públicas está dese-
nhada para atender qual tipo de cidadão circunscrito em que tipo 
de território, ou seja, a telemedicina vai vencer todos os obstá-
culos para o atendimento integral de um paciente de forma não 
presencial? O sistema de EaD vai prover a formação integral do 
estudante em todas as fases de sua vida escolar ou profissional?
Duas tendências opostas podem ser percebidas nas questões 
que envolvem o viver no território. Por um lado, a cidade ajuda o 
cidadão a desenhar a sua imagem de futuro. A luta concreta pela 
construção de uma vida de melhor qualidade vem acompanhada 
da luta pela garantia do Direito à Cidade (Bizelli, 2005): o direi-
to a ter à disposição um bom centro médico; uma boa escola ou 
universidade; praças, de lazer ou de esporte, bem equipadas; um 
serviço de transporte urbano ou de trânsito eficaz; água tratada; 
segurança pública; banda larga.
Por outro lado, a rede de comunicação e informação é dester-
ritorializada \u2013 virtual, mas real \u2013, possibilitando uma infinidade 
de relações: abertas, fechadas, por preferências, por segmentos, 
locais, globais, profissionais, de serviços, cívicas, legais, casuais, 
de apropriação individual ou coletiva, pública ou privada, enfim, 
da forma que se queira construí-las.
Discutir o espaço urbano no seu caminho de desconstrução 
\u2013 ou de reconstrução \u2013 da territorialidade não significa apropriar-
-se do discurso geográfico de reconhecimento do ciberespaço en-
quanto projeção do território (Silva, 2008) ou esgotar as tipologias 
urbanísticas das diferentes cidades concretas que existem na mo-
dernidade (Guerreiro, 2006).
No entanto, para testar os princípios esboçados anteriormen-
te em virtude da aproximação com esse laboratório cristalizado 
no território urbano \u2013 nas cidades digitais que passam a ocupar as 
pautas de investimentos dos governos ou nas tendências possíveis 
das cidades radicais \u2013, vou trilhar pela reconstrução de modelos 
urbanos que ganharam significado de interpretação para além de 
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sua materialidade histórica, de forma a poder testar seus limites e 
possibilidades estruturais.
A linha do tempo histórico durante a análise, portanto, não 
se restringe a um círculo, como que conduzindo a um eterno 
retorno ao passado, mas se transforma em uma espiral, na qual 
temas, conceitos e princípios são revisitados e requalificados en-
quanto ferramentas de análise crítica do agora, preservando sua 
novidade e ineditismo.
Provocar uma discussão sobre os limites e as possibilidades 
que hoje se relacionam aos projetos de cidade digital ganha impor-
tância: 1) porque se torna cada vez maior o valor dos investimentos 
\u2013 privados e públicos, estatais ou não estatais \u2013 feitos para colo-
car os municípios na rede mundial de computadores;1 2) porque 
se alocam recursos cada vez maiores em ações para a criação e o 
desenvolvimento de redes segmentadas de serviços;2 ou 3) porque 
ganha força a pesquisa para o avanço científico e tecnológico dos 
organismos que estudam a temática.3
Sendo assim, os três primeiros modelos de cidade a serem re-
visitadas compõem cenários de organizações sociais que podem 
ser abordados pelos diferentes significados que assumem seus 
territórios. A leitura da cidade permite uma análise para além da 
materialidade concreta da história do modo de vida, ampliando 
perspectivas para o entendimento das mudanças decorrentes da 
visão projetada de uma estética e de uma ética que permanecem.
A cidade não orienta apenas a construção dos fixos urbanos ou 
dos possíveis fluxos, mas ganha um significado recorrente: ou po-
lítico, ou filosófico, ou econômico, ou social, ou pedagógico; pro-
duzindo um universo simbólico que entrecruza culturas, mitos, 
religiosidades, crenças, ciência, técnica e saberes.
O primeiro modelo, a polis grega,4 é, sem dúvida, a imagem de ci-
dade que mais bem reúne o objeto da construção humana \u2013 material 
 1 No caso específico da América Latina, ver Iberomunicipais (2011).
 2 No caso específico da América Latina, ver Sitioempresarial (2011).
 3 No caso específico da América Latina, ver Acorn-redecom (2011).
 4 De forma especial Atenas.
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e imaterial \u2013 com a construção política e filosófica da territorialidade. 
O território revela concretamente o estágio de desenvolvimento da 
comunidade e ajuda a projetar eticamente a sua visão de futuro. Mais 
que isso, o futuro compartilhado se constrói pela polis.
Permanecem os conflitos da convivência delimitada por um 
espaço plural. Ricos e pobres; agricultores, trabalhadores, artesãos 
e comerciantes; servos, guerreiros, funcionários e magistrados dis-
putam suas diferenças em cada campo da construção urbana, mas 
cabe ao homem de virtude5 (Aretê) zelar para que o bem comum pre-
valeça sobre os interesses de uns ou de outros.
Embora a responsabilidade pública seja consequência da boa 
educação, o homem público \u2013 o homem virtuoso \u2013 não se confunde 
com o filósofo, visto que este é capaz de sacrificar, como Sócrates o 
fez, a liberdade política pela filosofia. Mais ainda, a atividade po-
lítica requer uma habilidade de trabalhar com elementos como o 
sagrado e a força bruta, incompreensíveis para os adeptos da razão. 
O filósofo é, portanto, um cidadão dentro da pluralidade da polis.
O governo da polis vai recair sobre a comunidade de homens 
livres e adultos os quais, para promover a formação de cidadãos 
virtuosos, ocupam os postos nas estruturas de poder. Além da 
busca pelo enriquecimento privado, o homem público é respon-
sável pela edificação da polis. Esse gérmen \u2013 que está na origem 
da democracia e da filosofia gregas e que, ainda hoje \u2013 tem signifi-
cado e potencialidade criativa para a reconstrução da cidade, pois 
significa a afirmação de uma capacidade humana de interrogar as 
instituições, as leis, a história, a cultura, os costumes e as religiões, 
provocando mudanças.
É a filosofia que permite o voo racional \u2013 contudo, incerto, por-
que é livre construção coletiva \u2013 da democracia na polis. No entanto, 
 5 \u201cOs antigos distinguem quatro virtudes cardinais: coragem, moderação (sofrosyne, 
entendida como uma apropriada submissão dos apetites sensuais), justiça (significan-
do respeito à lei e ao espírito público) e sabedoria (com ênfase nos aspectos