BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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radiodifusores e conivência do Ministério das Comu-
nicações (Minicom).
A audiodescrição começa a ser discutida no âmbito da radiodi-
fusão após a lei da Acessibilidade (Lei 10.098/2000)5 e do Decreto 
5.296/20046 que a regulamenta. Este último estipula que a regu-
lamentação da acessibilidade nos meios de comunicação de massa 
seria feita por meio de norma complementar estabelecida pelo Mini-
com. Ou seja, o órgão governamental responsável pela radiodifusão 
é induzido a desenhar essa política a partir de uma macrodiretriz de 
inclusão social das pessoas com deficiência.
Além da lei e do decreto, a política de implantação da audio-
descrição é apoiada pela Convenção dos Direitos das Pessoas com 
Deficiência, ratificada no Brasil em 2008, passando assim a ter valor 
de Emenda Constitucional.
O posicionamento do setor de radiodifusão desde 2005, com 
o início da discussão sobre a criação da norma complementar 
pelo Minicom, evidencia oposição \u2013 por ofícios, respostas a con-
sultas públicas e declarações em audiência pública \u2013 à implanta-
ção da audiodescrição.
A representatividade da Associação Brasileira de Rádio e Te-
levisão (Abert) perante o Minicom e o então ministro Hélio Costa 
conseguem adiar o oferecimento da audiodescrição na programa-
ção televisiva para 1º de julho de 2011 \u2013 Portaria Minicom, nº 188.7 
Além do adiamento, a pressão da Abert obtém sucesso na diminui-
ção da quantidade de horas de programação com audiodescrição e na 
obrigatoriedade de aplicação somente para a televisão digital.
leira, ver Machado (2011).
 5 Ver Brasil (2000b).
 6 Ver Brasil (2004).
 7 Sobre a avaliação feita pelo blog da audiodescrição para o primeiro ano (2011-2012) 
da adoção da medida no Brasil, veja Avaliação do primeiro ano da audiodescrição na 
TV aberta brasileira (2012).
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A discussão sobre a mão de obra especializada necessária para 
que se concretize a política é conduzida por uma polêmica global. 
Mesmo sabendo quais são os profissionais brasileiros que estão 
produzindo audiodescrição, em virtude de reuniões no Minicom, a 
Abert argumenta o elevado custo de produção por meio de uma pro-
posta encomendada pela Rede Globo nos Estados Unidos. É susten-
tado que o valor seria de US$ 102,00 por minuto, em julho de 2008.
Somente em janeiro de 2009 é que foi divulgada a cotação feita 
no Brasil por R$ 65,00 por minuto. Vale ressaltar que, nessa épo-
ca, a cotação do dólar variava entre R$ 2,18 e R$ 2,37 (BCB, 2011). 
Assim, convertendo os valores para o real, o custo por minuto de 
produção de audiodescrição por estadunidense é de no mínimo R$ 
222,36 \u2013 mais do que o triplo do custo nacional.
O Minicom ensaia alguns avanços na implantação da audiodes-
crição, mas os repetitivos questionamentos nas consultas públicas 
e as portarias de 2008 e 2009 denunciam qual era o velho time do 
ministro Hélio Costa. A demora na regulamentação da questão dos 
recursos de acessibilidade atinge o patamar jurídico com o mandado 
de segurança de 2008 e a ADPF 160.
Mesmo em relação à legislação da televisão digital brasileira, o 
Minicom não promove a acessibilidade para pessoas com deficiên-
cia. Na época da publicação do Decreto nº 4.901, de 26 de novembro 
de 2003,8 poucas são as informações sobre os avanços tecnológicos 
do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD) \u2013 o qual fixa 
entre os seus objetivos: promover a inclusão social visando à demo-
cratização da informação \u2013, principalmente, por ter sido o período 
em que o Minicom foi convocado para presidir o comitê de desen-
volvimento do SBTVD.
Em 29 de junho de 2006, data da publicação do Decreto 
nº 5.820,9 que dispõe sobre a implantação do SBTVD\u2013T, já 
havia grande conhecimento sobre as capacidades do padrão 
ISDB\u2013T. Inclusive, de que ele tem a capacidade de transmitir 
 8 Ver Brasil (1993).
 9 Ver Brasil (2006).
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mais canais de áudio, não se limitando apenas ao SAP, permi-
tido pela televisão analógica.
Vale lembrar que o Decreto nº 5.296 é de 200410 e que, em ou-
tubro de 2005, o Minicom faz a primeira reunião para discutir a sua 
regulamentação. Portanto, o Ministério tem conhecimento da ne-
cessidade de implantar recursos de acessibilidade no veículo televi-
sivo, mas a questão da acessibilidade não é colocada na legislação da 
televisão digital.
Visto esses dois panoramas, é possível perceber, pois, pontos 
comparativos em relação à política da audiodescrição na televisão 
brasileira e na britânica.
A) Legislação
Enquanto a legislação britânica estipula a implantação da 
audiodescrição em leis da radiodifusão, com destaque para o 
Broadcasting Act, de 1996 \u2013 que dispõe sobre a televisão digi-
tal \u2013, a legislação brasileira nasce sendo abrangente ao tratar da 
acessibilidade, focando nos meios de comunicação de massa, 
para daí regulamentar a implantação da audiodescrição na te-
levisão. Nas discussões entre 2005 e 2009, persiste a proposta 
de aplicação da audiodescrição na televisão analógica e somente 
depois do final de 2009 é que se estipula que a obrigatoriedade 
seria para a televisão digital.
Perdeu-se muito tempo discutindo se seria ou não adiada a 
inserção da audiodescrição na televisão, em vez de assumir que 
era pouco atraente a proposta de ser colocada na televisão ana-
lógica e motivar estudos e pesquisas para a viabilização da au-
diodescrição, logo no início da implantação da televisão digital 
brasileira. Assim, poderiam ter sido evitados atrasos por falta de 
normalização sobre acessibilidade na televisão digital, tanto em 
relação à transmissão quanto à recepção.
 10 Ver Brasil (2004).
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B) Lobbying
Se no Reino Unido o Ofcom e o Ministério da Cultura, Comu-
nicação e Indústrias Criativas legitimam o RNIB, no Brasil, o Mini-
com reconhece a representatividade da Abert.
O RNIB participa ativamente para a inserção da obrigatorie-
dade da audiodescrição na legislação e, também, para o desenvol-
vimento desse recurso de acessibilidade ao divulgar seus benefícios 
entre pessoas com deficiência visual \u2013 além de familiares e amigos \u2013, 
radiodifusores e audiodescritores.
Já a Abert atua fortemente no adiamento da implantação da 
audiodescrição, na regulamentação do processo, na quantidade de 
programação com audiodescrição e no cronograma de ampliação das 
cotas. Desde 2005, não poupa esforços para pautar a aplicação da au-
diodescrição somente na televisão digital, o que pode ser verificado 
no Ofício nº 90 da Abert de outubro de 2005.11
A ONCB ainda não possui estrutura e legitimidade, princi-
palmente, por causa de sua recente criação, em 2008. De fato, a 
tardia unificação do movimento pelos direitos das pessoas com 
deficiência visual dificulta a mobilização dos defensores da au-
diodescrição e a pressão para com o governo (Minicom, SNPD12 e 
Conade13) e o setor de radiodifusão. A ONCB deve ganhar legiti-
midade perante seus representados, o governo e a sociedade para 
poder sensibilizar e pressionar as emissoras para a implantação 
da audiodescrição.
Mesmo que tenham ocorrido manifestações a favor desse recur-
so de acessibilidade, não se pode afirmar que haja um movimento 
organizado pela audiodescrição no Brasil. Pessoas com e sem defi-
ciência já apresentaram diversas vezes seus anseios, mas de forma 
fragmentada em relação à estrutura de representatividade que os 
radiodifusores possuem.
 11 Ver abert (2005).
 12 Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
 13 Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
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C) Desenvolvimento da audiodescrição
O fato de a audiodescrição ter subido aos palcos de teatro bri-
tânico na década de 1980, como tecnologia assistiva para atender às 
necessidades de pessoas com deficiência visual, influenciou o anseio 
para a sua implantação na televisão. O projeto Audetel muito se be-