BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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práticos, 
inclusive políticos, e uma ativa solidariedade para com os amigos e inferiores). As 
virtudes serão, assim, resultado de uma síntese que harmonizaria razão e paixões e na 
qual ambas se transformariam para melhor\u201d (Miranda Filho, 1996, p.6-7).
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é a polis que determina os contornos, os limites, para que a filosofia 
exerça o seu fascínio. O fato de o filósofo ser um cidadão exige que 
ele se submeta \u2013 ou seja, aceite o sentido \u2013 à história da polis ou a 
subverta \u2013 ou seja, crie novos sentidos \u2013, contribuindo para com o 
trabalho público dos cidadãos, integrando-se ao corpo formado pe-
los homens livres e adultos que conduzem o destino coletivo.
A todos os cidadãos são garantidos os direitos da isonomia: a 
igualdade perante a lei; da isotimia: o livre acesso ao exercício das 
funções públicas; e da isogoria: o direito de fazer uso da palavra 
para manifestar a opinião nas assembleias.
Mais do que direitos, a estética da existência na polis exige de 
cada cidadão a igual responsabilidade de participação ativa na vida 
pública e na construção das leis pelo voto (ius sufragii) na Assem-
bleia do Povo; a igual responsabilidade de ocupar os cargos nos 
Tribunais, Cortes ou Júris, cuja indicação é feita por sorteio; e o 
dever moral de expressar verbalmente sua posição sobre os assun-
tos públicos que forem colocados em discussão. Na Ágora, ou fora 
dela, os homens livres e adultos exercem plenamente o direito de 
decidir sobre as questões legislativas, executivas e judiciais.
A polis grega constitui-se enquanto espaço-tempo da demo-
cracia direta, que pode ser delineada por três características fun-
damentais (Castoriadis, 1987): primeiro, os cidadãos exercem de 
forma intransferível o seu direito de escolha referente aos assuntos 
que dizem respeito à construção do espaço público e assumem a 
responsabilidade decorrente das decisões tomadas; segundo, não 
existem especialistas, experts, em assuntos políticos, uma vez que o 
processo de aprendizagem decorre da participação que é exercitada 
por todos \u2013 resulta que nas decisões políticas não há fundamento 
para o argumento de autoridade do especialista; terceiro, não há 
como separar a comunidade de cidadãos do Estado \u2013 sociedade 
civil versus Estado \u2013, pois ambos são, em resumo, indissociavel e 
indistintamente a polis.
Explicitar essa primeira imagem de território não significa, 
porém, esquecer que Atenas, por exemplo, era uma cidade-estado 
pequena tanto em população quanto em dimensão territorial, se 
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comparada com as cidades modernas. Além disso, as constantes 
guerras forneciam aos atenienses um contingente enorme de escra-
vos que se ocupavam das atividades operativas do cotidiano. Da-
dos de recenseamento feito ao final do século IV a.C. revelam que, 
para 21 mil cidadãos atenienses \u2013 que com suas famílias chegavam 
a 70 mil pessoas \u2013 e 10 mil estrangeiros, havia 200 mil escravos ocu-
pando um território de mil milhas quadradas.
Não significa esquecer, também, a existência de uma tensão in-
terna vivida dentro das poleis gregas, resultado de uma acumulação 
de riquezas desigual; de uma ocupação desigual do território produ-
tivo \u2013 das melhores terras agricultáveis \u2013 e de uma consequente dis-
ponibilidade diferenciada para o lazer produtivo (skolé), canalizado 
à construção dos espaços de participação cívica (Chevitarese, 2004).
Contudo, Atenas dá exemplo de uma forma territorial concreta 
que mantém, principalmente entre os séculos V e IV a.C., o funcio-
namento de um sistema pedagógico de construção participativa di-
reta, no qual as diferenças encontram espaço para serem explicita-
das e discutidas; sistema em que todos são artífices, ou seja, autores 
responsáveis pela obra. A polis, mais do que território instituído, 
existe enquanto território instituinte.
O segundo modelo, a cidade liberal, nasce com o declínio do 
feudalismo e o germinar do capitalismo. Inicialmente, é a reu-
nião dos profissionais, organizados por guildas ou corporações de 
ofício, das ligas e das companhias comerciais, e dos desajustados 
contra o poder das aristocracias feudais e a favor da reinvenção da 
cidade como livre território. Cabe nesse período, portanto, uma 
clara alusão ao renascimento do espírito \u2013 ético, estético, político e 
social \u2013 que orienta a polis grega.
No entanto, com o avanço das relações capitalistas indus-
triais de produção, a cidade liberal vai se afastando da polis ao ser 
consolidada a transformação do servo em homem livre: liberto do 
meio produtivo \u2013 a terra \u2013, dos instrumentos de trabalho e das 
relações feudais de produção para poder vender a sua capacidade 
de transformar e agregar valor nas mercadorias. O homem livre, 
no sentido liberal clássico, transforma-se em força de trabalho 
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disponível para a atividade industrial capitalista que se materia-
liza no espaço urbano.
A passagem para o mundo liberal não é poética nem represen-
ta um momento afirmativo da organização da vontade política dos 
cidadãos em favor da reconstrução do éthos grego. Exemplos da 
violência envolvida no processo de passagem da sociedade agrária 
medieval para a sociedade burguesa urbana podem ser verificados 
em descrições dos processos de cercamentos \u2013 enclosures \u2013 na Ingla-
terra: as terras comuns precisam tornar-se propriedade privada e os 
homens livres têm de ser convencidos à submissão ao assalariamen-
to, a qualquer preço, ou seja, à força.
Também o desenho que ganha o território, no início do capita-
lismo industrial, é degradante, conforme é possível perceber pelos 
relatos de Engels (2008) sobre a situação da classe trabalhadora na 
Inglaterra. Somente quando as doenças se alastram pela malha urba-
na \u2013 sem respeitar os limites de separação entre os bairros ricos e as 
áreas deterioradas onde moram os pobres \u2013 e quando as revoluções 
ficam incontroláveis \u2013 dadas as configurações das ruelas dos centros 
nas principais cidades \u2013 é que o olhar sanitário e funcional do urba-
nismo é chamado a intervir na organização dos espaços físicos.
Da mesma forma que o sistema capitalista industrial transforma 
o cidadão em força de trabalho, o território urbano também se trans-
forma em um bem de consumo, cujo valor passa a determinar a es-
tratificação social dentro do tecido urbano. A cidade liberal segrega e 
separa, enquanto, discursivamente, ordena os espaços urbanos, mas 
a lógica de valorização do solo6 acaba por fazer que o planejamento 
estratégico do território e os grandes projetos urbanísticos se curvem 
a interesses, tais como os da exploração imobiliária.
A implantação de um sistema de produção como o capitalismo 
não pode ser feita sem um agente de dominação forte e violento. Como 
ensina Weber (1970), o ente moderno que exerce a violência legítima 
 6 Sobre a lógica da desordem urbana, ver Kovarick (1980). Sobre a valorização do solo 
urbano, ver Santoro (2005) e os trabalhos do Lincoln Institute of Land Policy (2012) 
em seu Programa para a América Latina.
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na cidade é o Estado. O Estado moderno, portanto, nasce absolutis-
ta (Anderson, 1974), subjugando interesses dispersos pelo território 
àqueles ligados à produção econômica. Todo o discurso do contrato 
jusnaturalista opõe o estado natural, no qual os seres humanos correm 
perigo, abandonados que estão à sua própria sorte, ao estado civil, no 
qual o Estado cuida daqueles que vivem em seu território.
Assim, a cidade liberal extermina os últimos resquícios de um 
território único que represente os anseios de construção coletiva 
da comunidade. Do mesmo modo que o cristianismo cria a dua-
lidade corpo e alma para justificar a servidão e a pobreza huma-
na, o liberalismo inventa a dualidade Estado e sociedade civil para 
encontrar um agente externo que consiga implantar os interesses 
econômicos de poucos como se fossem os interesses de todos.