BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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O 
que estava reunido na polis agora está dividido na luta econômica 
pela ocupação do território.
No século XVIII, o Estado se impõe à sociedade civil de várias 
formas dentro do pensamento jusnaturalista. A primeira configura-
ção atende à vontade absoluta do soberano: a monarquia (Hobbes, 
1979). No entanto, conforme a nova classe burguesa se torna eco-
nomicamente dominante, não é mais possível confiar em um agente 
que confunde a res publica com a res principis. A segunda forma é, 
assim, o Parlamento aristocrático, no formato encontrado na Ingla-
terra (Locke, 1983).
Na França, o pensamento de Rousseau (1973) rompe com os 
pressupostos da filosofia liberal e recupera aspectos importantes do 
pensamento grego, propondo uma cisão com os interesses da mo-
narquia francesa. As consequências podem ser notadas no espírito 
que invade o território francês durante a Revolução de 1789 e nas 
desordens que seguem até o governo de Napoleão III.
O autor genebrino reconstrói a ideia de uma associação de cida-
dãos que, abrindo mão de suas liberdades individuais, só obedecem 
a si mesmos no processo de construção da vontade geral, ou seja, da 
Lei. Todos os cidadãos reunidos para escolher, por meio do voto 
igualitário, os caminhos que a cidade deve seguir. Não se trata de 
encontrar a expressão da vontade majoritária contra as minorias, 
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mas do poder do argumento das ideias e do exercício da retórica 
gerando o convencimento e o acordo entre todos.
Ao reconhecer que a desigualdade é o flagelo que assola a 
cidade liberal, Rousseau (1973) coloca o Estado como uma for-
ça de controle social capaz de garantir as condições mínimas de 
existência do cidadão. Freitag (2002) relembra que o movimento 
desencadeado na França de 1789 coloca em pauta as adequações 
necessárias da cidade ocidental para atender e garantir os Direitos 
do Homem e do Cidadão. Conforme argumenta, são as cidades da 
Europa central que dão origem aos Direitos Humanos, formula-
dos pelos enciclopedistas e filósofos do século XVIII.
Os descaminhos da Revolução Francesa, no entanto, transfor-
mam-se em argumentos para a oposição a qualquer fórmula que se 
aproxime da democracia participativa. Assim, Montesquieu (1973) 
vai criar um sistema de pesos e contrapesos para o governo da cida-
de: só a tripartição do poder entregue a diferentes forças sociais \u2013 o 
monarca, o parlamento e o povo \u2013 impede o despotismo.
A reação mais forte à participação popular no processo de 
construção da cidade vem com Constant (1985), no século XIX, 
quando é selado o acordo liberal contra a democracia direta pre-
sente no modelo da polis grega. Segundo o autor liberal, os moder-
nos não querem a liberdade de decidir sobre as questões públicas 
que definem a configuração do território. Eles querem a liberdade 
privada de consumir sem restrições a cidade liberal, por meio da 
apropriação da riqueza produzida pela gestão de seus negócios 
econômicos, ou seja, pela exploração do trabalho.
Fecha-se o entendimento sobre a cidade enquanto espaço de 
consumo privado e não de criação coletiva. A democracia repre-
sentativa, na qual a representação política passa a constituir uma 
das atividades dentro da divisão social do trabalho, transforma-se 
no meio de decidir sobre as questões que dizem respeito ao terri-
tório da cidade liberal.
No campo oposto ao liberalismo clássico, no século XIX, está 
colocado o marxismo. Por maiores que sejam as divergências, Marx 
não consegue romper operacionalmente com a ideia de um Estado 
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forte dobrando a vontade dos cidadãos. Pela leitura da esquerda ou 
pela leitura da direita, a fotografia da cidade liberal é antidemocrática.
O medo do que pode representar o voto das massas pobres para 
os liberais clássicos e a política entendida como teatralização \u2013 for-
ma que assume a democracia burguesa para os socialistas \u2013 afastam 
qualquer possibilidade de retomada dos princípios políticos e filosó-
ficos que norteiam a existência da polis.
A luta entre as duas visões de mundo \u2013 capitalismo ou socia-
lismo \u2013 e, principalmente, os conflitos armados \u2013 as duas Guerras 
Mundiais \u2013 colocam em dúvida a capacidade dos seres humanos de 
estruturarem a vida no território global. Hiroshima e Nagasaki são 
os signos da obliteração da vida no território, da banalidade da exis-
tência humana sobre a cidade liberal.
O sonho renascentista de criar um mundo homocêntrico \u2013 em 
substituição ao teocêntrico \u2013 revela-se possível na cópia humana do 
castigo a Sodoma e Gomorra, levando à crise do modelo liberal de 
cidade e desafiando o pensamento do século XX a redesenhar a vida 
no território urbano.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a social-democracia \u2013 
refletindo a imagem do socialismo de Estado soviético \u2013 vê no for-
talecimento racional da esfera pública a possibilidade de corrigir os 
rumos das desigualdades geradas no seio do modo de produção ca-
pitalista.7 Por meio do modelo keynesiano, a cidade liberal vai sendo 
minada em suas colunas de sustentação e o território é entendido 
como espaço permeável às demandas produzidas na luta e na orga-
nização social dos trabalhadores.
Fortalecido, o setor público trabalha para criar as condições de 
welfare state, ou seja, trabalha na ampliação do acesso ao Direito à 
Cidade, ao bem-estar social, para todos. Os cidadãos têm direito 
de usufruir a escola, a universidade, o centro médico, a creche, as 
condições de vida saudável, o acesso à informação e aos meios de 
comunicação dentro da nova configuração da cidade.
 7 Esta, segundo Przeworski (1989), foi a armadilha que engolfou a social-democracia 
no século XX.
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O espaço urbano deve ser recriado e reordenado politicamente. 
A proposta é dar condições de coexistir certo tipo de democracia \u2013 
partidária e competitiva \u2013 com determinado tipo de capitalismo \u2013 o 
welfare state keynesiano (Offe, 1983). A cidade liberal se esgota nas 
contradições do próprio capitalismo, necessitando ser reestruturada.
A exploração do trabalho e a concentração de renda geram cri-
ses cíclicas que deterioram a capacidade de consumo do cidadão, 
diminuem a demanda por produtos e, consequentemente, provo-
cam a queda da produção industrial e dos postos de trabalho. As 
contradições do modelo industrial capitalista geram, concomitan-
temente, o crescimento econômico desigual, as crises cíclicas, a 
concentração da riqueza, a pobreza urbana, o desemprego estru-
tural e a tensão política.
A fórmula keynesiana articula um deslocamento da luta econô-
mica \u2013 por melhores condições de trabalho, de salário e de vida \u2013 
para o campo da política. Os agentes produtivos, capital e trabalho, 
organizam-se em partidos e disputam o jogo democrático das elei-
ções para os postos de representação.
Toda a engenharia institucional partidária necessária para 
formar estruturas nacionais competitivas e todo o esforço de 
construção de consensos, visando um discurso que tenha ampli-
tude suficiente para atrair os votos de diversos tipos de eleitores, 
acabam por afastar da cena política as posturas mais radicais que 
colocam em risco os princípios da democracia representativa.
Criam-se ainda um sistema de salários indiretos, que dimi-
nui os gastos do trabalhador com sua reprodução \u2013 o Estado as-
sume ou financia indiretamente itens como saúde, educação ou 
previdência social \u2013, e um sistema de distribuição de ganhos de 
produtividade, com aumento real nos salários e na produção. Ga-
rante-se, dessa forma, maior volume de recursos disponíveis para 
aquecer o mercado de consumo, provocando um círculo virtuoso 
na economia: melhoria das vendas, maior demanda por produtos, 
aumento do número de empregos e mais dinheiro para comprar.
Dentro dos princípios do modo de produção capitalista, as 
instituições governativas constituem-se enquanto aparelhos de 
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