BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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a construção de um movimento 
de desregulamentação dos mercados de capitais internacionais, 
marcando uma nova fase da acumulação sob o signo da especula-
ção financeira globalizada.
Os impactos para a cidade são profundos: flexibilizam-se as 
formas de produção e as relações de trabalho. Verifica-se uma des-
valorização do setor industrial \u2013 desindustrialização \u2013 ante o setor 
terciário, representando um aumento dos empregos desimportan-
tes ligados ao setor de serviços. Firma-se como tendência a con-
tratação terceirizada e a informatização dos processos de trabalho, 
o que provoca crescimento do mercado informal de mão de obra. 
O resultado é a economia submersa, o trabalho ocasional, 
adicional ou ilegal. As relações de trabalho estáveis na indústria, 
que construíram as lutas por melhorias urbanas, passam a ser re-
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gidas pela instabilidade, pela informalidade e pela curta duração.
O conjunto de regras sociais estruturais, geradoras de lealdades 
e de consensos, entra em crise, perde a sua facticidade e a sua vali-
dade (Habermas, 1998) diante da materialidade da vida cotidiana 
dos cidadãos. Os próprios sistemas simbólicos que constroem a 
identidade territorial do homem moderno, hipoteticamente livre 
e igual, detentor de direitos civis e responsabilidades sociais, per-
dem capacidade de coesão e são colocados sob suspeição.
Rompido o elo entre a prática social e o discurso normativo 
racional, avançam, a partir da década de 1980, condutas como a 
formação de grupos religiosos fanáticos, o renascimento dos na-
cionalismos radicais, a criação de organizações anti-imigração, o 
ressurgimento da xenofobia, o recrudescimento dos movimentos 
racistas, o aumento da influência das organizações dos narcotrafi-
cantes, os fundamentalismos etc. Expressões como as configuradas 
anteriormente só vêm demonstrar a busca de novas identidades \u2013 
territoriais ou não \u2013 que ocupem o lugar do sistema simbólico nor-
mativo da cidade do welfare state keynesiano, em crise.
A esfera pública obtém cada vez menos integração social, 
preocupando-se mais com os ajustes econômicos internos perante 
o jogo dos capitais internacionalizados, sem conseguir influenciar 
de forma importante seus resultados. Gradualmente, perde força 
a ideia de uma sociedade de indivíduos, reunidos em uma comu-
nidade de cidadãos, regulados por um poder legítimo.
O mito racional da sociedade passa a ser desarticulado por 
um processo tecnológico planetário, ligado à informação e à co-
municação, que dissipa a fronteira entre o público e o privado, 
desterritorializando o universo simbólico das regras jurídicas de 
convivência. O papel reservado para a Política e, principalmente, 
para os políticos é constantemente associado a ações conduzidas 
por uma ética duvidosa ou por denúncias de corrupção, de nepo-
tismo e de gestão patrimonialista da coisa pública.
O desemprego estrutural que assola a maioria das economias 
capitalistas centrais tem seus efeitos especialmente perversos nos 
países mais pobres, mostrando a face de sociedades que passaram 
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décadas aprofundando a separação entre cidadãos plenos e margi-
nalizados sociais, incorporando apenas formalmente as regras de 
convivência social pacífica.
Enquanto a capacidade de governança (Frischtak; Atiyas, 
1996) das instituições públicas nacionais vai sendo posta em 
questão em todo o mundo ocidental, a situação dos governos dos 
países emergentes é mais grave, pois sofrem os efeitos do refluxo 
das regras capitalistas globais que funcionam, basicamente, sob 
as leis implacáveis do mercado.
As respostas apresentadas para a crise da esfera de influência do 
setor público, em relação às forças do mercado globalizado, enfocam 
uma reformulação das instituições governativas. A reforma do Esta-
do acaba por atingir a todos os países exigindo que o setor público 
venha a se adequar aos princípios da eficiência e da eficácia adminis-
trativa e da efetividade das políticas públicas.
Apontada como a responsável pelos desajustes econômicos, dada 
sua ineficiência e o tamanho de sua máquina administrativa, a esfera 
pública busca agilidade para responder aos desafios da exclusão social 
que se agrava. O governo que servira à fórmula keynesiana \u2013 baseado 
em um aparato sofisticado e fortemente regulador da vida socioeconô-
mica \u2013 abre espaço para organismos mais enxutos que atuam em par-
ceria com o setor privado e com as organizações não governamentais 
(Osborne; Gaebler, 1994).
É a resposta à visão neoliberal8 que olha para as estruturas 
administrativas de governo como inabilitadas estruturalmente 
para responder às demandas da sociedade. O exercício é cana-
lizar, via esfera pública, as energias de transformação para im-
por uma nova fase ao padrão de acumulação capitalista, na qual 
o governo processa e transforma em políticas públicas apenas 
uma parte das demandas sociais, parceiro que é da sociedade 
civil organizada.
 8 Tomamos o conceito de neoliberal na forma esboçada por Fiori (1995a, 1995b), que 
identifica o ideário neoliberal às teses do chamado Consenso de Washington, o qual 
preconiza um papel para o Estado submetido ao funcionamento do mercado.
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O setor público não pode perder seu papel, porém, enquanto 
promotor da lei e da ordem, garantidor dos contratos. Diante de fe-
nômenos estruturais como o desemprego, sem as vagas que podem 
ser abertas em função das novas demandas às estruturas de serviço 
que atendem nas áreas de saúde, educação e cultura, fica difícil en-
contrar alternativas de postos de trabalho.
É possível perceber o esforço discursivo para justificar as con-
tradições desmascaradas pelo modelo keynesiano na tentativa de 
desvincular a esfera pública das leis do mercado. Funções que foram 
colocadas nas mãos da máquina pública devem retornar aos chama-
dos movimentos sociais e que, mais bem estruturados em seu perfil 
administrativo e jurídico, passam a ser chamados de ONGs (Fran-
co, 1999; Neder, 1998; Piva, 1998).
O setor público não estatal cresce rapidamente em muitos paí-
ses \u2013 inclusive em países da América Latina (Bresser-Pereira; Grau, 
1999) \u2013, oferecendo uma construção discursiva alternativa ao welfa-
re state keynesiano (Dupas, 1998).
De qualquer forma, outros consensos podem ser retirados das 
análises de cenário. Cresce a certeza de que, na sociedade em rede 
(Fischer, 2008; Castells, 1998, 1999a, 1999b, 1999c), o ente local 
está mais apto para intervir. O slogan \u201cpensar globalmente e agir 
localmente\u201d (Swyngedouw, 2000) parece representar um consenso 
forte para o enfrentamento das questões governativas. A cidade é a 
porta dos direitos sociais e a gestão da cidade está nas mãos do poder 
local (Borja; Castells, 1996). A tendência, portanto, é a descentrali-
zação: descentralizar os serviços públicos, municipalizando as estru-
turas de atendimento ao cidadão.
Começa a se delinear na literatura a busca por valorizar as expe-
riências inovadoras na administração pública, que têm como foco o 
poder local, tanto do ponto de vista mais descritivo (Figueiredo; La-
mounier, 1996) quanto do ponto de vista mais metodológico (Giglio, 
1998). O próprio Gaebler, ao prefaciar o livro de Figueiredo e Lamou-
nier (1996), vai lembrar que em um sistema federativo são os gover-
nos locais os responsáveis pelo atendimento da população; portanto, 
a reinvenção do governo tem maior chance de sucesso nos municípios.
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Seguindo uma tendência que passa a ser adotada pela maior par-
te dos organismos internacionais de financiamento, em suas reco-
mendações de ajuste para o bom gasto do dinheiro público, há no 
discurso de fortalecimento do espaço de atuação do poder local uma 
crítica explicita às burocracias centrais.
Embora essa postura de análise possa ser rapidamente adotada 
como concordante, é preciso perceber que os textos