BIZELLI, José Luis   Inovação   limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento

BIZELLI, José Luis Inovação limites e possibilidades para aprender na era do conhecimento


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sobre a reforma 
sempre enfatizam que as estratégias adotadas para desonerar o po-
der central de algumas de suas atribuições serão tomadas para for-
talecer o governo nacional em sua capacidade de produção e gestão 
das políticas públicas.
Nesse sentido, caminham as conclusões de Arretche (2000) ao 
analisar a trajetória dos programas de descentralização de políticas 
sociais no Brasil, nos anos 1990, mostrando que o êxito de uma 
iniciativa de tamanho vulto depende da interação de compromis-
sos entre o ente central e o ente local. Por parte do governo central, 
haveria a necessidade de uma vontade real para a descentralização 
das competências, uma capacidade técnica para a elaboração dos 
programas e recursos para consolidar a adesão dos municípios. Por 
parte dos governos locais, haveria a necessidade de um cálculo que 
considerasse os custos e benefícios prováveis da decisão de assumir 
atribuições (Arretche, 2000).
Cresce a importância do uso das TICs nos processos de gestão 
da cidade diante das questões colocadas: sejam aquelas perten-
centes ao conjunto da reforma do aparelho estatal, sejam aquelas 
que dizem respeito aos processos de fortalecimento da esfera local, 
enquanto administradora das políticas sociais, construindo parce-
rias com os entes federados centrais, por um lado, e com as novas 
configurações jurídicas que assumem os movimentos da sociedade 
civil organizada, por outro. A nova administração deve ser capaz 
de processar um volume crescente de demandas da população que 
invade as arenas decisórias.
As cidades digitais surgem como infraestrutura necessária para 
dar suporte à gestão de uma sociedade que se desestrutura e se rees-
trutura em alta velocidade. Elas são capazes de permitir a articula-
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ção, a existência, a convivência e as trocas de aprendizagem de qual-
quer grupo social que não encontre espaço territorial para se afirmar, 
reinventando a identidade de forma virtual (e-groups).
Elas são capazes de imprimir eficiência e eficácia nos processos 
administrativos. Os tempos administrativos podem ser drastica-
mente reduzidos e as comunicações internas podem ser feitas via 
rede no formato e-administração pública. Elas podem oferecer ser-
viços de atendimento aos cidadãos que seriam impossíveis sem as 
TICs, rompendo qualquer relação territorial entre a fonte de oferta 
e a demanda, via procedimentos de e-serviços públicos.
Pela e-democracia, elas permitem que o governo da cidade seja 
visível, fornecendo novos meios para o processo de accountability e o 
de empowerment dos grupos sociais que disputam o espaço urbano. 
Possibilitam ainda a existência de novas formas de consultas sobre 
os rumos políticos a serem tomados.
Do ponto de vista esboçado aqui, as cidades digitais vão muito 
além da garantia de novos direitos urbanos aos cidadãos \u2013 garantir 
o acesso à banda larga para todos por sistemas públicos de distri-
buição via wireless ou cabo de fibra ótica. As TICs reforçam, in-
clusive, a consolidação dos direitos tradicionais \u2013 ou seja, a forma 
como se faz e se oferece saúde ou educação pública \u2013 mediante o 
governo eletrônico (e-governo).
Várias definições são dadas pela literatura ao governo eletrô-
nico: 1) utilização da internet e da web para ofertar informações e 
serviços governamentais aos cidadãos; 2) uso de novas tecnologias 
de informação e comunicação, especialmente a internet, como uma 
ferramenta para melhorar o governo; 3) uso das novas tecnologias de 
informação e comunicação aplicadas a um amplo arco das funções 
de governo e, em especial, deste para com a sociedade; 4) otimiza-
ção contínua da disponibilização de serviços governamentais, par-
ticipação do cidadão e fortalecimento dos processos de governança 
por intermédio das transformações nas relações internas e externas 
das máquinas administrativas, com o uso de tecnologia, internet e 
novas mídias; 5) e-governo não se restringe à incorporação de novas 
tecnologias para ampliar a capacidade de conexão entre governo e 
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cidadão; as relações dentro do próprio governo também se reinven-
tam, sendo que o governo, nas suas mais diferentes instâncias, passa 
a atuar em rede, ou seja, cada poder, cada esfera e seus respectivos 
desdobramentos trabalham como extensões, atuando como nós 
da rede de governo. Assim, o advento do e-governo é resultado da 
aproximação dos nós entre todos os atores: governo eletrônico, cida-
dãos, empresas, terceiro setor (Alves, 2006).
Além disso, o governo eletrônico pode atingir diferentes ní-
veis: 1) institucional: provisão de informações ou serviços à co-
munidade; 2) transacional: serviços oferecidos pelo governo que 
geram uma transação financeira ou comercial; 3) colaborativo: o 
portal do governo direciona o cidadão às suas demandas; 4) inte-
gração entre todos os níveis: os dados necessários para uma transa-
ção ou andamento de um processo administrativo estão integrados 
na base de dados do governo; e 5) personalização total: interação 
do cidadão com o governo de forma personalizada e customizada 
(Ferrer; Santos; Queiroga, 2004).
É cada vez mais comum a utilização \u2013 quer pelo governo, quer 
pelos cidadãos organizados nas cidades digitais \u2013 de ferramentas como 
sistemas ERPs9 (Enterprise Resource Planning) para gerar informação 
precisa, em tempo real e passível de circulação compartilhada, asse-
gurando um processo de tomada de decisão de maior qualidade.
Assim, as cidades digitais \u2013 do ponto de vista dos governos \u2013 ofe-
recem a possibilidade de reconstrução da esfera pública, muito em-
bora exista um forte viés de controle administrativo da informação e 
da comunicação na forma como seus projetos se apresentam.
A falta de regulamentação \u2013 a falta de mecanismos públicos de 
proteção \u2013 sobre a obtenção, o armazenamento e a utilização dos da-
dos acentua as características do processo de virtualização da vida, 
ou seja, a crescente necessidade de apropriação privada, individual e 
desterritorializada do espaço virtual hoje existente.
 9 Vários estudos demonstram a pertinência de ERPs na superação de desafios organi-
zacionais (Colangelo Filho, 2001; Saccol; Souza, 2003; Calisir; Calisir, 2004; Pollock; 
Cornford, 2004; Zviran; Pliskin; Levin, 2005; Gattiker; Goodhue, 2005; Okunoye; 
Frolick; Crable, 2006).
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O controle do governo na cidade digital desagrega os espaços 
coletivos tradicionais que têm sua existência territorial \u2013 espaços 
culturais, étnicos, religiosos, de aprendizagem \u2013 construída histo-
ricamente. Ele também franqueia a possibilidade de reconstrução 
desses espaços de forma desterritorializada, via rede. Toda comple-
xidade instrumental disponível, porém, se distancia da estética da 
existência presente na polis grega. Daí ser necessário expandir ao ex-
tremo as ferramentas que estão disponíveis nas cidades digitais para 
vislumbrar a cidade radical.
Do ponto de vista estrutural, a cidade radical não diverge das 
cidades digitais. A cidade radical é uma proposta política para ra-
dicalizar os processos que estão em curso, provocados pela era 
digital. Três são as direções básicas que orientam a reconstrução 
da cidade e que coincidem com os caminhos para a materializa-
ção dos princípios esboçados na introdução do trabalho: 1) in-
fovias radicais de comunicação: conexão pública de banda larga 
para todos os cidadãos; construção da cidade virtual tornando 
disponível todas as informações sobre a cidade, seu governo, 
seus negócios e seus cidadãos e implantação de um ERP capaz 
de dar novas habilidades a agentes públicos, políticos e cidadãos 
que se mantêm em permanente disputa no processo de tomada 
de decisões sobre o território; 2) educação radical para todos: 
universalização da educação formal e da educação tecnológica 
para o trabalho, utilizando os meios existentes para sua execu-
ção, incluindo EaD, estratégias