HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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bem, enquanto os EUA se abstiveram do uso de seu poder 
de imprimir dólares para atender apenas a seus interesses. Entretanto, a guerra no 
Vietnã e os programas da \u201cGrande Sociedade\u201d de combate à pobreza dos anos 1960 
(a estratégia de \u201carmas e manteiga\u201d, como se dizia na época) levaram a uma crise do 
dólar a partir de mais ou menos 1968. Foi nessa época também que as corpora\u2011
ções dos EUA começaram a enviar seu excedente de capital para o estrangeiro. 
Excedentes de dólares, fora do controle dos EUA, estavam se acumulando no siste\u2011
ma bancário europeu. A crença na taxa de câmbio fixa do dólar contra o ouro 
começou a ruir. Mas o que podia substituí\u2011la? 
A ideia de Keynes de uma moeda global neutra sob a forma de \u201cdireitos de 
saque especiais\u201d, com base no valor das cinco moedas mais importantes e geren\u2011
ciadas pelo FMI, foi retomada em 1969. Mas era uma ameaça à hegemonia dos 
EUA. Uma solução mais aceitável para o país, surgida de uma série de complica\u2011
dos acordos internacionais entre 1968 e 1973, foi abandonar a taxa de câmbio 
fixa com base no ouro. Todas as principais moedas do mundo começaram então a 
flutuar com base no dólar. Isso introduziu flexibilidade e volatilidade internacio\u2011
nal para o sistema de negociação, mas a moeda de reserva global permaneceu sob 
controle dos EUA.
O efeito foi substituir um desafio à hegemonia dos EUA por outro. Se era preci\u2011
so que o dólar permanecesse forte, a economia produtiva dos EUA tinha de ter um 
desempenho tão bom quanto a de seus rivais, se não melhor. Na década de 1980 fi\u2011
cou claro que as economias do Japão e da Alemanha Ocidental estavam muito à 
frente da dos EUA em termos de produtividade e eficiência e que havia outras amea\u2011
ças competitivas à espreita. Os EUA não podiam reverter para o protecionismo. No 
máximo, tinham de tomar a liderança para forçar cada vez mais livre\u2011comércio inter\u2011
nacional como um meio para a absorção do excedente de capital. Os EUA simples\u2011
mente tinham de competir. O capitalismo, que antes havia se desenvolvido ao longo 
de linhas de monopólio no quadro nação\u2011Estado, tornou\u2011se muito mais competitivo 
em nível internacional (exemplo disso é a súbita invasão do mercado de automóveis 
dos EUA por montadoras japonesas e alemãs). O capital financeiro, tanto interna\u2011
mente nos EUA quanto internacionalmente, teve de se mudar para o primeiro plano 
para alocar o excedente de capital para onde a taxa de lucro fosse maior.
Cresceram muitas indústrias, não nos Estados Unidos ou nos centros tradicio\u2011
nais de produção do Nordeste e Centro\u2011Oeste, mas no Oeste e Sul. O resultado 
foi a reorganização violenta e implacável e a deslocalização da produção em todo o 
mundo. A desindustrialização dos centros mais antigos de produção ocorreu em 
todos os lugares a partir das indústrias de aço de Pittsburgh, Sheffield e Essen à 
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indústria têxtil de Mumbai. Foi acompanhada por um surto impressionante na in\u2011
dustrialização de espaços totalmente novos na economia global, em particular aque\u2011
les com recursos específicos ou vantagens organizacionais \u2013 Taiwan, Coreia do Sul, 
Bangladesh e as zonas especiais de produção, como as \u201cmaquiladoras\u201d do México 
(fábricas de montagem livres de impostos) ou as plataformas de exportação criadas 
no delta do rio Pérola da China. Mudanças globais na capacidade de produção 
acompanhadas por inovações tecnológicas altamente competitivas, muitas das quais 
poupavam trabalho, contribuíram ainda mais para disciplinar o trabalho global.
Os Estados Unidos ainda mantiveram um poder financeiro enorme, mesmo 
perdendo sua dominância anterior (embora não significância) no âmbito da pro\u2011
dução. Cada vez mais, os EUA contaram com a extração de rendas, seja com base 
em suas vantagens em inovações tecnológicas e financeiras seja em direitos de pro\u2011
priedade intelectual. Mas isso significou que as finanças não deviam ser sobrecarre\u2011
gadas com excesso de regulamentação.
A queda do setor financeiro dos EUA em 2008 e 2009 comprometeu sua hege\u2011
monia. A capacidade do país de lançar um plano independente de recuperação do 
financiamento de suas dívidas foi limitada politicamente pela oposição ferrenha dos 
conservadores em casa, assim como pela enorme dívida acumulada a partir da década 
de 1990. Os EUA têm pedido empréstimos à taxa de cerca de 2 bilhões de dóla\u2011
res por dia há vários anos e, até agora, os credores \u2013 como chineses e outros bancos 
centrais da Ásia Oriental, juntamente com os dos Estados do Golfo \u2013 mantiveram 
os empréstimos porque os EUA eram uma economia demasiadamente grande para 
fracassar; o crescente poder dos credores sobre a política dos EUA é palpável. En\u2011
quanto isso, a posição do dólar como moeda de reserva glo bal está ameaçada. Os 
chineses ressuscitaram a sugestão original de Keynes e pe diram a criação de uma 
moeda global com direitos de saque especiais para ser gerido por um FMI presumi\u2011
velmente democratizado (em que os chineses teriam uma importante voz). Isso 
ameaça a hegemonia financeira dos EUA.
O fim da Guerra Fria também fez com que a proteção militar contra a ameaça 
comunista se tornasse irrelevante, na medida em que o ex\u2011bloco dos países soviético, 
juntamente com a China e o Vietnã por caminhos muito diferentes, tornaram\u2011se 
integrados ao sistema econômico capitalista global. Embora isso crie novas oportu\u2011
nidades para a absorção do excedente, também coloca o problema de acelerar a 
criação de excedentes. Tentativas de mobilizar o resto do mundo sob a égide militar 
dos EUA para a proteção contra outro inimigo \u2013 a chamada Guerra ao Terror \u2013 não 
tiveram êxito. 
É nesse contexto que temos de ler as previsões sagradas do Conselho de Inte\u2011
ligência Nacional dos EUA, publicadas pouco depois da eleição de Obama, que 
apresentam como o mundo será em 2025. Talvez pela primeira vez, um órgão ofi\u2011
cial dos EUA tenha previsto que, até lá, os Estados Unidos, ainda um jogador po\u2011
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A crise / 37
deroso no mundo dos negócios, não serão mais o operador dominante. O mundo 
será multipolar e menos centralizado, e a importância de atores não estatais (de 
organizações terroristas a ONGs) aumentará. Acima de tudo, \u201ca mudança sem 
precedentes na riqueza relativa e no poder econômico de maneira geral do Oeste 
para o Leste, já em curso, continuará\u201d.
Essa \u201cmudança sem precedentes\u201d inverteu a drenagem de longa data de riqueza 
do Leste, Sudeste e Sul Asiático para a Europa e América do Norte, que ocorre 
desde o século XVIII \u2013 uma drenagem que Adam Smith observou com pesar em 
A riqueza das nações*. A ascensão do Japão na década de 1960, seguida por Coreia 
do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong na década de 1970, e, ainda, o rápido 
crescimento da China depois de 1980, mais tarde acompanhados por surtos de 
industrialização na Indonésia, Índia, Vietnã, Tailândia e Malásia durante a década 
de 1990, alteraram o centro de gravidade do desenvolvimento capitalista, mes\u2011
mo que esse não tenha sido um processo suave. A crise financeira do Leste e 
Sudeste Asiático de 1997 a 1998 viu um fluxo de riqueza voltar de forma breve, 
mas forte, a Wall Street e bancos europeus e japoneses.
Se as crises são momentos de reconfiguração radical do desenvolvimento capi\u2011
talista, então o fato de os Estados Unidos terem de financiar por meio de déficit sua 
saída das dificuldades financeiras em uma escala tão grande e de os déficits serem 
em grande parte cobertos por países com excedentes poupados \u2013 Japão, China, 
Coreia do Sul, Taiwan e Estados do Golfo \u2013 sugerem que esta pode ser a ocasião 
para tal mudança. É mesmo possível interpretar as atuais dificuldades dos EUA e 
Reino Unido como o troco ao que Wall Street e a City de Londres fizeram ao Les\u2011
te e Sudeste Asiático, em 1997 e 1998. 
Mudanças tectônicas desse tipo já aconteceram antes, como descrito